Queijo Minas Artesanal pode virar Patrimônio da Humanidade ainda neste ano

Em dezembro deste ano, o modo de fazer do Queijo Minas Artesanal pode levar os votos do Comitê da Unesco

20 de janeiro de 2024 às 5h14

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Queijo Ribeiro Fiorentini tem medalhas de ouro e bronze no Mondial du Fromage, na França | Crédito: Divulgação/Queijo Ribeiro Fiorentini

Em dezembro deste ano, o modo de fazer do Queijo Minas Artesanal (QMA), importante iguaria mineira, pode se tornar o primeiro Patrimônio Imaterial da Humanidade na área da gastronomia do Brasil. Se o País já conta com os títulos do samba de roda no Recôncavo Baiano, a Arte Kusiwa; o frevo do Recife (PE); o Círio de Nossa Senhora de Nazaré (PA), a roda de capoeira e o complexo Cultural do Bumba Meu Boi do Maranhão, a expectativa é que no setor gastronômico, o QMA honre o País. Afinal, hoje é o Dia Mundial do Queijo!

A candidatura do Modo de Fazer do Queijo Minas Artesanal como Patrimônio Imaterial da Humanidade foi protocolada na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em março de 2023. Quem explica é a gerente de Patrimônio Cultural Imaterial do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG), Nicole Faria Batista.

De acordo com ela, para o bem concorrer como um bem imaterial internacional, é preciso ser um bem registrado a nível nacional, no caso pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Assim, é o Iphan que faz todo o protocolo formal da candidatura. Porém, como o bem imaterial em questão é de Minas Gerais e também é registrado como patrimônio no Iepha, a candidatura está sendo feita em parceria. 

Ela revela que a partir da entrega do formulário de inscrição e caracterização do bem cultural, o corpo técnico do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural da Unesco procede com uma análise que leva em conta a adequação da proposta, a vigência do bem cultural, sua salvaguarda pelos órgãos do país de origem, a participação dos detentores no processo, além da relevância do bem cultural como saberes e ofícios que compreendem o rol do patrimônio imaterial da humanidade.

O processo de candidatura compreende um ciclo de dois anos. No primeiro ano, complementações de informações podem ser solicitadas pelo Comitê e, no segundo ano, a análise continua sendo feita, culminando com a votação em uma sessão que reunirá todos os delegados de países que compõem o Comitê. No caso, a votação dos Modos de Fazer o QMA como Patrimônio da Humanidade irá ocorrer em dezembro deste ano. 

Durante o ciclo da candidatura, Nicole Batista explica que diversas ações de promoção podem ser realizadas visando sensibilizar os delegados dos países votantes e a sociedade do país de origem acerca do andamento dos processos. E é o que as instituições têm feito. “Estamos fazendo ações de promoções com os delegados e temos participado de feiras e reuniões. Na sede da Unesco, também já foram feitas ações pela Secretaria de Cultura e tudo com total apoio do Iepha”, diz. 

As ações têm apoio do governo de Minas, via Secretaria da Cultura (Secult), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), da Secretaria de Agricultura e Pecuária (Seapa) e da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater/MG)  e, na esfera federal, do Iphan.

Em 2022, queijeiros do Estado, por meio da Associação Mineira de Produtores de Queijo Artesanal (Amiqueijo), integraram uma comitiva que participou da 17ª Sessão do Comitê Intergovernamental para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco, que foi em Rabat, no Marrocos. “São estes tipos de ações que fomentam a candidatura. Os delegados experimentaram os queijos, tiveram contato com os produtores”, ressalta.

Produção mineira de queijo desponta no País

Atualmente, Minas possui dez regiões caracterizadas como produtoras de Queijo Minas Artesanal: Araxá, Campo das Vertentes, Canastra, Cerrado, Diamantina, Entre Serras da Piedade ao Caraça, Serra do Salitre, Serras da Ibitipoca, Serro e Triângulo Mineiro. A caracterização e o reconhecimento das regiões são respaldados por estudos que avaliam o processo de fabricação e as características peculiares do local de origem, como a história, a economia, a cultura, relevo, altitude, vegetação, o clima, entre outros fatores.

Além delas, o Estado também conta com cinco regiões caracterizadas como produtoras de outros tipos de queijos artesanais: Vale do Suaçuí, Serra Geral, Alagoa, Mantiqueira e Jequitinhonha.

Em Minas, de acordo o Sindicato da Indústria de Laticínios de Minas Gerais (Silemg), do volume total de toneladas de queijo produzidos no Brasil, cerca de 40% têm Minas Gerais como origem. No Estado são fabricados diversos tipos de queijos: os feitos com leite pasteurizado, como o Queijo Minas Frescal, Queijo Minas Padrão, Mussarela e Provolone, até os fabricados artesanalmente com leite cru, os chamados artesanais. 

O Queijo Minas Artesanal possui uma produção expressiva no Estado, com um volume estimado de 21,8 mil toneladas por ano, segundo dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), representando 65,27% da produção dos queijos artesanais das agroindústrias familiares no estado. 

Título pode fortalecer cadeia produtiva do queijo

Produtor de queijo em função da greve dos caminhoneiros de 2018, Wagner Ribeiro até então viu na falta de escoamento do leite – portanto, há seis anos – uma oportunidade para produzir a iguaria tão admirada no Estado. Ele e a esposa Izabela Ribeiro produzem, desde então, o queijo Ribeiro Fiorentini

Crédito: Divulgação/Queijo Ribeiro Fiorentini

Em menos de cinco anos no mercado de queijos, duas iguarias da produção deles foram premiadas na  6ª edição do Mondial du Fromage et des Produits Laitiers, em Tours, na França, ocorrida no ano passado. No concurso, os queijos produzidos no Estado conquistaram 43 medalhas, das 81 conquistadas por queijos brasileiros. E ao todo, os produtores mineiros ganharam 10 medalhas de ouro, 17 de prata e 17 de bronze. Duas delas estão justamente na fazenda de Ribeiro, em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce. Os queijos Giovanna e Luiza ganharam, respectivamente, ouro e bronze na competição.

“Nossos queijos são autorais, feitos de forma artesanal, tradicional e seguindo todos os protocolos”, comenta Ribeiro. Ele conta que a padronização foi e é um dos maiores desafios do produtor de queijo. “A legislação exige da gente a mesma condição de uma grande indústria de queijo. Levamos três anos para nos adequar”, diz.

O produtor conta que é conhecido por quebrar paradigmas, ao produzir em uma região de altas temperaturas e baixa altitude. Ele alega que o cenário não era favorável para a produção, mas eles conseguiram. “Os prêmios são uma prova de que estamos no caminho certo”, diz. 

Desde a premiação e da candidatura do modo de fazer do QMA a Patrimônio Imaterial da Humanidade, Ribeiro conta que vem sendo procurado para novas oportunidades de negócios. “A gente não ganhou o título ainda, mas já fui convidado para uma oportunidade inovadora que não posso revelar o que é. O título pode valorizar ainda mais a cadeia de produção do queijo artesanal”, conclui. 

A valorização da cadeia produtiva é um ponto levantado pelo jornalista gastronômico e especialista em queijo, Eduardo Girão. Para ele, a conquista do título de patrimônio imaterial da humanidade só contribui para a sobrevivência do produtor. “É um título muito bem-vindo. Quando você tem um cenário que as forças travam uma batalha de maneira desigual, que é o caso do queijo, estes instrumentos se tornam muito importantes”, opina. Girão explica que é uma oportunidade dos pequenos produtores demonstrarem a força do ponto de vista cultural, social, histórico e econômico também.

Na opinião dele, são produtos que expressam características de cada região e que possuem um importante papel social, já que a maioria dos produtores são familiares. “Tudo que vem para mostrar o valor, proteger e estimular essa riqueza é importante, tendo em vista o panorama desigual no mercado”, comenta comparando com a indústria. 

“A indústria emprega muita gente, movimenta muito dinheiro. É fácil para esse setor solicitar melhorias, conseguir crédito. Para a indústria, sobreviver nesse mercado é mais fácil do que para o pequeno produtor”, relata.

Prova de resistência que o Queijo do Caraça tem superado com louvor. Produzido na Fazenda do Engenho, no complexo do Santuário do Caraça, entre dois municípios mineiros, Catas Altas e Santa Bárbara, ele também faz parte da importante cadeia de produção de Queijos Artesanais Mineiros.

De acordo com o gerente geral do Santuário, Pablo Azevedo, de oito a 10 queijos por dia são produzidos por lá. Um volume de produção que ele considera razoável para o tamanho da fazenda, já que para um queijo são necessários entre sete e 10 litros de leite.

Para ele, o título, se conquistado, é importante para valorizar o processo produtivo e para reconhecer o queijo como um produto de valor e qualidade. Ele acredita que os títulos enobrecem o produto, que já foi muito desvalorizado. Ele lembra que até pouco tempo havia queijo sendo vendido a R$ 10, o que na opinião dele era uma desvalorização do processo produtivo.

 “Este tipo de iniciativa reconhece o produto como de qualidade, de tradição, que traz um sabor diferenciado, com reconhecimento internacional e valorizando ainda mais o nosso queijo”, avalia.

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