Desglobalização poderá gerar benefícios para o Estado

2 de setembro de 2022 às 0h28

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Setor automotivo foi um dos mais impactados pelas mudanças impostas pela pandemia no mundo | Crédito: Fiat / Divulgação
#juntosporminas

Se há alguns anos muito se ouvia dizer sobre globalização e a importância da relação diplomática e comercial entre os países, hoje um novo fenômeno toma conta de todos os continentes: a desglobalização. Tratado por estudiosos já há alguns anos, o movimento foi intensificado e, porque não, escancarado por dois acontecimentos recentes: a pandemia de Covid-19 e a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Assim como tantas outras esferas do cotidiano, a economia e o setor produtivo também estão em constante transformação. Autoridades políticas e diplomáticas igualmente.

A Covid-19 mostrou a fragilidade dos sistemas produtivos, a preocupante dependência de setores e cadeias, bem como o domínio de grandes nações sobre países emergentes. Já a invasão da Ucrânia pela Rússia, que já se arrasta por seis meses, causou imposições de sanções comerciais com efeito em cascata, desequilibrando a oferta e a demanda de insumos e produtos, pressionando preços e desestabilizando mercados mundo afora.

Tudo isso, resumem especialistas, traz à tona um movimento que já vinha tomando corpo ao longo dos anos: a desglobalização, com países levantando barreiras comerciais, favorecendo produção local em detrimento de importações. Se antes imperava a convergência de processos e interesses das nações, agora competitividade é cada vez mais a palavra de ordem para determinar quem perde ou ganha.

Brasil e Minas Gerais têm mais a ganhar do que perder com este movimento. A atração de investimentos poderá ser o grande efeito positivo deste ciclo, porém, será justamente o quesito competitividade que vai determinar como isso deve acontecer. Governos estão atentos às fragilidades, mas, principalmente, às oportunidades de maneira a manter o protagonismo diante de algumas cadeias e processos, a ganhar espaço em mercados em ascensão e, ao mesmo tempo, se blindarem de quaisquer aspectos negativos.

Mas a palavra final é mesmo do setor privado, que detém os recursos e caminha para onde está o capital. Já é possível enxergar movimentos da indústria automotiva nacional em busca de uma menor dependência de importação por semicondutores, assim como do setor de eletroeletrônicos, cujo polo produtivo de Santa Rita do Sapucaí (Sul do Estado) já estima um prazo de cerca de dez anos para retomar o ritmo de produção de 2019, tamanho o impacto do desabastecimento de insumos.

O agronegócio segue o mesmo caminho em relação à incansável busca pela menor dependência da importação de fertilizantes; a siderurgia clama por maior protecionismo do mercado, diante da já conhecida superoferta chinesa e fechamentos de mercados como Estados Unidos e União Europeia. E a mineração encontra melhores perspectivas com a supervalorização das commodities.

Por estes e outros motivos, a desglobalização é tema do Juntos Por Minas, projeto do DIÁRIO DO COMÉRCIO que aborda desafios e gargalos do Estado que possam ser transformados em oportunidades de desenvolvimento econômico e inclusão.

Covid e guerra alteraram o modelo vigente

Em artigo publicado recentemente no DIÁRIO DO COMÉRCIO, o economista e empresário Igor Macedo de Lucena afirma que a globalização não foi capaz de incluir todos os agentes econômicos nas cadeias globais de valor. E que o Brasil nunca de fato conseguiu se integrar totalmente a esse movimento, seja por sua ineficiência na abertura econômica ou pela forte proteção aos mercados nacionais. Para ele, agora, a desglobalização pode, em tese, oferecer ao País e à América Latina uma oportunidade.

“As sanções econômicas à Rússia fazem com que os europeus procurem outros parceiros para suprir necessidades de matérias-primas minerais e fontes energéticas. Os Estados Unidos precisam de locais próximos às suas fábricas como suporte. Grandes indústrias que exportam para os Estados Unidos veem com ceticismo a manutenção de todas suas plantas industriais na China. As empresas japonesas preparam planos para incentivar a volta de algumas companhias ao seu território”, exemplifica.

Mas o ex-ministro do Planejamento no governo FHC, Paulo Paiva, lembra que essa discussão precede a invasão da Ucrânia. Ele diz que desde a Guerra Fria, o ambiente da economia mundial foi marcado pela expansão rápida do comércio, pela integração do mundo, das cadeias de valores e da produção internacional, com mudanças profundas sob o ponto de vista tecnológico. E que, recentemente, tivemos dois grandes choques: pandemia e guerra, com vários efeitos reativos que causaram choque na globalização.

“São eventos com impacto profundo sobre o equilíbrio geopolítico que havia no mundo até então. De repente, se pode voltar ao que impunha a Guerra Fria. É neste ponto que estamos hoje. Vivemos em um mundo de muitas incertezas. É muito difícil dizer para onde caminha a humanidade”, avalia.

Recessão

Já o pós-doutor em história econômica pela London School of Economics, Sérgio Birchal, reforça que os primeiros questionamentos acerca do sucesso da globalização surgiram com a recessão de 2008. A começar pela insatisfação com a crescente desigualdade social e a emersão de regimes autoritários versus democracia. Para ele, os eventos recentes desnudaram estas e outras falhas da globalização.

“Com essa onda da direita mais autoritária, alguns países começaram a impor regras mais rígidas e a fechar fronteiras. Ao mesmo tempo, a globalização veio para ficar, porque o movimento não é só de economia, há questões sociais e tecnológicas. Vivemos um momento ambíguo: ao mesmo tempo em que estamos no mesmo barco, também queremos ficar em barcos separados”, afirma.

No que se refere ao campo empresarial, Birchal acredita que as empresas vão continuar ágeis e inovadoras e se tornarão mais resilientes. Ele também duvida que a conexão internacional seja totalmente interrompida sob o ponto de vista dos negócios. “São momentos de muita turbulência com rupturas sociais, culturais e econômicas. E quando há processos de mudanças de tamanha intensidade, as pessoas perdem noção do que é certo ou errado. Por isso vivemos essa grande contestação. As pessoas estão se sentindo desconfortáveis diante desse monte de ruptura”, explica.

Cadeias produtivas precisam ser fortalecidas

Sob o ponto de vista do desenvolvimento econômico e inclusão, a gerente de Economia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Daniela Britto, aposta que a desglobalização não acarretará em perdas para Minas e para o Brasil, se as oportunidades forem aproveitadas.  Mas estas só existirão se houver competitividade.

Ela ressalta que o princípio básico da economia é que o capital vá onde se pode maximizar o lucro. E que a Ásia tem se destacado justamente porque reúne uma série de atributos favoráveis a diferentes tipos de cadeias produtiva – um ambiente de negócios com o melhor nos quesitos mão de obra, tributos, infraestrutura, insumos e, além de tudo, um enorme mercado consumidor.

Daniela diz que o posicionamento de Minas e do Brasil também vai depender das oportunidades em cada setor. “Não é o efeito da globalização que vai determinar, mas o ambiente de negócios. Hoje, todo investidor olha para o Brasil, mas ainda temos um ambiente de negócios que prejudica, com déficit de infraestrutura, custo Brasil, insegurança jurídica, carga tributária, etc. Por outro lado, temos hoje uma agenda econômica pró-atração de investimentos”, pondera.

O governo de Minas, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sede), defende que a nova economia mundial apresenta possibilidades e desafios ao Estado. Diante do cenário, é preciso que as economias nacional e locais busquem o fortalecimento das cadeias produtivas e a diversificação de fornecedores, priorizando parceiros mais próximos. Para o Executivo estadual, a política de comércio internacional que vem sendo implementada tem foco na diversificação de mercados de destino, com o objetivo de mitigar os efeitos das interdependências.

A Pasta exemplifica ainda que o crescimento recorde apresentado pela cadeia de grãos de Minas Gerais em junho e julho pode ser resultado imediato da queda das exportações de grãos pela Ucrânia, uma vez que aquele país se destaca como o quarto maior exportador mundial de grãos. Para além das commodities agrícolas, a secretaria lembra que Rússia e Ucrânia são importantes fornecedores internacionais de fertilizantes e que Minas Gerais, até então, comprava da Rússia alto volume deste insumo. A guerra impôs novos paradigmas à cesta, culminando com o crescimento da participação de outros parceiros, especialmente Canadá e Estados Unidos.

Re-globalização

Já o Ministério da Economia, por sua vez, defende outra expressão para chamar o movimento: “re-globalização”. O argumento é que as principais forças motrizes que abriram caminho para o processo de fragmentação da produção décadas atrás ainda estão operacionais e ganham ainda mais força com a digitalização da economia. E defende que o Brasil se encontra em uma posição favorável nesse cenário.

“A agenda de reformas do Brasil, alinhada às recomendações e melhores práticas internacionais, em especial às normas adotadas pela OCDE, tem o objetivo claro de melhorar o ambiente de negócios com maior integração internacional e atrair investimentos. Ao longo dos últimos anos, o país manteve o foco na sustentabilidade fiscal e nas reformas estruturantes”, comentou por nota enviada à reportagem.

Montadoras querem fornecedor mais próximo

A indústria automotiva é talvez um dos principais setores que já sentem os impactos deste fenômeno chamado desglobalização. Com um desabastecimento de semicondutores sem precedentes, montadoras mundo afora têm visto suas linhas de produção serem impactadas e até paralisadas devido a rupturas nos processos produtivos de seus componentes. Um colapso com consequências em cascata.

O presidente da Anfavea, Márcio de Lima Leite, afirma que a cadeia global de produção de suprimentos foi desenhada objetivando a redução de custos para o consumidor final, no entanto, a pandemia e a guerra obrigaram o mundo a rever este modelo. Por isso, o setor persegue agora o foco no desenvolvimento de uma robusta base industrial localizada, incluindo produtores e fornecedores. Segundo ele, isso é o que dará condições ao setor para atender o abastecimento do mercado local e o global.

Leite diz que diante da nova ordem mundial que parece se formar, países como Estados Unidos e Alemanha já estão agindo para reduzir sua dependência de insumos e componentes asiáticos. A ideia é produzir localmente ou importar de países considerados mais amigáveis, com menor risco de rupturas na cadeia.

“São investimentos de longo prazo, mas que logo devem render frutos, com a inauguração de várias novas fábricas de semicondutores, por exemplo. No Brasil, estamos em discussão com vários setores e com muita abertura com o governo federal. Esperamos medidas concretas de apoio à reindustrialização do País”, completa.

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