Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Aristoteles Atheniense *

As dificuldades que Bolsonaro vinha enfrentando na aprovação da reforma da Previdência devem ser atribuídas, sobretudo, ao tratamento que dispensa ao Legislativo e à preferência que nutre pelo público minoritário que o apoiou no processo eleitoral. A estas deficiências devem ser acrescidas a sua mentalidade autoritária, arroubos populistas e a imperícia com que procede em relação aos pronunciamentos de seus adversários.

A esta altura, é sobejamente conhecida a sua opção pela pequena política, tendência que já revelara durante a sua atividade parlamentar. Até hoje não há notícia de qualquer interesse seu pelos grandes debates constitucionais, pelos temas mais relevantes, que possam ser discutidos no Congresso.

Daí o uso reiterado de decretos a que imprime a sua mentalidade estreita, ao invés de manifestar intenção em compor-se com os opositores, tal como fizera Juscelino Kubitschek, quando das sedições ocorridas em Jacareacanga e Aragarças, já nos primeiros dias de seu mandato.

Devido a essa relutância, torna-se difícil obter a aprovação de seus projetos, em face de frequentes desencontros com os presidentes da Câmara dos Deputados e Senado Federal.

Participando de uma festa junina, Bolsonaro anunciou que, em 2020, deixará o Brasil em situação mais promissora do que o encontrou quando de sua posse. Mesmo admitindo que poderá contar com o apoio popular, segundo pesquisa encomendada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), a insatisfação com o atual governo subiu de 27% em abril para 32% em junho.

Questionados pelo Ibope quanto à aprovação de sua gestão, o percentual de 21% em janeiro atingiu a 48% no mês passado. Já os que abonavam a sua administração, que eram 67% em janeiro, passaram a 51% em abril, atingindo a 46% na última pesquisa realizada em junho.

Esses resultados não são recebidos com simpatia pelos seus apoiadores e mesmo a parcela que o elegeu já externou seu desconforto, embora acreditando que futuramente o presidente possa redimir-se dos erros já cometidos.

A aprovação da reforma da Previdência, obtida a custo elevado, será mais por mérito dos presidentes das duas Casas Legislativas do que por esforço do Palácio do Planalto. Em relação ao pacote anticrime de Sérgio Moro, ainda que Bolsonaro teça loas ao ministro da Justiça, não há notícia de empenho de sua parte para que o projeto seja aprovado.

Nos últimos dias, os bolsonaristas sustentaram que o fechamento do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul deva ser creditado à atuação do chanceler Ernesto Araújo, sob a orientação de Bolsonaro. Ainda que aplaudido o resultado obtido, vale lembrar que este ajuste foi costurado no governo de Fernando Henrique, em 1999.

O comportamento de Bolsonaro no encontro do G-20, à semelhança do que ocorrera em Davos, nada teve de significativo que trouxesse a certeza de que o presidente está evoluindo no relacionamento mantido com outras nações.

A falcatrua constatada em Sevilha, envolvendo o militar que prestava serviço à presidência da República, embora não deva ser debitada ao governo, afetou a sua autoridade, por deficiência na fiscalização de parte dos órgãos que cuidavam de sua incolumidade.

*Advogado, Conselheiro Nato da OAB e Diretor do IAB