Polo de lítio transforma o Vale do Jequitinhonha

Em conversa com o DIÁRIO DO COMÉRCIO, Gil Pereira recordou projetos que ajudou a tirar do papel, como o mapa solarimétrico do Estado

11 de julho de 2023 às 0h31

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Gil Pereira destaca o potencial energético de Minas | Crédito: Leonardo Morais

Natural de Montes Claros, no Norte de Minas, o deputado Gil Pereira (PSD), está em seu oitavo mandato consecutivo na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e, na atual legislatura, é presidente da Comissão de Minas e Energia.

Não por acaso, integrou o secretariado de Antonio Anastasia entre 2011 e 2014, na Pasta de Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e do Norte do Estado, já que suas principais regiões de atuação política são justamente o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha.

Por esses e outros motivos, Pereira é a pessoa indicada para comentar não apenas os projetos de energia renovável presentes no Estado (a maioria alocada nas regiões), bem como as novas frentes de desenvolvimento que vêm surgindo, nos últimos anos, nestes locais, que também abrigam os menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) de Minas Gerais.

Nesta entrevista exclusiva ao DIÁRIO DO COMÉRCIO, o deputado recordou projetos que ajudaram a tirar do papel, como o mapa solarimétrico do Estado. E citou a barragem de Jequitaí, que chegou a ser licitada, mas não avançou, porque a empresa que assumiu o ativo faliu.

Segundo ele, o projeto está sendo retomado pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf) e possivelmente voltará ao mercado em outubro, no formato de parceria público-privada (PPP).

O deputado também destacou a representatividade do Estado no posicionamento brasileiro em termos de geração solar, dos investimentos bilionários que a iniciativa privada tem empenhado na geração eólica e as apostas para o hidrogênio verde.

E reforçou a importância das cifras que a abundância de lítio no Vale do Jequitinhonha tem atraído para a região e a perspectiva de agregar valor ao produto, culminando com a instalação de fábricas em Minas.

Qual sua principal missão enquanto presidente da Comissão de Minas e Energia da ALMG?

Energia é o nosso foco principal. O Estado vive hoje um momento muito propício para fontes renováveis. Lideramos a geração de energia solar, já que de tudo o que é produzido no Brasil, 20% saem de Minas. Já são mais de 6 gigawatts (GW) de energia solar fotovoltaica, sendo 3 GW de centralizadas, ou seja, aquelas plantas grandes, que inclusive inauguramos uma recentemente, em Janaúba. Tive a oportunidade de fazer uma lei em 2017 que nos permitiu sair de praticamente zero e alcançar esses 3 GW. O outro momento importante que vivemos diz respeito ao leilão que ocorreu no mês passado, na B3. Foi um dos maiores já realizados no Brasil, com nove lotes, dos quais, seis em Minas Gerais e investimentos na casa dos bilhões. O certame prevê a construção e manutenção de 6 mil quilômetros de linhas de transmissão e 400 megavolt-ampères (MVA) em capacidade de transformação de subestações, os chamados linhões, em cidades como Janaúba, Jaíba, Buritizeiro, Arinos, Governador Valadares, etc. Isso vai permitir a expansão da malha e permitir que a energia gerada seja escoada. E, se Deus quiser, em breve vamos ter também o Biogás. Para além dos 6 GW, já temos outorgado, ou seja, garantido na Aneel mais quase 40 GW de energia solar fotovoltaica. O Brasil todo já está com aproximadamente 32 GW e vamos, dentro de pouco tempo, passar a Alemanha. Já estamos no top 10, ocupando o oitavo lugar, entre os países que mais produzem energia solar fotovoltaica no mundo. Esse é um trabalho que iniciamos há anos, quando tive a honra de ter sido convidado pelo então governador Antonio Anastasia, hoje ministro TCU. Naquela época, com a Cemig, fizemos o mapa solarimétrico do Estado e esse mapa identificou aos poucos os locais mais importantes de Minas Gerais onde poderíamos gerar a energia, com destaque para o Norte, o Jequitinhonha, o Centro-Oeste e o Triângulo. Mas toda Minas Gerais tem um grande potencial, especialmente essas regiões. O Norte de Minas tem um dos melhores índices do Brasil e muitos estão querendo investir.

E as outras fontes de energia?

Em termos de geração eólica, dois grandes projetos encaminhados, na fase de licenciamento ambiental. São projetos privados nos arredores das cidades de Espinosa, Monte Azul, Mato Verde, Santo Antônio do Retiro e Rio Pardo de Minas e estão estimados em R$ 12 bilhões. Eles envolvem plantas solares, eólica e híbridas. Mas são empreendimentos para começarem a produzir daqui a dois ou três anos. A eólica existe mais no litoral porque os ventos nessas regiões são mais fortes, mas no Norte de Minas há ventos que vêm, justamente, do litoral, e elevam o fator de capacidade de geração da região. Enquanto esse valor aqui em Belo Horizonte, por exemplo, é de 50%, o de uma hidrelétrica chega a quase 100% e na solar pode ser de 30% para alguns projetos. Já no Norte de Minas poderá chegar próximo a 60% ou 65%. E os investidores estão olhando esse potencial. O hidrogênio é outra oportunidade e vai demandar muita energia limpa. Por isso, também já está se viabilizando aqui no nosso Estado. O Brasil surge com mais esse potencial, não só para o consumo interno, mas também para exportar para a Europa, para os Estados Unidos e outros continentes. Temos todas as condições e Minas Gerais, mais uma vez, sai na frente com essa forte produção de energia limpa. E com os investimentos na integração desses linhões, integrando o Sistema Integrado Nacional (SIN), que é produzido pode ser transportado para qualquer local do País, principalmente do Nordeste ou do Norte de Minas, onde há um volume grande de produção para o centro de carga. Essa integração é muito importante. Especificamente aqui no Estado, o governador (Romeu) Zema lançou um programa que prevê R$ 19 bilhões de investimento na Cemig até 2027, em vistas a fazer 200 novas subestações e a troca das linhas monofásicas. Teremos mais 30 mil quilômetros de linha trifásica. O Estado já está crescendo mais que a média nacional e com mais essa oportunidade, vamos ter energia para atrair outros empreendimentos nacionais e internacionais.

Existem projetos para fomentar ainda mais a geração fotovoltaica no Estado?

O Estado hoje, através do BDMG, financia empreendimentos de energias renováveis, e em âmbito nacional, a área mineira da Sudene, que hoje são mais de 200 municípios, é contemplada pelo Banco do Nordeste, que também financia projetos com taxas mais favoráveis. Além disso, tem também o BNDES com juros subsidiados e instituições de outros locais do mundo já olham para o Brasil e para Minas, investindo neste tipo de projeto. Em função da guerra na Ucrânia, temos a oportunidade de ter recursos europeus e americanos para esse tipo de produção.

Você foi secretário de Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e do Norte de Minas. Na sua avaliação, o que evoluiu de lá para cá?

Muita coisa. Naquela época enfrentamos uma seca muito forte e distribuímos 43 mil cisternas de 16 mil litros no Norte de Minas, Jequitinhonha e no Mucuri. Foram 500 sistemas simplificados. Investimentos que naquela época somaram mais de R$ 500 milhões. E no Norte de Minas fizemos o trabalho da barragem de Jequitaí, que foi licitada, fizemos todo o trabalho ambiental, mas a empresa chegou à falência e agora estamos retomando. Em outubro, vamos ter um chamamento público de PPP, vamos poder reiniciar e dentro de dois anos concluir essa barragem que vai irrigar por volta de 30 hectares e colocar 34 metros cúbicos de água no rio São Francisco. Só para se ter uma ideia, a transposição toda do rio São Francisco é de 26 metros cúbicos. Essa barragem é de fundamental importância. Da mesma forma, a barragem de Congonhas também, que o projeto está pronto e via Denox, em parceria com o governo de Minas. Ambos são projetos estruturantes que vão melhorar muito as bacias do rio São Francisco e do rio Verde Grande.

Crédito: Leonardo Morais

A exploração do lítio no Jequitinhonha é mesmo um divisor de águas para a região? O Vale tem sido citado como região de oportunidades. Quais são essas oportunidades?

Empregos. A Sigma já está operando na região e tem mais sete outras grandes empresas que estão chegando na região de forma definitiva. E realmente o Vale do Jequitinhonha virou um vale de oportunidades, o Vale do Lítio, o lítio verde, que é um lítio diferenciado. E aqui eu quero parabenizar a Ana Cabral, CEO da Sigma, que realmente está fazendo um belo trabalho e já tem mais de mil pessoas trabalhando lá. O lítio verde é o que o mundo precisa, por isso, o valor de mercado da empresa subiu tanto. E hoje com a tecnologia das baterias, você produz a energia solar, coloca a bateria e não vai precisar mais de fios. Realmente é uma oportunidade enorme na geração de empregos e melhoria da infraestrutura das cidades, além do trabalho social que a Sigma, por exemplo, já está fazendo.

O que fazer para os investimentos não ficarem restritos aos insumos e Minas agregar valor a esse tipo de produção?

Esse é o nosso principal trabalho. Temos que agregar valor, não só tirar o minério, para que as fábricas possam vir para a nossa região, para o Jequitinhonha, principalmente, onde está sendo tirado o lítio. E tem a questão da ferrovia também, que o lítio vai viabilizar. A MTC já está investindo em uma linha que vai passar por Caravelas, Salinas, Itinga e Araçuaí, não apenas pelo lítio, mas também pela grande massa florestal de pinus e eucaliptos.

Você enxerga a possibilidade de se criar um polo de produção de baterias e outros produtos a partir do lítio no Estado?

Sem dúvidas. Hoje a China é a grande potência de tudo, mas tudo depende da demanda. Como a gente já vai estar produzindo o insumo aqui e a demanda mundial está se elevando cada vez mais, vamos ter a oportunidade de ter essas fábricas aqui. Aliás, já existe compromisso da BYD para produzir carros elétricos na Bahia e eu não tenho dúvidas que a tecnologia e a inovação vão fazer com que essas fábricas possam vir rapidamente para o nosso País. E, logicamente, vamos lutar para virem para Minas Gerais.

Como enxerga a atual relação do governo estadual com a ALMG?

Esta atual legislatura tem tido uma tranquilidade maior, embora nas últimas semanas, o secretário Igor (Eto) tenha deixado a Secretaria de Governo e o governador nomeou o líder de governo na Casa, o deputado Gustavo Valadares. E vemos isso com ótimos olhos para que os projetos de interesse do Estado que, logicamente são também do interesse do parlamento mineiro, possam avançar e o governador dar celeridade ao seu programa de governo, afinal, ele foi eleito no primeiro turno e a sociedade aprovou suas propostas. Agora cabe a ele enviar os projetos para serem apreciados no Legislativo.

Você acredita que os projetos de privatização da Cemig e da Copasa serão aprovados?

Algumas o governo ainda não tem nem o modelo de concessão, se serão privatizadas ou concedidas. A Copasa eu vejo com mais tranquilidade e a Cemig é muito cara para os mineiros e a maior mola propulsora do nosso Estado, tanto é que está com esse investimento de R$ 19 bilhões. Embora o governador ainda não tenha enviado os projetos e, por isso, as discussões ainda não começaram, ele foi eleito com esse discurso e com o compromisso de privatizar as empresas públicas. Ele enviando, não tenho dúvidas que o colégio de líderes e as comissões irão debater e avançar. Ainda temos quatro meses da nova gestão e, nas últimas semanas, o secretário de Governo que fazia essa interlocução com o presidente da Casa, deixou o governo. E acredito que a nomeação do Gustavo Valadares vai facilitar muito, porque é um deputado experiente, que já está em seu sexto mandato, já conhece a Casa e sabe como funciona o relacionamento com o Executivo. Acho que vamos ter mais celeridade.

Qual sua avaliação sobre o Regime de Recuperação Fiscal (RRF)?

O Regime já até passou pela Assembleia porque se trata de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Outros estados como Rio de Janeiro, Goiás e o Rio Grande do Sul estão enfrentando, pois são estados em dificuldade que também têm que renegociar suas dívidas e pagá-las. Falta mesmo acertar o que fazer e como fazer. Mas é lógico que é preciso ser feito, porque realmente a dívida aumenta muito e temos que em algum momento renegociá-la e pagar escalonadamente com juros diferenciados para que o Estado possa continuar crescendo, desenvolvendo, gerando empregos e cumprindo com todos seus deveres.

Vivemos um momento de alta polarização política no País. Qual caminho enxerga para a pacificação?

Sou de centro e acho que os extremos sempre atrapalham. A convergência é que vai fazer com que Minas Gerais e o País cresçam. Bravatas não fazem o País crescer, o que faz o País crescer, e todos nós queremos isso, é gerar empregos de qualidade, dar uma boa educação, uma boa saúde, mas isso só é possível com o diálogo, sem ele não venceremos. E enquanto esse diálogo amplia, temos a oportunidade de resolver as coisas e fazer com que todos ganhem, principalmente, o cidadão mais humilde.

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