Aeroporto Carlos Prates: fim de operações afeta cadeia e formação de pilotos

O DIÁRIO DO COMÉRCIO ouviu especialistas para avaliar impactos com fechamento de aeródromo, que hoje completa 15 dias

15 de abril de 2023 às 7h00

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Aeroporto Carlos Prates | Crédito: Charles Silva Duarte/Arquivo Diário do Comércio

O Aeroporto Carlos Prates, localizado na região Noroeste de Belo Horizonte, completa, neste sábado, 15 dias desde que teve as suas atividades encerradas após 80 anos de existência. A revogação do contrato entre a União e a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) foi uma decisão tomada pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPA). No entanto, o fechamento do terminal gerou insatisfação entre afetados e dividiu opiniões entre os especialistas que acompanham o caso.

Dentre os impactos diretos que o fechamento do aeroporto tem gerado para a economia mineira está a interrupção da atuação de empresas e players da cadeia aeroportuária, de empresas aéreas e de tráfego aéreo. Há ainda a redução da injeção de renda na economia e o encerramento dos postos de trabalho. Até o momento, o número de desempregados é contabilizado em 500. O local ainda era um importante polo educacional brasileiro para a formação de futuros pilotos. Em sua totalidade, 1 mil estudantes tiveram que paralisar os estudos por falta de um aeroporto-escola próximo de casa.

De acordo com um levantamento da universidade da Fundação Mineira de Educação e Cultura (Fumec), o Aeroporto Carlos Prates, ao longo das oito décadas de existência, formou 85 mil pilotos. “O aeroporto muito contribuiu para a história da aviação no Estado. Perdemos ainda uma importante base de operação das aeronaves usadas no combate a incêndios florestais”, declara o coordenador do Curso de Ciências Aeronáuticas da instituição, Aloísio Santos.

O docente, que tem acompanhado as operações do terminal, assim como o processo de formação dos seus alunos que dependem de horas/aula para se formarem, lamenta o desfecho do aeroporto. Segundo ele, Minas Gerais perde em não debater o futuro da formação prática dos pilotos. “As questões políticas acabam sobrepondo as questões econômicas e sociais”, diz.

Elencando características importantes do aeroporto, o coordenador do curso de Engenharia Aeroespacial da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ricardo Ferreira, pontua que, “no Aeroporto Carlos Prates, operaram 17 diferentes companhias aéreas, entre elas está a maior certificadora aeronáutica do Brasil, duas oficinas de manutenção de aeronaves, 22 hangares de apoio aeronáutico e os Escoteiros do Ar“, lembra.

Segundo ele, as cinco escolas de formação de aeronautas existentes no terreno do aeroporto formavam o segundo maior polo de ensino prático para pilotos do Brasil, além de o espaço abrigar também o Aeroclube do Estado de Minas Gerais.

Especialista minimiza efeitos para economia no Estado

Para o professor de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Bernardo Palhares, os efeitos gerados pelo fechamento do local são pequenos. Ele acredita que as empresas antes existentes no aeródromo terão condições de se instalarem em outros espaços pelo Estado.

“Se olharmos para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, ambas possuem três aeroportos, sendo um em cada cidade destinado para voos comerciais regulares. Em São Paulo, o aeródromo comercial é o Campo de Marte. Já no Rio de Janeiro, é o aeródromo de Jacarepaguá (Aeroporto Roberto Marinho). Eles, que são administrados pela XP, contam com grupamento de Rádio Patrulha Aérea da Polícia Militar e do Serviço Aéreo Tático da Polícia Civil”, informa Bernardo Palhares.

Relacionando com os aeroportos Campo de Marte e Jacarepaguá, o docente afirma que são terminais cujo funcionamento conta com operações de bases de aviação executiva, táxi-aéreo, escolas de pilotagem e espaços para eventos. “No caso do aeródromo do Carlos Prates, ele apenas é um polo para a capacitação e formação de pilotos. Não vejo que ele seja importante para o Estado de Minas Gerais, pois é restrito somente a uma determinada parcela da população. Se fosse importante, não deixariam ele encerrar as suas atividades, mas seria um articulador com outros estados, Forças Armadas e a sociedade civil”, analisa o economista.

Brasil luta há décadas por privatização de malha aeroportuária

O CEO da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), Flávio Pires, ressalta que o Aeroporto Carlos Prates possuía uma alta concentração de escolas de pilotagem com formação e treinamento de pessoas para o mercado da aeronáutica. Segundo ele, a Abag reconhece a importância histórica do aeródromo para a aviação nacional.

Flávio Pires destacou os desafios da aviação nacional e sugeriu que Belo Horizonte olhe para as inovações em veículos aéreos urbanos diante da nova fase do terreno onde operava aeródromo | Crédito: Divulgação/Abag

“Grande parte da malha aeroportuária do Brasil é parte pública. Ela foi feita e é coordenada pela União, que estrutura o espaço aéreo e regulamenta toda a aviação civil. Por idas e vindas, a malha foi caindo nas mãos de alguns com má administração do poder público. Esse fato não aconteceu somente no Aeroporto Carlos Prates, mas em várias regiões do País”, destaca.

De acordo com Flávio Pires, o governo federal liderado por Jair Bolsonaro (PL) optou em fazer uma privatização da malha aeroportuária do Brasil. “Já há algum tempo, o País vinha fazendo esse processo para que os aeroportos fossem operados de uma forma mais eficiente, pois exigem investimentos muito altos. Inclusive, tem mais de 30 anos que vivemos esse marasmo de tentar conseguir investimentos nos aeroportos. Mas Minas Gerais e Belo Horizonte tiveram a intenção de fechar esse importante equipamento por outra proposta que precisa ser discutida”, comentou.

Belo Horizonte fez, na visão do CEO da Abag, uma opção muito bem estruturada pelo prefeito Fuad Noman (PSD) para o terreno, mas que precisa ser estudada no sentido de entender o porquê de outros investimentos serem mais importantes do que o aeroporto para a região no local. “Pelo viés estratégico, é interessante trazer segurança à comunidade e aos futuros empreendimentos que vão se instalar no local. Inclusive, estrutura para os modelos de negócios que estão próximos do balcão, pois quem acompanha o setor aeronáutico tem mais de 300 projetos pelo mundo de veículos aéreos urbanos, que é o futuro da viação, que são os eVetols, o que a minha associação defende”, diz.

Voa Prates ainda não sabe futuro de escolas e alunos

Diante da situação amarga de ter que deixar o terreno do aeródromo às pressas e sem motivo oficial, a Associação Voa Prates busca alternativas de reestruturação, mas até o momento são inviáveis.

Segundo o presidente da entidade, Estevan Velásquez, como alternativa, os espaços de outros aeroportos no interior de Minas se ofereceram para receber instalações, mas a estrutura não comporta a infraestrutura adequada.

“O nosso nicho é a formação por meio das escolas de aviação e de manutenção. Aqui em BH, temos cinco universidades com cursos voltados para a aviação. Grande parte dos nossos estudantes são assistidos pelo Fies (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior). Como eles dependem de horas/aula de aviação para se formarem, como eles vão para o interior?”, indaga.

O especialista em aviação explica que, para estabelecer um novo espaço, é preciso infraestrutura, além de mobilidade. “Não é porque tem uma pista em Pará de Minas que vai dar certo irmos para lá. Nossos estudantes serão prejudicados. Fora que as famílias que aqui vivem não são todas que iriam. Teremos, portanto, que fazer demissões – como as empresas já estão fazendo -, e cada uma decidindo para onde vai”, conclui.

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