Sérgio Moro prevê fortalecimento do Coaf no Ministério da Justiça - REUTERS/Adriano Machado

De sobressalto em sobressalto, na semana que passou o assunto ficou por conta da divulgação de trechos de conversas atribuídas ao então juiz e hoje ministro Sérgio Moro e o procurador responsável pela Operação Lava Jato, em termos certamente impertinentes. Cabe sim, apurar, conforme argumentam os defensores desses personagens, ter em conta as circunstâncias em que se deram as gravações e igualmente, diante do que chegou às páginas dos jornais, não perder de vista ou desqualificar os gravíssimos desvios cometidos, ferindo o Judiciário e reputações dadas como acima do bem e do mal. Por fim, mas não por último, pesar as consequências dos desvios que deram a lume. Corrupção, na esfera pública, está longe de ser novidade e sim um processo endêmico, antigo, que nos últimos anos está sob holofotes mais por ambição que por virtude. Talvez, e muito provavelmente, nada essencialmente diferente do “mar de lama” que levou o então presidente Getúlio Vargas ao suicídio e, dez anos mais tarde, ao movimento que apeou João Goulart do poder, afastando o País da democracia pelos vinte anos seguintes.

Numa visão histórica, tanto quanto possível desapaixonada, não é difícil perceber as coincidências ou, talvez, a falta de imaginação. O mote, mais uma vez, foi corrupção, de cuja existência e amplitude não há como duvidar. A questão, a grande questão, é que tudo talvez não tenha passado de uma escada para o poder, em que os personagens às vezes até se repetem, sem demonstrar nenhum constrangimento ao pular de um lado para outro, como aquele deputado baiano, hoje presidiário, que frequentou manifestações exigindo, exaltado, o fim da corrupção e logo adiante se revelou o responsável por um apartamento transformado em caixa-forte para guardar dinheiro vivo, milhões cuja origem não se pode comprovar. Assusta, decepciona, a hipótese de que tudo isso tenha sido não mais que pretexto, que promotores e juízes escandalizados e apontados como salvadores da pátria, de alguma forma, podem ter sido apenas peças da engrenagem política, esquecidos evidentemente valores dos quais não deveriam se afastar e, assim, com seus ímpetos moralizadores claramente instrumentalizados, direcionados exclusivamente para o que lhes parecia conveniente.

Como foi dito e repetido nesse espaço em diversas ocasiões, transpareciam ambições que não encobriam supostas e tão apregoadas virtudes. Um golpe no seu sentido mais amplo, especialmente para os que acreditavam que o combate à corrupção, tão necessário, seria transparente e reto, sem fazer escolhas ou desvios. Triste conclusão para uma nação que precisa ser reinventada e a partir de valores que continuam parecendo distantes e fora de alcance.