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Marco Guimarães *

Eram 6:30 da manhã quando o comissário telefonou pra Natalie. Ele fora convocado pelo prefeito para discutir sobre o caso do sequestro da menina Aline e precisava saber se havia algum fato novo.

— Bom-dia, tenente Natalie, sei que é cedo, como sei também que você deixou o distrito de madrugada. Imagino o quão cansada deva estar.
— Bom-dia, comissário. Dizem por aí que algumas obrigações nos fazem encontrar o nosso cansaço mais rapidamente. O Sr. tem razão, ando mesmo muito cansada. Mas por mais que a monotonia, que enfrentamos em nossas folgas insista em nos instalar o tédio, ela não o consegue. Talvez esse seja o lado positivo dessa nossa profissão: não temos tempo para o próprio tempo, e sequer temos tempo para conhecer o tédio.
— E o fato de não podermos escolher os nossos inimigos nos mantém jovens.
— Ah, essa eu não entendi, comissário.
— É porque os velhos se contentam com os inimigos que tem às mãos — disse. Nós, no entanto, não escolhemos nossos inimigos, os que temos que prender por infringirem as leis.

“Mas vamos às cobranças. Quanto mais alto o posto, mais elas nos são feitas. A minha natureza as aceitaria se o meu fígado permitisse, por isso tento evitá-las, embora nem sempre consiga. O prefeito me ligou agora querendo saber o que há de novo no caso. Hoje pela manhã ele deverá ir à televisão para uma entrevista e quer que eu lhe dê o maior número de informações. Como você sabe, os eleitores cobram uma posição da polícia.”

— Pois é, Sr. comissário. A cada dia que passa surge uma novidade. E o pior é que as notícias não são nada boas. Agora a Virgínia, esposa do capitão Maurel, ou ex-esposa, não sei bem como estão as coisas entre eles, também desapareceu.
— Como, desapareceu?
— Recebi um telefonema de sua amiga Annick dizendo que ela deveria ter chegado em Fixin há dois dias. Ela dormiu na casa de outra amiga, Isabelle, e, segundo essa Annick, ela, ao sair de casa, telefonou-lhe dizendo que, antes de pegar o ônibus 91, passaria pela Rue Pascal para pegar uma roupa que deixara para conserto. Mandei recolher todas as imagens da câmera do hotel da Rue Pascal.
— Algum resultado?
— Sim, ela foi vista pela última vez descendo a Rue Pascal. Embora o campo visual se restrinja a alguns metros, pressuponho que ela tenha subido as escadas daquela rua e saído no Boulevard Port Royal, porque iria pegar o 91, e a parada mais próxima desse ônibus fica quase na esquina da Rue de la Glacière.
— Bem, o seu raciocínio me parece correto. Algum outro fato?
  — Há uma coisa que me chamou a atenção. Quando as filmagens mostram o capitão Maurel descendo a Rue Pascal, alguns minutos após ele passar,
aparece um corvo que o acompanha. Esse mesmo corvo, suponho, também surge nas filmagens que mostram o desaparecimento da menina Aline e de sua sequestradora. Ele aparecia e sumia das imagens da câmera do hotel, ou seja, ele ia e vinha sucessivamente, como se buscasse uma saída, parecia estar meio perdido.         
— Mas isso é relevante?       
— Foi exatamente essa pergunta que me fiz, comissário; mas aí reparei que o corvo deixou de aparecer nas filmagens após ter acompanhado o capitão Maurel, ou seja, ele, aparentemente, também desapareceu.
— Isso não me parece importante; afinal, há milhares de corvos por aí em busca de alimentos, escassos nesse inverno. E com relação a Maurel, alguma novidade?
— Nada, não há o menor vestígio dele. Fizemos uma extensa varredura dos locais onde ele poderia ter estado. Começo a ficar preocupada.
— O Maurel é mestre em se safar de situações extremamente perigosas, sem contar que o homem parece ter um dos melhores anjos da guarda da praça.
— Isso é lá verdade. Um dia ele contou que esteve na iminência de morrer várias vezes.
— Também conheço o seu passado. A mãe, grávida, com ele prestes a nascer, levou um tiro e por pouco não morrem os dois. Foi um milagre. Portanto, não se preocupe, seu anjo de guarda ainda deve estar de plantão, cumprindo a missão que os céus lhe destinaram. Bem, vou desligar. Tenho que telefonar para o prefeito. Já me preparo para ouvir poucas e boas dele, e imagino que ele deverá se preparar para também ouvir muita cobrança do povo.
 
 *Escritor. Autor dos livros “Fantasmas de um escritor em Paris”, “Meu pseudônimo e eu”, “O estranho espelho do Quartier Latin”, “A bicha e a fila”, “O corvo”, “O portal” e “A escolha”