Itabira precisa diversificar sua economia em nove anos

21 de janeiro de 2022 às 0h29

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Prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage (PSB) | Crédito: Prefeitura de Itabira/Divulgação
#juntosporminas

Itabira, na região Central do Estado, corre contra o tempo. A cidade de Carlos Drummond de Andrade, com cerca de 121 mil habitantes e berço da mineradora Vale, precisa fazer em apenas nove anos um dever de casa adiado, ou realizado sem sucesso por décadas: diversificar a economia local o suficiente para deixá-la independente da mineração.

Isso porque o município vive há 80 anos a dependência econômica da atividade minerária. Sua história e desenvolvimento praticamente se confundem com a da exploração mineral, cujo fim, segundo previsões da Vale, será em 2031.

Cerca de 10 mil empregos diretos e indiretos podem deixar de existir daqui a nove anos se nada for feito. O fim da exploração mineral em Itabira também pode significar perda de 80% na arrecadação municipal.

Muitas são as potencialidades da terra de Drummond, mas a verdade é que há pouquíssima coisa concretizada. Esse é o tema desta semana do #JuntosPorMinas, projeto do DIÁRIO DO COMÉRCIO que aborda gargalos e desafios do Estado a serem transformados em oportunidades de crescimento, inclusão e transformação social.

Na entrevista abaixo, o prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage (PSB), detalha como anda essa corrida contra o tempo e o plano de ação municipal. Ele diz ter a exata noção do momento histórico que Itabira atravessa. “Estamos diante de uma revolução, de um legado que está sendo construído e que deverá servir de exemplo para outras tantas cidades que ainda terão anos e anos de exploração mineral”.

Sem querer se posicionar como juiz da história, Lage fala de erros do passado. “Se chegamos a 10 anos do fim da mineração sem ações concretas para a sustentabilidade no pós-exaustão, então, sim, houve erros”.

Confira a seguir

Qual é hoje, e qual era décadas atrás a representatividade da mineração no PIB do município?

A dependência econômica de Itabira da mineração é muito grande. Era assim há décadas e continua hoje. Pelo menos 80% do orçamento de Itabira é proveniente de receitas da mineração. Seja da Cfem, que chegou a 30% da receita total em 2021, ou das demais fontes diretamente impactadas pela atividade, como o ICMS e o ISS. Isso sem falar, claro, do quanto as atividades econômicas do município estão atreladas à mineração: comércio, indústria e outras. Temos um cenário de inegável dependência.

O que há de concreto na diversificação econômica de Itabira, que aponte independência ante a mineração?

Infelizmente, este é o maior problema que o município tem a resolver. Há anos se fala de exaustão mineral em Itabira, mas muito pouco ou quase nada foi feito para garantir a diversificação. De mais relevante, é possível citar a instalação de um campus da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) no município. A instituição chegou à cidade em 2008 e o campus está sendo construído em uma parceria inédita entre município, Vale e governo federal. O projeto é para 10 mil estudantes, o que traria uma movimentação de renda substancial para Itabira, embora ainda muito distante do que representa a mineração para a receita da Prefeitura. Estamos correndo contra o tempo, e nem é uma força de expressão.

Quando o senhor assumiu o cargo, informou que traçaria um plano de dez anos para preparar a cidade para o fim da extração mineral. Qual é o plano?

O primeiro, mais imediato, é nosso Plano de Metas “Itabira Agora”, construído desde os primeiros meses do governo e apresentado oficialmente à comunidade no início do último trimestre de 2021. Nele, estão listados os programas, projetos e metas associadas que trabalharemos até 2024. Depois, temos o Plano Plurianual (PPA), um instrumento legal, também com programas a serem desenvolvidos, mas que estipula as ações até 2025. E, por fim, temos o Plano Estratégico, que é construído em parceria com a Vale. Este é o que tem a visão mais a longo prazo, com metas de 30 anos, de 10 anos e também as urgentes. O Plano Estratégico ainda está sendo feito, inclusive com a participação de uma empresa de consultoria holandesa financiada pela própria Vale. Nele estão investimentos necessários nas áreas de desenvolvimento econômico, desenvolvimento social, preservação e recuperação ambiental, uso e ocupação do solo, mobilidade, patrimônio cultural e aspectos fiscais. Em breve, quando este plano estiver concluído, vamos apresentar à comunidade e provocar o debate.

Existe um modelo de cidade pós-mineração, no mundo ou em Minas, que será seguido?

O trabalho que está sendo feito tem, sim, seus benchmarkings. Claro que estamos de olho no que já foi feito no sentido da sustentabilidade no Brasil e no mundo, mas acreditamos, de verdade, que Itabira será um case inédito de uma cidade mineradora que se transformou totalmente. A busca pelos exemplos consiste em verificar o que deu certo em outras cidades, especialmente na concepção de políticas públicas e reaproveitamento de áreas mineradas. Nesse sentido, temos iniciativas de sucesso na Inglaterra, na Alemanha, Estados Unidos, Suécia, China. A própria Vale tem bons projetos de reaproveitamento do rejeito de minério em Itabirito e em Vitória. Temos também o exemplo do Vale do Ruhr, na Alemanha, que saiu de uma economia essencialmente minerária, como é Itabira, e se transformou completamente. Enfim, temos esses benchmarkings, mas Itabira é um caso muito específico. Estamos construindo algo que servirá de exemplo para outras cidades mineradoras.

Existe alguma experiência negativa de pós-mineração que não pode ser repetida de jeito nenhum em Itabira?

Acredito que o próprio Estado de Minas Gerais pode nos servir de alerta. Somos um Estado que nasceu da mineração e que por décadas e décadas se valeu desta condição, ostentando uma condição financeira favorável. Agora veja como estamos hoje: déficit fiscal, dificuldades financeiras e um passivo ambiental difícil de equalizar. Itabira não pode flertar com um cenário como esse, tem que investir agora na diversificação e aplicar uma gestão voltada para a sustentabilidade.

Houve algum tipo de erro, no passado recente ou antigo, que comprometeu de alguma forma ações positivas pensadas para o fim da mineração em Itabira?

Se chegamos a nove anos do fim da mineração sem ações concretas para a sustentabilidade no pós-exaustão, então, sim, houve erros. Acredito que o maior deles tenha sido não acreditar que este momento chegaria. Afinal, é muito cômodo para um gestor administrar uma cidade com um bom orçamento e só se preocupar com o agora. Não estou aqui para ser o juiz da história, mas o próprio cenário de hoje mostra que muito mais poderia ter sido feito lá atrás. Tivemos bons movimentos, quase sempre capitaneados pela associação empresarial da cidade, mas que não tiveram o efeito desejado. Mas eu só olho para trás para observar essas lições. Itabira precisa, urgentemente, de ações agora que reflitam no futuro.

Sabe-se que Itabira busca firmar-se, entre outras potencialidades, como um polo educacional. Nesse sentido, o que já foi concretizado e o que está sendo preparado?

A Unifei é o principal propulsor do polo educacional. É uma universidade com uma concepção diferente, voltada para a tecnologia, tem tudo a ver com o que pensamos para o futuro de Itabira e com a mudança de cultura que queremos implantar na cidade. Uma das nossas metas é ter na Unifei Itabira um curso de medicina tecnológica, já com articulações sendo feitas no Ministério da Educação. A Unifei está ligada diretamente ao gerenciamento de um Parque Científico Tecnológico, outro sustentáculo para a diversificação do município. Ela não pode, de jeito nenhum, ser um organismo isolado. Paralelo, temos em Itabira outras faculdades importantes, como um campus da Una, e a Fundação de Ensino Superior de Itabira (Funcesi), uma universidade nascida na cidade e que pode contribuir com os nossos projetos.

Estima-se a perda de quantos postos de trabalho ao fim da mineração? Até lá, qual é a meta de geração de emprego em outras áreas a serem desenvolvidas?

Um dos principais problemas neste período de “transição” é a falta de precisão sobre números. O que se sabe, hoje, é que a Vale é responsável por cerca de 10 mil empregos em Itabira, entre diretos e indiretos. Nós não temos essa projeção do quanto de impacto haverá na questão dos empregos, o que sabemos é que haverá com certeza, daí a importância de buscar a diversificação e propor novas alternativas aos itabiranos. O que a Vale já tornou público é de que manterá atividades em Itabira, mesmo após a exaustão de suas minas. A empresa pretende usar as plataformas de beneficiamento que tem no município, consideradas umas das mais modernas entre todas da Vale, para tratar o minério que virá de outras cidades. Já temos o anúncio, por exemplo, de uma ferrovia entre Conceição do Mato Dentro e Itabira. Então, pode ser que a empresa transfira funcionários para outras cidades. Esse impacto para Itabira ainda é incerto. O que a gente tem em mente, e trabalha para isso, é que precisamos garantir que, se houver demissões, que essas pessoas tenham outro lugar para trabalhar imediatamente.

A Vale tem respondido à altura quando se trata do assunto legado da mineração?

A Vale tem se mostrado consciente de que precisa transformar Itabira em um case de sucesso. A empresa sabe que isso é importante para sua imagem, sobretudo após os tristes episódios de Mariana e Brumadinho. Deixar a sua cidade-berço à própria sorte seria outra marca terrível para a mineradora. Então, as conversas têm sido muito boas, inclusive com o presidente Eduardo Bartolomeo, com quem já me encontrei pessoalmente em Itabira. A própria iniciativa de contratar uma consultoria para nos ajudar na elaboração do Plano Estratégico é uma boa sinalização dessa disposição. Da nossa parte, o que temos falado com a empresa é de que confiamos que o modelo de cogestão desse plano é o melhor caminho. Acreditamos, de verdade, que o diálogo franco e a divisão de responsabilidades trarão bons frutos para o presente e o futuro de Itabira. Agora, também não abriremos mão de sermos implacáveis na cobrança quando houver a necessidade.

Entre as ações concretas da mineradora nesse sentido, quais o senhor. considera mais importante?

A Vale está arcando com a construção dos três próximos prédios da Unifei, algo avaliado em R$ 100 milhões. Também assumiu a construção de uma nova Estação de Tratamento de Água (ETA) no rio Tanque, uma obra robusta e que vai contribuir para atacar um problema preocupante de Itabira, que é o abastecimento de água. Essa obra está estipulada em US$ 30 milhões. Como citei anteriormente, tivemos novas boas sinalizações da Vale. Desde as primeiras conversas já foi montado um grupo estratégico, formado por pessoas indicadas pela Prefeitura e pela Vale. Depois, a boa conversa que tive com o presidente, na qual ele demonstrou estar alinhado com o que pensamos sobre a construção de um legado pela empresa. Também tem a consultoria contratada, paga pela Vale, e que tem nos ajudado a construir o Plano Estratégico.

Itabira será vitrine. Como o senhor vislumbra o município em 2031?

Vislumbro uma cidade justa e sustentável. É o nosso norte na gestão da prefeitura. Não é fácil construir isso. Não tem sido fácil, aliás. É muito difícil enfrentar um modelo tradicional e implantar um modelo disruptivo, contrariar interesses e implantar uma nova cultura. Isso sob todos os aspectos, seja político ou econômico. Mas nós vamos fazer. Não tenho dúvidas de que teremos, daqui a alguns anos, uma cidade que se tornou um case de sucesso. Um município minerador que viverá uma nova realidade, com novas opções e novas matrizes econômicas. Estamos diante de uma revolução, de um legado que está sendo construído e que deverá servir de exemplo para outras tantas cidades que ainda terão anos e anos de exploração mineral. Queremos que prefeitos um dia olhem para Itabira e digam: o nosso futuro tem que ser assim.

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