BETIM-MG 06.08.2019 FIAT CHRYSLER AUTOMOBILIES - DESIGN CENTER. Foto: Leo Lara/Studio Cerri

É certo que nada mais será como antes, passada a pandemia causada pelo novo coronavírus. Novos produtos terão surgido, antigos processos desaparecidos, empresas terão sucumbido e outras vão encontrar novos mercados e negócios.

De tudo, porém, nada terá sido mais modificado do que o ser humano. Se para melhor ou para pior ainda não sabemos. Como isso se mostrará no coletivo, sabemos ainda menos.

A certeza é de que as empresas precisarão lidar com esse novo indivíduo também no ambiente corporativo. Mais do que os consumidores, são os colaboradores – diretos ou terceirizados – os primeiros com quem a empresa se relaciona.

Esse novo empregado e essa nova empresa precisam se encontrar e relacionar para além do que prevê as legislações, sempre atrasadas em relação ao que acontece na sociedade.

E é nesse contexto que os profissionais de Recursos Humanos (RH) – já tão importantes – devem se tornar ainda mais estratégicos dentro das empresas.

A retomada econômica será um momento crítico, onde será indispensável ter os perfis certos para cada atividade laboral. A fragilidade da economia exigirá das empresas desempenho máximo para garantir a produtividade e, assim, se manterem competitivas em um mercado global que vai disputar cliente a cliente. Seriam, então, esses profissionais capazes de usar a tecnologia a serviço de empresas mais eficientes e seres humanos mais felizes? Esse é o “novo normal” do RH esperado por todos.

Crise traz rupturas e faz surgir novos modelos

Ao longo da última década, muito tem sido falado sobre um RH próximo à alta gestão das empresas, apoiador das decisões. Termos como “RH estratégico” e “RH 4.0” entraram para o vocabulário dos profissionais e estudiosos do assunto, mas sempre geraram desconfianças de que não ultrapassavam o discurso ou os manuais do “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”.

Em um país burocrático como o Brasil e com tantos solavancos econômicos e políticos nunca foi fácil para as diretorias e/ou departamentos de recursos humanos abandonarem as tarefas mais operacionais para se dedicar à estratégia das empresas.

Agora, impactados pela pandemia de Covid-19, segundo a presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos – Minas Gerais (ABRH-MG), Eliane Ramos, será a hora de rever processos, utilizar a tecnologia como aliada para atingir resultados e, especialmente, cuidar das pessoas.

“Todas as crises trazem rupturas e fazem surgir novos modelos e essa, especificamente, muito mais. Os hábitos digitais e o trabalho remoto estão acelerando alguns processos e nos fazendo pensar cada vez mais em formas de buscar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Todo esse contexto nos leva ao valor da adaptabilidade das pessoas e das empresas. Nunca tivemos tão forte a questão do propósito. As pessoas vão se tornar ainda mais protagonistas das suas carreiras e as empresas vão precisar entender isso”, afirma Eliane Ramos.

Na retomada das atividades pós-pandemia, por exemplo, as empresas poderão enfrentar problemas não só em encontrar talentos, mas também em retê-los. Além disso, não se sabe ainda qual o impacto que a crise atual terá nas pessoas e nas suas relações com o trabalho e a renda.

Tecnologia como aliada – Para o Product Manager na Connekt, Eduardo Hupfer, softwares de inteligência artificial podem ajudar a reduzir o trabalho operacional e repetitivo, como na triagem de candidatos, liberando tempo dos profissionais de RH para se preocupar com o aspecto humano das relações. A Connekt é uma plataforma inteligente de recrutamento digital.

“Enquanto existir ‘gente’ nas empresas, eles vão continuar precisando de outros seres humanos. O que vai mudar é a relação que o RH tem com a tecnologia. Historicamente, o RH foi assumindo funções operacionais do departamento de pessoal. Isso, com o uso da tecnologia, começou a diminuir, mas não era uma mudança de cultura, era apenas uma mudança ferramental. A digitalização imposta pela pandemia a todos os negócios vai ter seu impacto também no RH. A primeira mudança é mais instrumental e substituição de atividades operacionais. Isso vai liberar tempo para o RH ser mais estratégico. Isso acontece também em função das empresas estarem mais focadas no propósito. O RH mais focado na experiência do colaborador como ser humano do que só em conseguir um reembolso mais rápido”, explica Hupfer.

Para ele, essa mudança acontece a partir de uma base instrumental de automações, com a simples otimização dos processos. Depois virão as automações mais profundas propiciadas pelo uso da inteligência artificial (AI), que já está presente em algumas ferramentas aplicadas em alguns momentos da jornada como os softwares de recrutamento e seleção.

“Já temos algumas tecnologias capazes de ler a fala e a escrita natural que poderão nos fornecer dados e sugestões para melhorar as análises de desempenho, por exemplo. Hoje, contratamos pelo currículo e demitimos pelo comportamental. Alguma coisa aí não faz sentido. É muito difícil para o gestor fazer uma análise sem viés. A inteligência artificial pode nos ajudar muito nisso. Pode ser útil na aplicação de testes psicométricos, por exemplo, para avaliação de perfis para cargos específicos. Mas tudo isso deve acontecer dentro de uma perspectiva humana. Uma máquina não gera ética e vamos sempre precisar dos seres humanos para isso”, pontua o Product Manager na Connekt.

“Entramos na era do cuidado e do conhecimento. Vamos precisar de espaços mais seguros e receber pessoas mais receosas, ainda impactadas pela forma como a pandemia se espalhou. Vai ser muito importante para os profissionais de RH estudar, escutar, dar apoio e também mostrar que são vulneráveis. De outro lado é importante reforçar o papel das lideranças nesse contexto de incertezas e valorizar as habilidades emocionais de cada um baseando as ações da empresa em informações claras e uma comunicação ativa preocupada em fazer sinalizações positivas”, completa a presidente da ABRH-MG.

Inclusão de LGBTs na pauta da ArcelorMittal

Há algum tempo, os temas da igualdade e da equidade vêm se tornando comuns dentro das empresas. É certo que essas são discussões espinhosas dentro de uma sociedade ainda marcada pelo machismo e outras tantas formas de discriminação de minorias sociais como as questões de raça e orientação sexual, entre outras.

O contexto da pandemia, que poderia gerar uma sociedade mais dura e competitiva, marcada pelo empobrecimento das pessoas, empresas e nações, porém, não desanima empresários, profissionais de RH e ativistas que tomaram para si a missão de tornar as empresas e a sociedade lugares mais justos, responsáveis e respeitosos com todos os perfis humanos dentro e fora das companhias.

Na quarta-feira (24), a ArcelorMittal Brasil assinou a carta de adesão da empresa ao Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, entidade que reúne empresas comprometidas com a promoção da diversidade e a defesa dos direitos da comunidade LGBTI+ e dos Direitos Humanos.

De acordo com o diretor de Pessoas, Comunicação e Relações Institucionais da ArcelorMittal Brasil e Sponsor Global de Diversidade e Inclusão do Grupo, Adriani Damazio, ao aderir ao Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, a ArcelorMittal assume os “10 Compromissos” propostos pelo Fórum para a promoção dos direitos LGBTI+. Os três primeiros deles são o compromisso da presidência e dos executivos com o respeito e a promoção dos direitos LGBTI+; a promoção da igualdade de oportunidades e tratamento justo às pessoas LGBTI+; e a promoção de um ambiente respeitoso, seguro e saudável para as pessoas LGBTI+.

“Esse é um tema muito relevante, são questões humanitárias, de justiça e de negócios. A única coisa que sabemos sobre esse ‘novo normal’, esse futuro quase presente, é que ele é incerto. Se não temos condições de imaginar como vai ser, temos o dever de criar esse futuro. Temos uma grande chance de criar um mundo melhor, mais justo e feliz. Para criar esse futuro melhor, as empresas têm um papel muito forte, criando e ampliando esses programas”, explica Damazio.

A adesão acontecerá durante a Semana do Orgulho LGBTI+ e no mês em que se completa um ano do lançamento do Programa de Diversidade e Inclusão da ArcelorMittal. Esse programa foi responsável pela criação do grupo de afinidade LGBTI+ da ArcelorMittal, além dos grupos de Equidade de Gênero, de Diversidade Racial e de Pessoa com Deficiência.

“Nem mesmo nesse contexto da pandemia deixamos nossa proposta de lado. Isso é muito relevante para uma empresa como a Arcelor, que, além do tamanho, atua em um setor muito tradicional e com mão de obra majoritariamente masculina. Temos condições de influenciar a nossa cadeia produtiva e queremos levar nossa experiência o mais longe possível. Neste ponto destaco o papel da liderança. Ela precisa estar realmente imbuída desse propósito se a empresa quiser ter resultados efetivos”, destaca o Sponsor Global de Diversidade e Inclusão do Grupo,

Mulheres – Na “Roda Diálogo: CEOs – Resposta ao Covid -19 e a perspectiva de gênero Brasil”, promovida pela ONU Mulheres, no dia 22 de junho, gestores de algumas das maiores empresas brasileiras ou com atividades no Brasil, entre elas, Avon, Uber, Microsoft, Magazine Luiza, entre outras, discutiram a importância de ações que coloquem a mulher no centro dos cuidados em relação ao combate ao Covid-19 e que tenham efeitos futuros para a equidade de oportunidade entre os gêneros.

“Acreditamos no lucro através do propósito. Quando temos esse mote passamos a colocar o meio ambiente e a responsabilidade social no core do negócio. No ano passado, tivemos metade dos empreendedores mulheres, mas são empreendedoras de baixo impacto. As mulheres acessam apenas 2,7% do capital para empreendedorismo de impacto. Se você quer fazer inovação, melhorar a experiência do cliente, tem que trazer diversidade para dentro da empresa. Isso tem que ser feito intencionalmente. Se esperar que isso aconteça organicamente, vai demorar 100 anos. Temos que capacitar mais as mulheres e apoiar a empreendedora individual, a mulher informal. Fico muito triste de ainda ter que construir um business case para mostrar que mulher faz bem ao negócio. Isso é uma vergonha”, protestou a presidente da Microsoft Brasil, Tânia Cosentino.