Minas tem potencial para criar 173 Pequenas Centrais Hidrelétricas

3 de março de 2022 às 0h30

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O sistema elétrico pode ser reforçado com geração de 2.255 megawatts de pequenas centrais hidrelétricas no Estado | Crédito: Diogo Moreira/A2 Fotografia

A construção de novas usinas hidrelétricas em Minas Gerais pode movimentar mais de R$ 16 bilhões na economia do Estado e gerar cerca de 142 mil empregos. Os dados são da Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas e Centrais Geradoras Hidrelétricas (ABRAPCH) e revelam o potencial do Estado e também dos demais entes federativos na geração de energia elétrica e suprimento da demanda interna por meio de fontes renováveis. 

De acordo com os dados da entidade, em fevereiro de 2021 a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou a construção de 30 Centrais Geradoras Hidrelétricas, as chamadas CGH. No entanto, a liberação e o leilão dessas concessões só devem ocorrer após o licenciamento ambiental. Somente essas 30 centrais teriam capacidade de produzir, juntas, 121,3 megawatts de energia elétrica, sendo que a projeção da associação é que, se liberadas, as centrais possam gerar 7.288 postos de trabalhos e negócios de R$ 850 milhões. 

A injeção de investimentos no território mineiro é ainda mais relevante quando se trata da construção das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs). Nesse caso, o potencial do Estado é de construir 173 novas usinas em um somatório de R$ 15,8 bilhões despendidos para tirar os projetos do papel. Essas usinas, ainda de acordo com os dados da entidade, poderiam criar 135 mil empregos e gerar 2.255 megawatts para reforçar o sistema elétrico.

Caso sejam aprovados, os projetos, que dependem de licença ambiental, além do aval da Aneel, poderiam transformar a realidade do Brasil, que, segundo o presidente da ABRAPCH, Paulo Arbex, vai na direção contrária de países europeus e que praticam, em seus territórios, a descarbonização. 

“Na Europa e nos Estados Unidos, quando a energia solar e a eólica foram introduzidas, eles tiveram redução da emissão de carbono. Por quê? Porque eles utilizam carvão, diesel e gás. A Noruega, por exemplo, tem 94% da sua matriz renovável. Ela abastece o seu país com energia limpa e exporta petróleo e gás. No Brasil, estamos na contramão. Aqui, nós estamos carbonizando a matriz ao incrementar energia de termelétricas”, aponta Arbex.

Injeção de investimentos no território mineiro é ainda mais relevante quando se trata da construção das Pequenas Centrais Hidrelétricas | Crédito: Divulgação Copel

Pleito do setor 

O ponto-chave para Arbex é a definição de regras que garantam às empresas do setor energético segurança jurídica para a liberação dos licenciamentos ambientais necessários para a construção das mesmas. Mas o cenário, segundo ele, demonstra que existe um lobby para a utilização de fontes advindas da utilização do petróleo, o que também pode influenciar as discussões que não avançam a nível federal para o fortalecimento do setor com a utilização de energias renováveis. Paulo Arbex cita, por exemplo, isenções/renúncias fiscais que beneficiam a produção petrolífera. 

A defesa da associação também está fundamentada na intermitência que outras fontes apresentam, o que reforça o espaço das hidrelétricas para a segurança energética brasileira. “A solar e a eólica têm momentos de intermitência na geração, que é uma característica técnica. Com ventos abaixo de 11 quilômetros, por exemplo, as eólicas não têm força para girar as turbinas. O caso da solar é ainda mais fácil de entender: anoitece e a geração é zero”, explica Arbex.

Ainda de acordo com o presidente da ABRAPCH, falta, no Brasil, o incremento de novos reservatórios e hidrelétricas. Para a entidade, a abundância das fontes renováveis no País não justificam a contratação de fontes não renováveis. O exemplo da Noruega, nesse sentido, deveria ser adotado, de forma a exportar o pré-sal e outros combustíveis de origem fóssil e manter no País uma utilização descarbonizada ou próxima desse patamar.  

O futuro da energia no Brasil

A gestão brasileira sobre os recursos hídricos e energéticos será tema de um debate a ser realizado pela Sociedade Mineira de Engenheiros (SME) em parceria com o DIÁRIO DO COMÉRCIO. O evento “O Desafio da Segurança Energética” ocorrerá em 16 de março, das 10 às 13 horas, e terá transmissão on-line pelos canais da SME. A participação presencial também será permitida mediante inscrições. Clique aqui para se inscrever.

No evento, estão previstas discussões sobre o recente período chuvoso brasileiro e sua capacidade de abastecimento e geração a longo prazo, bem como a necessidade de manter a tarifa de energia elétrica sob pressão da bandeira de escassez hídrica. Participarão do evento, enquanto mediadores, os ex-presidentes da Centrais Elétricas Brasileiras (Eletrobras), os engenheiros José da Costa Carvalho Neto e Aloísio Vasconcelos. 

Os debates contarão também com os especialistas no tema: o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Luiz Carlos Ciocci; o presidente-executivo da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), Flávio Antônio Neiva; o presidente-executivo da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia Elétrica (Abraceel), Rodrigo Ferreira, e o deputado estadual Gil Pereira, presidente da Comissão Extraordinária das Energias Renováveis e dos Recursos Hídricos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

Retorno do investimento despendido em implantação de usinas solares deve ocorrer de 3 a 5 anos | Crédito: Amanda Perobelli/Reuters

Economia com autoprodução chega a superar 15%

As empresas cujos processos de produção envolvem a energia enquanto uns dos principais insumos podem ter nas usinas solares o alívio para seus custos. De acordo com a assessora de Energia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Tânia Silva, a economia obtida com a autoprodução de parte da energia necessária pode superar 15% quando consideradas as condições atuais de preços do recurso. 

Ademais, com a responsabilidade socioambiental cada vez mais fomentada, principalmente em função das práticas de ESG, a escolha pela diversificação da matriz utilizada e pela geração própria de parte da energia também gera um valor agregado ao produto das empresas que buscam a alternativa. 

“Além da economia, a indústria terá mais previsibilidade dos seus custos e um incentivo à sustentabilidade. A autoprodução incentiva o investimento em energia limpa, o que reduz a pegada ambiental da indústria e amplia as práticas ESG dentro da estrutura operacional daqueles que a aderem”, afirmou Tânia. 

Para aquelas empresas que desejam aderir e implantar usinas solares para suprir demandas internas, a especialista explica, ainda, que o retorno do investimento despendido no processo deve ocorrer de 3 a 5 anos. O prazo de compensação dos valores aplicados irá depender, no entanto, do local de instalação do parque solar e do valor pago na energia pela corporação. 

Investimentos bilionários 

Na última quarta-feira (23), a Usiminas, por exemplo, anunciou investimentos da ordem de R$ 1,35 bilhão para a construção de um parque solar em Luziânia, no estado de Goiás. A construção do empreendimento será feita em parceria com a Canadian Solar, sendo que o projeto prevê a autoprodução de 30 megawatts de energia renovável por um período de 15 anos, a partir de 2025. 

A previsão é de que as obras da usina sejam iniciadas no primeiro trimestre de 2024 e, assim como apontado pela especialista em energia da Fiemg, a economia de energia estimada pela Usiminas com a implantação do parque solar está em torno de 12%. 

“No ano em que completamos 60 anos de operações, a Usiminas está com os olhos voltados para o futuro e mobilizada para garantir a sustentabilidade de suas operações. Iniciativas como esta parceria com a Canadian para fornecimento de energia solar para nossas operações são passos importantes da companhia na sua jornada para estar cada vez mais alinhada com os princípios da agenda ESG”, afirmou, durante o anúncio, o presidente da Usiminas, Sergio Leite.

No início do mês, a Shell Brasil e a Gerdau também anunciaram a formação de uma joint venture exclusiva para a construção de parque solar que deve ser instalado em Minas Gerais. O início do projeto depende, no entanto, da aprovação das autoridades regulatórias e concorrenciais brasileiras. 

As empresas já adiantaram que a capacidade instalada da usina deve ser de 260 megawatt-pico, sendo que 50% dessa energia abastecerá a produção de aço da Gerdau em suas unidades brasileiras. A outra metade, de forma igualitária, será disponibilizada no mercado livre de energia, sendo a Shell Energy Brasil responsável pela venda. Vale lembrar que essa empresa é a comercializadora de energia da Shell. 

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