O índice de ociosidade na indústria extrativa de Minas Gerais é estimado pela Fiemg em torno de 6% entre janeiro e junho | Crédito: Roberto Rocha/RR Usada em 06-03-20

Os reflexos da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) deverão impactar negativamente o Produto Interno Bruto (PIB) de Minas Gerais, que poderá apresentar uma retração de 7% neste ano.

A projeção foi revelada pela gerente de economia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Daniela Britto, durante transmissão ao vivo realizada nas redes sociais na tarde de ontem.

A previsão é pior do que a que tem sido feita para o Brasil, que gira em torno de um recuo de 5,5% para o PIB de 2020. Segundo Daniela Britto, isso se explica pelo fato de o Estado ter uma estrutura industrial mais concentrada e serviços mais dependentes da indústria.

Para chegar até este número, foram feitos cálculos que levaram em conta fatores como as quedas já conhecidas na produção industrial até agora e a possibilidade de o isolamento se estender por mais um tempo, até meados de maio, por exemplo.

Para se ter uma ideia, segundo Daniela Britto, a indústria deverá ter um nível de ociosidade de quase 11% no primeiro semestre deste ano em comparação a 2019. A indústria extrativa não deverá ter um impacto muito grande, girando em torno de 6%, “não por causa da crise, mas por problemas da produção em função das chuvas fortes no primeiro trimestre”, diz a gerente de economia da Fiemg.

Já a indústria da transformação poderá apresentar um nível de ociosidade de 16,5% no mesmo período.

As perspectivas são, ainda, de que os serviços caiam 20% neste primeiro semestre em Minas Gerais, principalmente por causa do comércio, escolas e transportes. Já a indústria da construção poderá recuar cerca de 1,1%.

No entanto, apesar de as obras não terem paralisado, Daniela Britto diz que um impacto maior é previsto para o segundo semestre. Muitas pessoas que pensavam em investir em imóveis poderão desistir de fechar negócio por causa da instabilidade econômica. A ociosidade do setor agrícola, por sua vez, deverá ser igual a zero.

Setores mais afetados – Quando o assunto são as atividades mais afetadas, Daniela Britto ressalta que o setor de automóveis é uma delas, com um recuo previsto de 6%. A gerente de economia da Fiemg lembra que muitas concessionárias estão fechadas, as fábricas estão em um nível de ociosidade elevado e as exportações para a Argentina, grande compradora desse segmento no Brasil, deverão ficar comprometidas por causa do próprio cenário do País vizinho.

A redução prevista para o setor de refino de petróleo é de 4%. Com a queda da atividade econômica, há menos pessoas demandando combustíveis e o próprio segmento de transporte está em forte desaceleração, conforme lembra Daniela Britto. Já a retração na área de autopeças deverá ser de 3,7%.

A siderurgia também poderá sofrer perdas. Um dos motivos, segundo a gerente de economia da Fiemg, é a “queda de atividade dos Estados Unidos, que deixam de demandar produtos siderúrgicos do Brasil”. Além disso, há também os reflexos da baixa na área automotiva, uma das maiores demandantes de aço.

Projeção anual – Para 2020, Daniela Britto afirma que, em comparação a 2019, a retração no setor de serviços deverá ser de 8,8% e de 5,3% na indústria. A queda da construção deverá ser de 4,7%. O segmento agrícola, por outro lado, deverá crescer 3%.

Recuperação será lenta após a pandemia

Apesar de todas as projeções, o cenário é ainda muito incerto. Não se sabe, ainda, quando o Estado, o País e o mundo sairão dessa situação em que se encontram atualmente.

Para a gerente de economia da Fiemg, Daniela Britto, a recuperação da economia não acontecerá em V (quando há uma queda brusca e logo em seguida uma ascensão rápida). De acordo com ela, está se trabalhando com a “possibilidade de uma recuperação mais lenta, em U”. O nível de recuperação deverá ser mais lento na base, segundo a gerente de economia da Fiemg, para só depois voltar ao crescimento.

Ela lembra, entretanto, que as medidas tomadas pelo governo federal, como as relacionadas à manutenção do emprego e ao ajuste emergencial, estão sendo capazes, até agora, de atenuar o nível de queda da economia.

A possível recuperação em V também foi mencionada pelo pesquisador e coordenador de Contas Regionais da Fundação João Pinheiro (FJP), Raimundo Leal, em um bate-papo ao vivo realizado ontem à tarde pelas redes sociais. De acordo com ele, a recuperação econômica não deverá ser nesse modelo, mas, sim, mais demorada.

Durante a transmissão, Raimundo Leal também mencionou que para sair da crise econômica de uma forma melhor é muito importante que a questão da saúde pública seja bem tratada.

Ele citou como exemplo um estudo que mostra que durante a chamada gripe espanhola, no começo do século passado, cidades que tiveram medidas mais rigorosas em relação à paralisação das atividades se deram melhor economicamente do que outras que agiram de maneira diferente.

Segundo o pesquisador da FJP, os impactos em curto prazo desse tipo de medida na economia podem ser maiores, mas, posteriormente, a recuperação poderá ser melhor.
Além disso, de acordo com ele, o governo federal precisa reconhecer a situação das finanças públicas estaduais, pois é necessário um auxílio neste momento. “Negar essa ajuda é uma falta de consideração com a vida inaceitável”, diz.

Passado e futuro – Apesar de afirmar que as perspectivas não são animadoras, Raimundo Leal também disse que com o passar do tempo será possível ter uma ideia mais precisa de como ficará a situação em Minas.

No entanto, ele adianta: as coisas não deverão ser como antes. Mas também já não eram há algum tempo.

O Estado, no ano passado, lembra ele, já teve a menor produção de automóveis dos últimos anos, menos de um terço do auge em 2012. “Já estávamos em uma situação em que a nossa indústria estava dando sinais de desaceleração forte. A situação já era grave antes da pandemia”, afirma.

De acordo com ele, caminhos precisarão ser abertos e novas possibilidades deverão ser criadas. Para o pesquisador, é importante, por exemplo, mais investimento em ciência e tecnologia, para que as empresas do Estado possam se tornar mais competitivas.