Crédito: AMINTAS VIDAL

AMINTAS VIDAL*

Aparentemente mais antenada que suas concorrentes, a Renault jogou com o regulamento debaixo do braço ao projetar o Kwid. Além do design típico de SUV, ela o fez com altura em relação ao solo e ângulos de entrada e saída suficientes para classificá-lo como “o SUV dos compactos”.

Se modelos travestidos de aventureiros já fazem sucesso em nosso mercado, o que dizer deste subcompacto que mais parece um SUV em escala reduzida? Lançado, inicialmente, em três versões, a linha acaba de ganhar uma aventureira, a Outsider.

E o resultado ficou muito bom. Novos para-choques com apliques que imitam quebra-mato, protetores das portas com volumes salientes, barras longitudinais no teto que são apenas decorativas e adesivos alusivos à versão incrementaram o visual externo, o ponto forte do modelo.

Internamente, novos detalhes na cor laranja aplicados em partes dos bancos e em suas costuras, assim como no volante, nas portas e na manopla do câmbio e molduras em preto brilhante no painel e no console central conferiram um requinte que as outras versões não têm.

DC Auto recebeu o Renault Kwid Outsider 2020 para avaliação. No site da montadora, seu preço sugerido é R$ 43,99 mil. A versão vem equipada, de série, com 4 airbags (2 frontais e 2 laterais), Isofix, freios ABS, direção elétrica, faróis de neblina,vidros dianteiros e travas elétricas, ar-condicionado, computador de bordo com indicador de troca de marcha, retrovisores elétricos, sistema multimídia, abertura elétrica do porta-malas a distância, câmera de marcha à ré e chave canivete, entre os principais equipamentos.

A cor metálica acrescenta R$ 1,45 mil. Na compra on-line do site não são oferecidos opcionais.

Crédito: AMINTAS VIDAL

Motor e câmbio – Seu motor é o 1.0 flex, de três cilindros, com injeção multiponto e duplo comando de válvulas tracionado por corrente. Por não ter variação na abertura das válvulas, como o motor 1.0 do Logan e do Sandero, seus números de potência e torque são ligeiramente menores.

Ele gera 70/60 cv às 5.500 rpm e 9,4/9,8 kgfm às 4.250 rpm com etanol e gasolina respectivamente. Seu câmbio é manual de cinco marchas com embreagem monodisco a seco. O tanque de combustível comporta apenas 38 litros, mas o porta-malas com 290 litros de capacidade é até maior do que os de alguns compactos.

Viajamos por 300 km, na maior parte em estradas por regiões mais planas de Minas Gerais, circuitos favoráveis a deslocamentos com grande eficiência energética. Usando apenas gasolina, ar-condicionado ligado, duas pessoas a bordo e sem bagagem, dirigindo de forma muito econômica, registramos ótimas médias de consumo.

Nos melhores trechos atingimos 26 km/l, isso no sentido mais favorável, da cidade com maior altitude para a cidade mais próxima ao nível do mar. Mesmo sendo uma diferença pequena, aproximadamente 100 metros entre as duas, isso contribuiu.

Tanto que, na volta o consumo foi maior, 24 km/l. Nos demais trechos rodoviários, não foi possível tanta economia, mas sempre conseguimos médias na casa de 20 km/l.

Na cidade, as médias também foram boas. Andando sem preocupação com o consumo, sempre registramos, pelo menos, 10 km/l. Mas quando fizemos trechos buscando a economia, atingimos até 15 km/l.

Visual – Visto por fora, principalmente nesta versão, o Kwid enche os olhos. Parece mesmo um SUV em miniatura. Além de contar com os elementos mais comuns presentes neste cobiçado segmento, seu design é harmônico e proporcional.

Por dentro, muito pelos apliques na cor laranja, o conjunto visual também agrada, mais do que nas outras versões em que os acabamentos são quase monocromáticos.

Mas quando entramos no Kwid, ele se revela. É um carro simples. Tudo nele é muito eficiente, mas sem requinte. Todas as superfícies são rígidas, sem nenhuma área macia, mesmo nos encostos de braço.

Os plásticos até apresentam algumas texturas que poderiam melhorar o aspecto geral, mas como brilham, passam uma simplicidade elevada à cabine. Peças como maçanetas e botões, por exemplo, apresentam aspecto frágil e o acabamento que cobre a coluna da direção estava desencaixando durante nossa avaliação.

As dimensões internas também são menores, pois ele é um subcompacto, não um compacto, como propaga a Renault. Por isso, tudo está perto e à mão, o que resulta em uma boa ergonomia, apesar de ser pequeno para pessoas mais altas ou obesas.

Incomoda a proximidade entre os pedais do freio e do acelerador, estranhamente, deslocados para a direita e afastados do pedal da embreagem. Dependendo do calçado, ao acelerar, é comum encostar levemente no pedal de freio, algo que deveria ser corrigido pela montadora.

Suas suspensões são mais rígidas, transferem as irregularidades para a cabine, mas, por serem elevadas, garantem 180 mm de vão livre, 24°de ângulo de entrada e 40°de saída. Não é um SUV, mas entre os subcompactos, e mesmo entre os hatches compactos, ele é um dos mais adaptados para andar em estradas de terra, transpor lombadas e acessar rampas sem raspar os para-choques ou bater o fundo, pois essas medidas citadas estão dentro das mínimas necessárias para se classificar um veículo como SUV no Brasil.

Mesmo transmitindo muita vibração para o seu interior, quando trafegamos por vias esburacadas e mal asfaltadas, as suspensões do Kwid não parecem sofrer com os pisos precários, acerto ideal para as nossas cidades e estradas.

Toda essa altura resulta em certa inclinação da carroceria em curvas. Mas, mesmo com pneus finos, 165/70 R14, ele se mantém estável em uma condução responsável. Por ser leve, freia bem, apesar de o pedal ter um curso mais curto que o usual.

Outros comandos, como passar as marchas ou esterçar a direção, também são realizados sem muito isolamento acústico ou de vibrações, realçando a simplicidade no projeto mecânico.

O desempenho surpreende, mas a visibilidade traseira é bastante limitada

Crédito: AMINTAS VIDAL

Seu desempenho é surpreendente. Apesar do motor simplificado, menos potente que o do Sandero, o Kwid acelera com agilidade. Seu giro sobe muito rapidamente e ele empurra seus poucos 806 kg com facilidade, pois a relação de marchas é bem curta.

Isso é muito bom para trafegar em cidades, mas pouco confortável em estradas. Aos 110 km/h e de quinta marcha, o motor já está girando às 3.500 rpm e o seu ruído invade a cabine sem cerimônia, pois o isolamento acústico é escasso.

Essa característica ajuda em manobras de ultrapassagem e até mesmo ao usar o freio motor, mas além do desconforto acústico, é necessário manter o pé no acelerador quando se quer andar em velocidades acima dos 100 km/h, ou o motor segura o carro, mesmo em quinta marcha.

Câmbio e direção elétrica cumprem bem suas funções, nada além do esperado para o modelo mais barato do mercado. O curso da alavanca não é muito longo e os engates não são imprecisos. Porém, a proximidade entre as marchas dificulta as trocas rápidas sem erros na seleção. O peso da direção é muito leve em manobras, mas chega ficar um pouco excessivo em deslocamento.

Ao copiar o design dos SUVs modernos, as limitações também foram incorporadas. As janelas são pequenas e a visibilidade restrita, principalmente para trás e no sentido cruzado. O vidro traseiro é pequeno, a coluna “C” é muito larga e o vidro das portas traseiras não preenchem toda a abertura, tornando todo este conjunto um ponto cego muito grande, com 70 cm de largura.

Muito por isso, e mesmo por ser alto, o modelo deveria ter sensor de estacionamento sonoro, mas não há nem como opcional, só mesmo a câmera de marcha à ré. Mesmo assim, as dimensões reduzidas facilitam as manobras em vagas apertadas e a circular em trânsito pesado, no caso, uma virtude dos modelos subcompactos.

O que destoa da simplicidade geral é o sistema multimídia Media Evolution. Sua tela de 7 polegadas tem boa sensibilidade e rapidez às respostas ao toque. O sistema conta com botões físicos para regular o volume, outro pra acessar o comando por voz, além do tradicional para ligar e desligar.

Rádio, bluetooth, entradas USB e P2 e espalhamento de celulares através do Android Auto e Apple Car Play são seus principais recursos. Tanto usando o sistema nativo quanto o smartphone, ele se mostrou fácil de operar e rápido ao processar, quando comparado a outros dispositivos de entrada.

Apesar de não oferecer navegação nativa, algo que poucos oferecem, mesmo em categorias superiores, ele traz um aplicativo que avalia a condução do motorista nos quesitos aceleração, antecipação e trocas de marchas.

O Kwid Outsider elevou o nível do modelo, assim como o seu preço, mas ainda é uma das opções mais baratas na categoria. Para quem valoriza um visual aventureiro bem projetado, quer um carro econômico, bem equipado e com bom desempenho, a versão é uma boa opção entre seus concorrentes.

*Colaborador