Incremento tem contribuído para a recuperação financeira dos criadores, que vinham acumulando prejuízos nos últimos anos - Crédito: REUTERS/Rodolfo Buhrer

A demanda aquecida por proteína animal no mercado mundial após a epidemia de Peste Suína Africana (PSA) na China, que assolou o rebanho suíno do país, tem surtido efeito no mercado brasileiro de suínos.

Em Minas Gerais, na primeira quinzena de julho, o quilo do animal vivo foi negociado, em média, a R$ 5,80, valor 85,89% maior que o praticado em igual período do ano passado.

A expectativa é de mercado firme para o produto, o que é importante para a recuperação financeira do setor, que, nos últimos anos, trabalhou acumulando prejuízos.

De acordo com o médico veterinário e consultor de mercado da Associação dos Suinocultores do Estado de Minas Gerais (Asemg), Alvimar Jalles, os chineses são os maiores produtores e consumidores de carne suína do mundo e, com o déficit de oferta, a elevação dos preços, inclusive das demais proteínas, vem sendo sentida em todo o mundo.

“Em meados de 2017, a China, que é o maior produtor e consumidor mundial de carne suína, começou a registrar casos de PSA, uma doença exclusiva dos suínos, que não acomete os humanos, mas que não tem vacinação e nem cura. Restando, apenas, o sacrifício sanitário dos animais. A carne suína é disparada a mais consumida pelos chineses, e, por causa dessa doença, o déficit está elevando os preços de todas as carnes no mundo. O Brasil, assim como outros países criadores, vem sendo beneficiado com a maior procura, porque os chineses precisam suprir a demanda do plantel sacrificado”, explicou Jalles.

Segundo as informações da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as exportações de suínos seguem em alta, o que vem limitando a oferta interna e sustentando os preços pagos aos suinocultores em níveis elevados.

Os dados mostram que, no acumulado do primeiro semestre, as vendas internacionais de carne suína do Brasil totalizaram 346,6 mil toneladas, volume que supera em 24,5% o total embarcado em igual período de 2018, com 278,3 mil toneladas. Em receita, a movimentação no primeiro semestre chegou a US$ 699,7 milhões, número 23,4% superior ao registrado em 2018, com US$ 567,2 milhões.

Principal destino das exportações em 2019, respondendo por 26,7% do total, a China incrementou as compras em 30,7% no período, com total de 91,2 mil toneladas no primeiro semestre.

Mercado interno – Em Minas Gerais, ao contrário do resultado nacional, as exportações de carne suína estão em queda. Uma das justificativas é a demanda do mercado interno elevada, o que tem proporcionado preços mais rentáveis. Por isso, a carne produzida em Minas tem como principal destino o mercado local.

Os últimos dados disponíveis mostram que, de janeiro a maio, a movimentação financeira gerada com os embarques de carne suína, em Minas Gerais, ficou 44,9% menor em relação a igual período do ano passado, somando US$ 6,6 milhões. O volume exportado retraiu 37,7% e encerrou o período em 3,9 mil toneladas.

“Em nível Brasil, as exportações de carne suína estão em alta. Minas Gerais não é um estado com tradição exportadora, mas o mercado brasileiro de carne suína é intercomunicante. Os estados com tradição são os três do Sul. Portanto, há uma disponibilidade interna de carne suína no Brasil menor este ano, o que está garantindo os preços maiores”, destacou.

Consumo interno sustenta preços

Em Minas Gerais, a oferta ajustada à demanda tem estimulado os preços do suíno vivo. Nos primeiros 15 dias de julho, o quilo foi negociado, em média, a R$ 5,80, valor 85,89% superior ao registrado na média de julho de 2018, quando o volume estava cotado a R$ 3,12.

No acumulado do ano até a primeira quinzena de julho, o preço pago pelo suíno no Estado teve valorização de 61,1%. Mesmo com a elevação nos preços, o consumo interno segue firme e vem sustentando os valores.

A manutenção de demanda, segundo o médico veterinário e consultor de mercado da Associação dos Suinocultores do Estado de Minas Gerais (Asemg), Alvimar Jalles, tem como justificativa a alta dos preços das carnes concorrentes.

“No varejo, a carne suína mantém a competitividade, porque, proporcionalmente, a carne de frango e a carne bovina subiram mais desde janeiro. Exemplo disso é que, em janeiro, o preço do quilo de dianteiro do bovino era 123% do quilo da carcaça suína, agora subiu para 133%. O quilo do acém bovino, que era 74% do quilo do lombo, no varejo, hoje, está em 105%”, disse Jalles.

A valorização dos preços do suíno é importante e está contribuindo para a recuperação financeira do setor. Nos últimos anos, principalmente, em 2018, a suinocultura enfrentou perdas em função dos custos elevados e preços recebidos menores que os gastos com a produção. Esse movimento fez com que o plantel fosse reduzido, o que também contribui para a manutenção dos preços atuais elevados e para a tendência de mercado firme até, pelo menos, o final do ano.

“Por 2018 ter sido um ano de uma crise muito forte na suinocultura, sempre há um enxugamento da produção. Neste momento, o cenário é positivo e permite um começo de recuperação dos sofrimentos do ano passado. A tendência é de que ocorra aumento da produção de suínos somente no segundo semestre de 2020, isso porque o ciclo de produção do suíno nunca é menor que 18 meses, entre a decisão de ampliar e o produto chegar ao mercado”.

Safra de milho pode favorecer margem

Um dos principais insumos da produção de suínos é o milho. Nos últimos anos, a oferta menor do cereal contribuiu para a elevação dos preços e, consequentemente, dos custos com a atividade. Essa alta comprometeu as margens de lucratividade e provocou diversos prejuízos ao suinocultor.

Neste ano, os valores do milho ainda estão em crescimento, porém, o índice – cerca de 10% a mais – está em níveis abaixo da valorização do suíno (85,89%), o que permite melhores condições de produção e o início da recuperação das margens do suinocultor. O mercado do milho deve ser acompanhado de perto pelos criadores, uma vez que a previsão de uma safra nacional recorde pode provocar queda nos preços.

De acordo com o zootecnista e analista de agronegócios da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Wallisson Lara Fonseca, a saca de 60 quilos do cereal está cotada, em média, a R$ 32 em Minas Gerais, valor 10% maior que o praticado em igual período do ano passado.

A situação do suinocultor, entretanto, está mais favorável e o momento é de busca pela recuperação dos prejuízos.

“A gente vê a recuperação de margem, mas não podemos falar que o suinocultor está nas nuvens, no apogeu. Isso porque ele trabalhou no vermelho nos últimos anos, acumulando prejuízos em função dos custos elevados e queda dos preços do suíno. O momento é de retomada de preços do suíno vivo, que, hoje, mesmo com a alta do milho, estão em patamares superavitários”, disse Lara.