Cédulas de R$ 200 tornaram-se raras

Papel-moeda com a estampa do lobo-guará representa 1,8% da quantia em circulação no País, mas 8,3% do valor circulante

8 de dezembro de 2023 às 0h24

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Notas contêm marcas em alto-relevo que podem ser sentidas pelo toque e diferenciadas por deficientes | Crédito: Adobe Stock

Há mais de três anos, a família de cédulas do real cresceu e ganhou a nota de R$ 200, com o lobo-guará estampado. Foi em setembro de 2020 que o Banco Central (BC) colocou a nova nota em circulação. À época, algumas das justificativas apresentadas foram o aumento do número de saques para formação de reserva, o chamado entesouramento, e do número de retiradas do auxílio emergencial, já que vivíamos o período de pandemia. Mas, passados três anos, a nota ainda não circula facilmente pelas mãos dos brasileiros.

Dados do Banco Central mostram que pouco mais de 134 milhões de cédulas de R$ 200 circulam pelo País. O número representa 30% das cédulas impressas na época, que foram de 450 milhões. O valor é maior que a nota de R$ 1 que saiu de circulação em dezembro de 2003. Mesmo sendo retirada há 20 anos, ainda hoje há mais notas de R$ 1 em circulação, cerca de 148 milhões delas pelo Brasil, do que de R$ 200.

Ainda como ponto de referência, as notas de R$ 50 e R$ 100, as que mais circulam pelo Brasil, somam mais 1,7 bilhão e 1,8 bilhão, respectivamente. Apesar do “sumiço” da nota do lobo-guará, em resposta a nossa reportagem, o Banco Central garantiu que ela continuará em circulação e não há previsão de que saia. 

A autoridade monetária informou ainda que a cédula de R$ 200 cumpre importante papel circulante. De acordo com a instituição, apesar de representar 1,8% da quantidade em circulação, compõe 8,3% do valor em circulação, correspondendo a R$ 26,8 bilhões, a terceira maior nesse quesito.

A reportagem procurou especialistas para comentar sobre a não circulação da nota. O professor de Economia do Ibmec, Luiz Carlos Gama, relembra o lançamento do Pix como um importante fator para o sumiço da cédula. Se hoje, as cerca de 318 milhões de cédulas (o equivalente a 70%) estão guardadas no BC, para ele, parte do motivo é a nova forma de pagamento lançada em 2021.

“O Pix caiu nas graças do povo com muita rapidez. As pessoas dificilmente estão usando cédulas. E ainda têm os cartões e até eles estão dando lugar para os celulares”, comenta.

Para Gama, houve um erro de análise política e, ao mesmo tempo, um período complexo para tomar decisões. “Os números mostram que não havia necessidade do volume que foi produzido desta nota. O erro maior foi não terem percebido que o Pix seria tão popular. Ao mesmo tempo, passávamos pela questão dos pagamentos dos auxílios, e era, realmente, uma decisão complicada num contexto complexo”, avalia. 

O professor das áreas de Economia e Finanças, da Fundação Dom Cabral, Eduardo Menicucci, além de elencar o pagamento de auxílio e o sucesso do Pix, ainda cita a inflação como outra justificativa. “Para mim, é um sinal claro que perdemos o poder de compra. Se você pegar, hoje, um táxi com uma nota de R$ 100, ele não te xinga mais. Pode até xingar, mas já não é um troco impossível”, exemplifica.

Ele lembra que ainda na época do auxílio emergencial, o governo migrou o pagamento para um cartão virtual da Caixa Econômica Federal e nem o auxílio, que era o motivo principal para a criação da nota, passou a precisar mais das cédulas.

Outra questão que Menicucci levanta é a segurança. “Ninguém quer sair com uma cédula de alto valor no bolso. E no comércio, já está começando a existir lugares que não aceitam mais cédulas. É um novo momento”, diz.

O professor, entretanto, não acredita na saída da nota de circulação. “É mais fácil a de R$ 2 sair do que a de R$ 200. Eu acredito que não sairá. Torço para não acontecer, mas daqui a 5 ou 10 anos, a nota terá menor valor. O processo inflacionário dificilmente deixará de existir. É a referência do dinheiro”, explica.

Custo de produção é de R$ 0,52

O professor de Economia do Ibmec pondera que, apesar dos erros, há vantagens na cédula de R$ 200. “Você fabrica, pelo mesmo preço, uma nota que tem maior valor, então, você tem uma senhoriagem aí que é maior”, comenta. Dados do Banco Central mostram que para se produzir uma cédula de R$ 20, que é do mesmo tamanho da de R$ 200, são necessários R$ 0,52.

O tamanho das notas também foi lembrado. A nota de R$ 200, pela velocidade com que precisou ser fabricada, foi feita na base da nota de R$ 20 e possui o mesmo tamanho. Existiu uma discussão a respeito dos deficientes visuais e até mesmo das máquinas de contagem e dos caixas eletrônicos, mas ambos os especialistas que conversamos não acreditam ter sido um problema para elas não entrarem mais em circulação. De acordo com o Banco Central, as cédulas contêm marcas em alto-relevo que podem ser sentidas pelo toque e diferenciadas pelos deficientes.

Gama lembra, por fim, que há discussões em diversos países para a extinção das notas grandes, em função do uso que o crime organizado faz delas. E uma solução seria que elas tivessem validades, porque obrigariam as novas notas a entrarem em circulação.

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