Empresas do Japão cogitam investir em Minas Gerais

“Queremos compartilhar essa melhora da infraestrutura mineira entre as empresas”

8 de julho de 2023 às 0h35

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O embaixador também destacou a importância da diversificação da cadeia de produtos exportados | Crédito: Jacinto Júnior - Fiemg

Com início na primeira década do século passado, as relações entre Minas Gerais e o Japão se fortaleceram ao longo do tempo, resultando em investimentos significativos. Mineiros e japoneses também estabeleceram uma relevante parceria em termos de comércio internacional. O Estado se tornou um grande importador no que se refere a peças e acessórios de veículos e passou a exportar um grande volume de café, ferro-liga e minério de ferro.

Em 2011, a corrente comercial Minas Gerais-Japão bateu recorde e alcançou US$ 3,75 bilhões, conforme dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). A partir de 2015, no entanto, os números despencaram e não chegaram a ultrapassar nem mesmo a casa dos US$ 1,45 bilhão. O mesmo cenário ocorreu no fluxo de comércio nipo-brasileiro, com uma queda de mais de 47% no período entre 2011 e 2018.

No cargo desde dezembro de 2021, o embaixador do Japão no Brasil, Teiji Hayashi, concedeu uma entrevista exclusiva ao DIÁRIO DO COMÉRCIO. Na oportunidade, ele comentou sobre a antiga parceria entre Minas Gerais e o Japão, a chance de novas empresas do país asiático investirem no Estado e no Brasil, e a grande oportunidade que os dois países tem de unirem a tecnologia japonesa e o potencial brasileiro na geração de energia limpa.

O embaixador também destacou a importância da diversificação da cadeia de produtos exportados e de não depender de um único fornecedor. Mencionou ainda as cooperações nipo-brasileiras na cultura, esporte e turismo. Segundo Hayashi, o Japão deve instituir nos próximos meses a isenção de visto para brasileiros, e a expectativa é que o País mantenha a isenção para os japoneses, medida que está prevista para se encerrar no fim de setembro.

Qual a importância de Minas Gerais no comércio bilateral com o Japão?

Minas Gerais é um Estado com o qual temos uma longa história de cooperação na área econômica. Há 60 anos, temos projetos nacionais com grandes empresas como Usiminas, Cenibra, entre outras. Então, temos essa longa história de parceria empresarial. Atualmente, temos 20 empresas japonesas operando no Estado e queremos fortalecer ainda mais os nossos laços comerciais e econômicos.

Ao longo do tempo, tivemos grandes aportes japoneses no Estado, como é o caso da Usiminas, Cenibra e, mais recentemente, a Panasonic. Existem oportunidades para outras empresas japonesas se instalarem em Minas?

Minas Gerais tem um grande potencial não apenas no setor de minério de ferro. Tem, por exemplo, empresas operando com nióbio, um metal escasso e muito útil para algumas tecnologias. Também ouvi dizer sobre o projeto de exploração de lítio no Norte de Minas, que é necessário, sobretudo para a produção de baterias. Então, muitas empresas japonesas dão atenção para Minas Gerais.

Além disso, o Estado tem outros setores, como a agropecuária e áreas relacionadas ao meio ambiente. Portanto, as empresas japonesas também têm interesse nessas áreas.

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, afirmou em entrevista coletiva no Cebraj que investidores japoneses têm interesse em investir na malha ferroviária mineira. Você tem algum conhecimento sobre esse interesse?

No Brasil, a Mitsui tem investimentos em linhas ferroviárias, por exemplo, na SuperVia, no Rio de Janeiro. Outras empresas também têm interesse em investir na área de infraestrutura. São negócios, então depende das condições. Mas queremos compartilhar essas informações sobre essa melhora da infraestrutura mineira entre as empresas japonesas.

Além da infraestrutura, o setor de energia limpa seria um dos setores prioritários nessa relação bilateral?

Sim. Durante a abertura da reunião do Conselho Empresarial Brasil-Japão, vários convidados mencionaram a tecnologia das empresas japonesas sobre o hidrogênio. A Toyota, por exemplo, possui um carro de passageiros com motor (movido) a hidrogênio, sem (a necessidade de) gasolina ou etanol. E no ano passado, a Kawasaki lançou o primeiro navio transportador de hidrogênio. No caso do Brasil, se produz muita energia limpa com fonte fotovoltaica e eólica. Acredito que com essa combinação da energia limpa brasileira e a tecnologia das empresas japonesas, podemos avançar em várias áreas.

Atualmente, o Brasil exporta principalmente commodities para o Japão. Como podemos diversificar esse mix de produtos exportados?

Após a invasão russa na Ucrânia, muitos países estão conscientes dos riscos de depender de uma única cadeia de suprimentos e de um único exportador ou importador. É um grande risco para qualquer país. No Brasil, por exemplo, mais de 70% da soja exportada vai para o mercado chinês. No Japão, quase 80% da soja importada vem dos Estados Unidos. Depois que assumi essa missão como embaixador, estou fazendo esforços para diversificar essa cadeia de soja e importar mais para o mercado japonês. Estou conversando com vários exportadores e agricultores sobre essa possibilidade. Acredito que, no caso das commodities brasileiras, seja necessário considerar esse tipo de diversificação dos mercados, não apenas para a soja, mas para qualquer produto, e evitar o risco de depender de um único importador.

Durante a visita do presidente Lula ao Japão, ele mencionou que os dois países têm que estabelecer uma relação que vá além do comércio bilateral, incluindo áreas como cultura, política, ciência e tecnologia. Como vocês pretendem estabelecer essa relação? Existem iniciativas nesse sentido no radar?

Brasil e Japão têm cooperações em várias áreas. Há duas semanas, estive presente em uma sessão especial para o Dia das Olimpíadas, no Senado Federal. E falamos sobre muitas cooperações, por exemplo, no futebol e no judô. O número de praticantes de judô no Brasil é maior que no Japão. Então, principalmente, na área de esportes, esse laço é muito forte. No caso da cultura, vários brasileiros gostam muito da culinária japonesa, além de mangá e anime, que fazem parte da cultura pop. Não existe esse tipo de relação bilateral sem essas cooperações nas mais diversas áreas. Agora, começamos a ter visitas importantes, inclusive de empresários no Cebraj, e podemos fortalecer ainda mais as nossas relações bilaterais.

Nessa mesma visita do Lula ao Japão, o primeiro-ministro japonês citou sobre os procedimentos para a isenção de visto para brasileiros no Japão. Como está essa situação? Vai avançar?

As pessoas sabem que o governo Lula anunciou a finalização da isenção de visto unilateral para japoneses, americanos, canadenses e australianos. Levando em conta essa nova política, consideramos seriamente a isenção de visto para os brasileiros. Realmente, nessa visita do presidente a Hiroshima, no Japão, nosso primeiro-ministro, Fumio Kishida, anunciou o começo dos procedimentos para isenção de visto para manter essa ‘troca’ de pessoas entre o Japão e o Brasil.

Antes da pandemia de Covid-19, recebemos quase 80 mil japoneses aqui no Brasil, entre turistas e homens de negócios, e 40 mil brasileiros visitaram o Japão. Acredito que temos um grande potencial de aumentar esses números de visitantes. Essa isenção de visto que vai estar sendo introduzida em alguns meses, será uma oportunidade maravilhosa para incrementar esse intercâmbio de pessoas. Já estou em contato com agências de turismo e também com o Ministério de Turismo brasileiro para aumentar esse intercâmbio em ambas direções e aproveitar essa maravilhosa oportunidade.

O Brasil voltará a exigir o visto para os japoneses a partir do dia 1º de outubro. Existe alguma conversa para que o País mantenha essa isenção?

Essa é a nossa expectativa. Já estamos conversando com as autoridades brasileiras e acredito que o governo brasileiro vai manter essa isenção de visto para os japoneses também.

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