‘Minerar’ dados verdes é desafio em MG

Diante do elevado volume gerado, há dificuldades no cruzamento de informações para o desenvolvimento sustentável

19 de agosto de 2022 às 0h29

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No Governo de Minas, a Infraestrutura de Dados Espaciais do Sisema é a principal ferramenta para o planejamento ambiental | Crédito: Sisema/Divulgação

André Martins,
especial para o DC

Minas é um importante polo de tecnologia da informação no Brasil. As oportunidades são muitas e vêm se expandindo a cada dia. Na era em que informação é poder, dados são gerados ininterruptamente por estações de medição, satélites, centros de pesquisa, empresas, governos e até mesmo pelo cidadão comum, por meio de dispositivos móveis. O uso dessas informações tem sido importante para o desenvolvimento sustentável no Estado. Mas minerar e organizar tudo tem se mostrado um grande desafio.

A produção de dados em grande volume e velocidade, base do chamado Big Data, é algo positivo, apontam autoridades no assunto. Mas os especialistas também formam consenso de que ainda é complexo trazer ordem ao caos da quantidade vultosa de informações geradas, selecionar o que é de fato relevante e possibilitar que bancos de dados “conversem”, a fim de gerar informações inteligíveis, detalhadas que contribuam para soluções.

O trabalho com dados tem sido prática comum na gestão dos recursos naturais em Minas Gerais, com o objetivo de possibilitar o desenvolvimento socioeconômico sustentável. No entanto, um maior investimento em processamento e o trabalho colaborativo poderiam levar o Estado e a iniciativa privada a planejamentos e ações bem mais efetivos.

Dessa forma, dados verdes – o Big Data ambiental – são focos de análise no #JuntosPorMinas desta quinzena. O projeto do DIÁRIO DO COMÉRCIO apresenta desafios que possam se converter em desenvolvimento econômico e inclusão para o Estado.

Gestão de recursos ficou mais eficiente

Conhecer as peculiaridades e dinâmicas ambientais, sobretudo a partir das alterações promovidas pelo homem nos espaços naturais é urgente e um grande desafio, dada a dimensão territorial de Minas Gerais. O monitoramento a partir de dados é uma alternativa, que, ainda assim, não torna a missão algo simples.

No Estado, a tecnologia de dados tem sido empregada pelo poder público a fim de mapear os recursos naturais, dar respaldo à tomada de decisões e orientar o planejamento ambiental. A principal ferramenta é a Infraestrutura de Dados Espaciais do Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IDE-Sisema). Criada em 2018, a plataforma condensa dados e metadados socioambientais diversos de estruturas da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), bem como de outros órgãos oficiais.

Atualmente, a IDE-Sisema conta com 679 camadas de dados geoespaciais. É possível realizar pesquisas envolvendo licenciamento ambiental, fiscalização, diagnóstico e monitoramento ambiental, dentre outros. Além disso, dá para buscar por assuntos mais específicos, como hidrografia, outorgas, inventário florestal e saneamento. Ao todo, são mais de 42 gigabytes de informações.

“A partir do momento em que temos essa estrutura, essa plataforma de dados, fornecemos diversos subsídios técnicos para que os gestores, analistas, iniciativa privada e o cidadão comum possam se aprofundar em suas análises”, informou a diretora de Gestão Territorial Ambiental da Semad, Cecília Siman Gomes.

A Semad planeja lançar, ainda este ano, um catálogo de metadados, que favorecerá maior interação do usuário com plataforma. A iniciativa trará maior detalhamento acerca dos dados disponíveis.

“Tendo o arcabouço dos dados e havendo a possibilidade de fazer o rastreamento das informações, as instituições científicas, por exemplo, vão fazer uso desses dados e, a partir disso, podem gerar novos dados por meio de análise combinada. Dentro do Sisema, nossas equipes também poderão gerar novas camadas ambientais. O metadado é um mecanismo de rastreabilidade, transparência e disseminação muito importante para compor uma infraestrutura de dados espaciais”, arremata Cecília.

Qualidade das águas

O monitoramento da qualidade das águas superficiais é um dos mais antigos da Semad. Há 25 anos, o Instituto Mineiro de Gestão de Águas (Igam) realiza coletas trimestrais em 40 sub-bacias hidrográficas do Estado. Ao longo de todo esse tempo, já foram recolhidas mais de 47 mil amostras e realizadas mais de um milhão de análises. Um novo banco de dados está sendo desenvolvido a fim de consolidar informações que, atualmente, não estão integradas ao banco principal.

Segundo o analista do Igam, Sérgio Pimenta Costa, o volume de informações é tamanho que, apesar de contar com corpo técnico competente, não há no órgão recursos humanos suficientes para produzir numerosas pesquisas e análises. “Não é possível dar conta de tanto dado. Por essa razão, divulgamos e fornecemos essas informações facilmente a universidades, pesquisadores e também empresas”, revelou.

Big Data: encontrando oportunidades

Em implementação no Brasil, uma iniciativa pioneira da organização Data Science for Social Good utiliza o processamento de linguagem natural – base do Big Data – em pesquisa de documentos de governos e ONGs para a identificação de oportunidades de investimento.

“Na falta de recursos, uma prefeitura que tenha um projeto para a recuperação de área degradada pode utilizar desse mecanismo para identificar oportunidades de financiamento”, exemplifica o coordenador do curso de Ciência de Dados da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Hugo Bastos de Paula.

Diante do grande volume de dados gerados na atualidade, a organização também encoraja a participação de voluntários na análise de informações, estimulando a construção coletiva de conhecimento a partir dos dados.

“Nós da PUC Minas temos interesse em ter acesso a esses dados para aplicarmos a problemas reais. Essa é uma tendência. Seria muito bom se tivéssemos esse tipo de iniciativa aqui”, opinou.

Ufla cria Agência Zetta

Tradicional centro de pesquisas agroambientais de Minas Gerais, a Universidade Federal de Lavras (Ufla) é celeiro de soluções em tecnologia de dados. A instituição é, há muito tempo, referência em geotecnologia e mapeamentos. 

Já foram desenvolvidos trabalhos robustos, como o Inventário Florestal de Minas Gerais e o Cadastro Ambiental Rural (CAR) brasileiro – a maior base de dados de informações geotecnológicas do mundo, com mais de 7 milhões de propriedades cadastradas.

“O CAR tornou os órgãos fiscalizadores aptos a verificarem se o produtor rural está cumprindo as normas ambientais legais. Hoje monitora-se áreas de preservação permanente, verifica-se áreas de reserva legal, nascentes e áreas protegidas – o que é possível através do percentual de área de produção. Toda essa expertise em geomonitoramento confere evoluções na área ambiental”, aponta o coordenador do Polo Embrapii Zetta/Ufla de Agricultura Digital, Paulo Henrique Leme.

Em 2021, foi criada na Ufla a Agência Zetta de Inovação em Geotecnologia e Sistemas Inteligentes. Em síntese, a agência se propõe, a partir do acesso a banco de dados, a agregar informações de geotecnologia, inteligência artificial e análise de dados para gerar conhecimento capaz de nortear políticas públicas ou inovações. De acordo com Leme, grande parte das demandas da agência é atendida a partir da conexão de bancos de dados que possam oferecer informações úteis e complementares.

A Zetta conta com clientes de peso, como o Ministério da Agricultura, a Agência Nacional de Águas e o Instituto Nacional de Meteorologia, que busca maior detalhamento dos impactos do clima sob a produção agrícola. “Para os órgãos públicos, a Zetta objetiva trazer governança de dados, inovação e gestão de dados e trabalhar estrategicamente essas informações de modo que possam ser feitas previsões de cenários e estruturação de políticas públicas”, aponta Leme.

Uso para manejo florestal e carbono neutro

A ciência de dados e a metodologia de análise  GreenData podem auxiliar empresas na missão de se tornarem mais sustentáveis. Focada no desenvolvimento de soluções voltadas ao monitoramento e mensuração de florestas, a Treevia oferece alternativas a empresas que perseguem a insígnia carbono neutro.

De acordo com o engenheiro ambiental responsável pelo setor de Desenvolvimento de Negócios da empresa, Alan Reis, atualmente é possível quantificar o estoque de carbono de uma floresta. A coleta de dados pode ser feita in loco ou por sensoriamento remoto. A partir da determinação do bioma, da área e espécies cultivadas e do estágio de desenvolvimento das árvores que compõem a amostra, é feita uma estimativa. “Determinados a altura e o diâmetro dos exemplares, é possível modelar e calcular quanto se tem de estoque de carbono na floresta como um todo”, explica.

Para tornar o monitoramento e atualização de dados automatizados, a Treevia desenvolveu um aplicativo e um dispositivo que envolve a árvore, acompanhando seu desenvolvimento. “Assim não é preciso ir a campo para realizar medições. Garante-se a precisão, segurança e certificação que a operação é válida. Você comprova que aquela floresta tem determinada quantidade de carbono, compensando, por exemplo, o impacto das operações de uma empresa”.

Green Data na essência

O Green Data é um projeto de desenvolvimento de tecnologias, por empresas detentoras de DataCenters, com foco na redução do impacto ambiental e em eficiência energética. “Grandes corporações de tecnologia que oferecem o serviço de nuvem, como Google e Microsoft, têm buscado minimizar a emissão de carbono, optando por trabalhar com energias renováveis”, explica a Analytics da empresa mineira de consultoria A3Data, Bárbara Silveira Fraga.

A A3Data trabalha na infraestrutura de nuvens, organização de dados sem padrão e dispersos em variados locais. A empresa torna as informações inteligíveis, sempre atualizadas, promovendo o fortalecimento da governança empresarial.

Além disso, a consultoria desenvolve modelos preditivos e prescritivos com o objetivo de gerar análises e padrões nos dados e, assim, antever comportamentos. Técnicas de machine learning são empregadas para fazer ranqueamentos e indicar produtos.

Na esteira da sustentabilidade, a A3Data utiliza DataCenters que praticam o GreenData.

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