Pandemia e guerra na Ucrânia colocam em xeque a globalização

15 de abril de 2022 às 0h30

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Entre as principais características da globalização, está a divisão internacional do trabalho, bem exemplificada pela indústria automotiva | Crédito: Washington Alves/Reuters

Com a guerra na Ucrânia, o mundo vê desfazer um conceito dominante desde os anos 90: a globalização, entendida como o processo mundial de integração política, econômica e cultural, que só foi possível graças aos avanços na logística de transportes, que encurtaram distâncias, e na comunicação, que fez a informação andar mais rápido.

Assim, um automóvel é montado no Brasil, mas suas peças vêm de vários lugares do mundo: os bancos da China, os pneus da Indonésia, os motores da Argentina, painéis da Tailândia e impulsores de partida de uma fábrica em Brusque, no Estado de Santa Catarina. O projeto viaja pela internet e os componentes, em navios e aviões.

Essa cadeia, que se repete na manufatura de vários produtos, sofreu um duro golpe na pandemia. Os suprimentos faltaram em todo o mundo, inclusive no imaginário das pessoas: como uma máscara só pode ser fabricada na China? Por que não dá para produzir algo tão simples por aqui?

A guerra na Ucrânia escancara ainda mais as deficiências do processo e não há dúvida de que o mundo será menos globalizado daqui para frente. “Entramos numa nova Guerra Fria”, diz o professor de Estratégia da Fundação Dom Cabral, Paulo Vicente Alves. “As cadeias de suprimento devem encurtar e buscar regiões mais seguras. O mundo que existiu entre 1991 e 2021 não existe mais”, decreta.

Para Alves, nessa nova ordem mundial, alguns blocos econômicos devem ganhar importância, caso da União Europeia e do Asean – a associação de nações do Sudeste Asiático onde são fabricadas boa parte daquelas peças de automóveis, como uma reação à agressão à Ucrânia e à aliança China-Rússia. “Outros, como o Mercosul, não mudam de importância. Porém, a América Latina como um todo deve receber aporte de investimentos que iriam para a Ásia e Leste da Europa”, diz o professor.

Como o mundo ainda continua sendo uma aldeia global, os efeitos chegam à balança comercial mineira que, segundo Alves, deve se beneficiar do aumento do preço das commodities como um todo, “o que é bom pensando em minério, mas é ruim em termos de petróleo e fertilizantes”, observa.

“Essa é uma discussão que precede a invasão da Ucrânia”, aponta o ex-ministro do Planejamento no governo FHC, Paulo Paiva. “Essas coisas funcionam em ondas. A democracia, por exemplo, não é um estágio superior de organização da sociedade; como a globalização, ela vai e volta, quando o momento pede. O que não tem retorno são os avanços tecnológicos: nós não vamos voltar aos veículos movidos à tração animal ou a falar ao telefone com auxílio da telefonista”, diz Paiva. “A menos que haja uma crise ambiental ou qualquer coisa do tipo”, ressalta.

Fechamento de ciclo

Neste momento, a globalização cumpre um ciclo que teve suas origens no final da Segunda Guerra e ápice nos governos Thatcher na Inglaterra e Reagan nos Estados Unidos – com o qual, aliás, o presidente russo Mikahil Gorbachev formalizou o fim da Guerra Fria. “Esse período está se esgotando agora. A guerra na Ucrânia é uma consequência disso”, atesta Paulo Paiva.

Assim como a recessão que atingiu a democracia, a globalização vem sendo questionada por amplas parcelas da população em vários países. É possível detectar dois motivos principais para a debacle da globalização como a conhecemos: os riscos à natureza pela exploração desenfreada de recursos naturais e o aumento da desigualdade social, já que os frutos da globalização costumam se concentrar em poucas mãos.

É aí que a economia se mistura com a política e gera a revolta de centenas de milhões de deserdados dos benefícios da globalização. Coletes amarelos que ganham novas cores e engrossam movimentos conservadores de direita na Hungria, na Polônia, Itália, Espanha (olha a onda, vai e volta), nos EUA de Trump, no Brasil de Bolsonaro e na França, onde Macron é concretamente assombrado por Le Pen. Ou, simplesmente, se retiram da União Europeia, como a Inglaterra do Brexit.

Para Paulo Paiva, o futuro é incerto. “O conflito na Ucrânia não vai virar uma guerra nuclear porque ninguém vai fazer essa bobagem que acaba com todo mundo. Mas a guerra não termina facilmente”, acredita. Segundo ele, certas relações comerciais não se interrompem facilmente. “Imagine o investimento que a Alemanha fez para levar o gás russo até lá. O país também depende muito dos grãos da Ucrânia”, exemplifica.

Para Paiva, a guerra na Ucrânia não termina facilmente | Crédito: Alisson J. Silva/Arquivo DC

Dinâmica inclui mais competitividade

Já o mercado financeiro se vira. “Ele encontra formas de by-pass. Já se pensa em um blockchain para monetizar a Ucrânia; a tecnologia, por sua vez, é menos regulada supranacionalmente e um acordo comercial pode ser feito entre dois países ou duas empresas”, aposta o ex-ministro.

Mas, para Paiva, certamente, o mundo será diferente depois da guerra. “A hiperglobalização é difícil, os países vão se defender nas cadeias de valor, protegendo suas economias. Eles podem criar incentivos à indústria ou barreiras para a importação. Não se deve reduzir o comércio internacional, é necessário aumentar a competitividade, mas acho que é possível que o mundo dê um passo atrás”, conclui.  

Em recente webnar promovida pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef-MG), que teve o apoio do DIÁRIO DO COMÉRCIO, o diretor de investimentos da Mapfre, Carlos Eduardo Eichhorn, levantou a hipótese de que as sanções poderiam recair sobre outros países além da Rússia, como a China, por exemplo.

“Este é um cenário que favorece a “desglobalização” econômica. O mundo continua globalizado, tudo impacta tudo, mas com uma tendência de descentralização, de uniões bilaterais para evitar a dependência de quatro ou cinco polos tecnológicos mundiais. Empresas e países podem procurar parceiros comerciais mais próximos e diversificados. Ou podem oferecer incentivos para que as fábricas passem a produzir no próprio país”, disse então Eichhorn.

O economista Paulo Bretas, coordenador da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (Abed-MG), concorda, em parte, com este raciocínio. “Acho, porém, que a abertura da economia tem que vir com contrapartida por parte dos parceiros. E não é apenas a compra de commodities, mas também parcerias em ciências, tecnologia e aumento de nossa produtividade industrial”.

Bretas também vê esta fase de regressão da globalização, mesmo que ela ainda não mostre o que vem por aí.  “O fato é que mudanças estruturais estão acontecendo e são consequência da crise da Covid-19 somada à guerra da Ucrânia. Tudo afetou as cadeias produtivas. Em especial alimentos, energia e insumos vindos dos países em guerra”, cita.

Neste contexto, ele acredita que as relações bilaterais vão coexistir com as relações multilaterais. “Veja o esforço do Brasil para se adequar e entrar na OCDE. No governo Bolsonaro, não vejo qualquer apoio ao Mercosul. Vejo é muita politização das questões com a Argentina por divergências ideológicas”.

Minas Gerais

Em relação a Minas Gerais, Paulo Bretas é otimista. “A balança comercial mineira, no que depender das exportações de commodities, deve caminhar para um bom superávit. Já se fala num superávit comercial brasileiro da ordem de US$ 100 bilhões em 2022 e, certamente, Minas Gerais terá uma contribuição razoável nessa façanha”.

O problema, segundo ele, é que o Brasil e outros países do mundo praticam uma política monetária ineficiente, que tenta combater a inflação com aumentos abusivos da taxa básica de juros, baseando-se em expectativas de mercado. “O mundo real, o mundo da produção, da recomposição das cadeias produtivas, precisa de crédito barato. Não podemos mais seguir transferindo renda para as classes mais ricas a partir de juros pagos para manter uma dívida pública próxima de 80% do PIB”, critica Bretas.

“Sem produção em condições razoáveis de custo de capital, não haverá futuro. Sem uma política clara de apoio à reindustrialização, com produção de bens de alto valor agregado e sofisticação tecnológica, não teremos um bom futuro”, finaliza o economista.

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