Crédito: Carolina Antunes/PR

Tilden Santiago *

Só uma sessão coletiva de psicanálise cura uma “pulsão de morte”.

Estava muito difícil entender a atual conjuntura econômica e política do Brasil nos primeiros meses do governo Bolsonaro. Um presidente que passou 28 anos na Câmara rodeado de colegas do “Baixo Clero” aprovou apenas dois projetos. Pode vir algo bom do “Baixo Clero”? Chegando ao Planalto ele dá o troco. Governa e administra multiplicando decretos inexplicáveis e infantis referentes ao trânsito (regulação de cadeirinhas de bebês, porte de armas e outros).

Agora após a revelação dos diálogos entre Moro e Dallagnol, mais difícil se tornou o entendimento do País em que vivemos e para onde caminhamos. Estamos adentrando em um caminho de sombras e trevas.

Como atravessá-lo e arrancar após essa travessia, no rumo de uma nação iluminada e justa, como o tratamento que vem sendo dado à ciência, pesquisa, educação, produção de conhecimento? Com o desprezo das estatísticas do IBGE, da filosofia e outros ramos do saber universal.

Houve recentemente um Congresso Brasileiro de Linguística, em que Marcos Bagno, filólogo, linguista, escritor, professor e doutor em letras, nascido em Cataguases, demonstrou o atual governo como glorificação da ignorância: “É uma pulsão de morte que move cada ato desse governo, é uma perversidade sádica, é o elogio da insanidade, do obscurantismo, é a glorificação da ignorância”.

A educação vive uma situação apocalíptica, deixando de ser a grande prioridade do País como vinha acontecendo quando o Brasil foi governado por diferentes partidos e líderes políticos de diferentes tendências ideológicas. Havia tolerância com a diversidade de pensamento, filosófica e ideológica da parte do Estado e de pedagogos. Nem todo mundo era Paulo Freire!

Ao contemplar esse quadro, Marcos Bagno fala de “pulsão de morte”. Passou longe de qualquer eufemismo ao analisar o Brasil de hoje.
Impressiona falar de “pulsão de morte”, movendo cada ato de governo. A expressão impressiona dada a situação de o Brasil ser contaminado por uma epidemia de retrocesso e conservadorismo que invadiu o planeta. A humanidade é assim: vive de sombras e trevas alternadamente.

Não é nos aproximando de Tramp que evitaremos a epidemia que flecha a humanidade. Nem mesmo da Europa, indiferente e mesmo cruel aos “refugiados”. Nem da Turquia, da Hungria, das Filipinas que primam pelo autoritarismo. Não é nos aproximando do “liberalismo democrático” e/ou populismo pela direita (mitos, só mitos!).

É enganar os brasileiros, colocar um foco prioritário na Previdência Social e iludir as massas, dizendo que ela será uma ponte (termo de Temer e do PMDB) à panaceia para se chegar a um Brasil-paraíso. É uma maneira ardilosa de tirar o foco dos verdadeiros problemas da população: desemprego, má distribuição de renda, desigualdade social excessiva, carências na saúde, educação, segurança, no incentivo à cultura, nas políticas publicas populares, na defesa do meio ambiente e das amplas faixas de miséria e de uma política externa equilibrada.

O foco que se põe na reforma previdenciária é para evitar transparência nos atos do Estado, mantendo o povo ignorante e inconsciente dos males que o afetam.

Nem projetos econômicos, nem carisma político nos curam dessa “pulsão de morte”. O lugar do Brasil hoje é no divã da psicanálise para se curar e poder avançar. Mas supõe a liderança de um psicanalista especial, capaz de escutar e falar ao povo, conclamando para um mutirão de vida contra a “pulsão de morte” e as trevas. Saudades de Tancredo Neves.

*Jornalista, embaixador e filósofo