Diálogo ainda é desafio no setor de mineração

17 de dezembro de 2021 às 0h29

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Segundo especialistas e representante das cidades, canais de comunicação precisam ir além do que é obrigatório por lei | Crédito: Divulgação/Vale

Uma relação só é boa de fato para todos os envolvidos quando há transparência, honestidade e confiança entre ambas as partes. Para isso, o diálogo é essencial. Essa máxima vale também para o setor de mineração. Não adianta as mineradoras apenas cumprirem o rito legal exigido para obter licenciamentos e iniciar operações. Para se ter uma atividade realmente dentro da agenda ESG e um futuro com impactos positivos e próximo ao dano zero, as companhias devem quebrar paradigmas e ir além do que é hoje obrigatório para se aproximar mais da população.

Segundo reconhecem as próprias mineradoras e afirmam especialistas da área, ampliar e tornar mais transparente o diálogo com as comunidades são atitudes fundamentais à manutenção e futuro da atividade. Este é o tema de mais uma reportagem do #JuntosPorMinas, projeto do DIÁRIO DO COMÉRCIO que propõe debater grandes questões do interesse de Minas Gerais. O projeto aborda desafios e gargalos que precisam ser transformados em oportunidades de crescimento, inclusão e transformação social no Estado.

E muitos são os desafios da mineração, não sendo possível tratar de todos os temas em uma única reportagem. Para tanto, os desafios estão divididos em quatro reportagens que serão publicadas semanalmente, a partir de hoje, no projeto. Nesta primeira parte, será abordada a necessidade de melhora no diálogo com a comunidade, que após as tragédias de Mariana e Brumadinho, precisa ser cada vez mais transparente.

É necessário fazer ‘trabalho de formiguinha’

“A mineração é extremamente necessária e vai continuar sendo no futuro. Ninguém sobrevive sem os confortos materiais que temos hoje. E praticamente tudo, desde o insumo agrícola, os fogões de nossas casas ou os nossos smartfones dependem dos recursos minerais. Então, não adianta discursos extremistas que demonizam, rejeitam e pedem o fim da atividade, baseados nas tragédias de Mariana e Brumadinho. Todos precisamos da mineração. Mas a conscientização sobre isso e, principalmente, sobre a forma em que a atividade é realizada, precisa dar-se de forma mais ampla e transparente para todos os entes envolvidos”.

A fala acima é do mestre em geologia econômica, doutor em engenharia dos materiais e pós-doutor em cristaloquímica, José Maria Leal, e demonstra que melhorar o diálogo é um dos grandes desafios para o setor minerário implantar de fato a agenda ESG. Após as tragédias de Mariana e Brumadinho, segundo ele, é preciso mais do que é normalmente feito para resgatar a confiança de todos os entes envolvidos no processo minerário.

“Muitas vezes, a comunidade é apenas comunicada sobre a presença da mineradora e talvez sobre os empregos e benefícios econômicos que serão gerados. Não são informadas da forma como deveria, sobre possíveis danos. O debate não é amplo, não chega a todos. Grande parte das empresas só faz as consultas públicas obrigatórias por lei, que são pouco eficientes. Há grandes falhas nessa comunicação. E mesmo nossa legislação sendo evoluída, deveria haver uma exigência e fiscalização ainda maiores nessa relação também, pois é uma concessão”, afirmou.

Para Leal, que é professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, o primeiro passo para melhorar a eficiência no diálogo é a transparência na conversa face a face, falando a linguagem das comunidades com honestidade.

“Vejo isso acontecendo com um trabalho de formiguinha mesmo nas comunidades, com as mineradoras, universidades e poder público trabalhando juntos, chegando realmente a todos, conscientizando incansavelmente um por um sobre os prós e os contras em relação à atividade. Mais sabendo ouvir do que falar, para entender a realidade das pessoas, tendo uma atitude positiva sobre o que elas esperam, sem impor projetos e intervenções de cima para baixo”.

O diálogo precário com a comunidade também é apontado por Nathan Ribeiro, representante de moradores na região da Serra da Moeda, onde mudanças em um projeto já em operação estão sendo discutidas.

“O que vemos na prática são mineradoras ouvindo meia dúzia de pessoas e se posicionando como se estivessem ouvindo todo mundo. Um debate pequeno, nada democrático. É preciso haver comunicação ampla e transparente não só dos benefícios das atividades, mas também dos danos. E isso tem que chegar a todos, todos mesmo. Vai dar mais trabalho para as empresas? Vai. Mas é assim que se constrói democraticamente um projeto que impacta na natureza e na vida de tanta gente”.

Segundo Ribeiro, essa conversa precisa ir além da distribuição de folder ou vídeos informativos e projetos sociais. “Muitas vezes, o material midiático só traz informações positivas sobre o projeto, sem transparência, o que acaba gerando mais desconfiança”.

E como parte das comunidades acaba trabalhando nas mineradoras, o diálogo também precisa ser transparente com os empregados. “O lucro não pode pisar na relação com os empregados e as comunidades. Dano zero não tem nunca. As tragédias de Mariana e Brumadinho mostraram bem isso. Os funcionários sabem da realidade dentro das mineradoras e são muitas vezes quem leva as informações às comunidades. Se são desvalorizados e desinformados, qual imagem a comunidade vai ter da empresa?”, observou o presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Extrativas do Estado de Minas Gerais (Ftiemg), José Maria Soares.

“É preciso ampliar esse diálogo transparente com os funcionários também, qualificando, valorizando. Essa também é uma forma de valorizar a comunidade”.

Municípios – O diálogo com os municípios também precisa ir além, na opinião do consultor de Relações Institucionais e Econômicas da Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais e do Brasil (Amig), Waldir Salvador.

“Em geral, boa parte das mineradoras já chega impondo transformações na cidade. Não debatem antes de implantar os projetos. Não escutam, por iniciativa própria, o povo ou as prefeituras sobre as particularidades e a dinâmica do município, e sobre como podem compensar positivamente danos que podem vir a provocar. Só fazem algum tipo de contato nas fases de licenciamento, por imposição da lei. E, em muitos casos, só dialogam enfatizando os ganhos econômicos, sem falar com transparência dos danos. É preciso ir muito além do que é obrigatório nesse diálogo”, observou.

Salvador afirmou que muitas empresas só passam a ser conhecidas de fato pela população das cidades minerárias quando começam a operar.

“Até mesmo com as prefeituras não há esse diálogo claro e constante. As mineradoras pensam que para o município basta ter geração de empregos e o repasse da Cfem (Compensação Financeira pela Exploração Mineral), na qual, diga-se de passagem, há muita sonegação. Não é bem assim. A partir do momento em que se pensa o projeto na cidade, tem que começar a pensar junto com as prefeituras e com o povo como será a realidade do município antes, durante e no fim do período de exploração mineral”, completou.

Após tragédia, comunicação é repensada

A mineradora Vale informou, por meio de nota, que a tragédia de Brumadinho levou a empresa a repensar seu modelo de atuação junto à comunidade. A Vale garante que está em “um processo de transformação cultural, colocando pessoas e segurança no centro de suas decisões estratégicas”, mas não detalhou as mudanças. A companhia também informou que “passou a intensificar o desenvolvimento de práticas ESG como uma forma de apoiar essa mudança”.

A Samarco também reconheceu que, após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, foi necessário melhorar o diálogo com as comunidades. “Ao longo desses anos, quando se preparava para voltar a operar, a Samarco percebeu o quanto é fundamental desenvolver programas em parceria com os diversos atores e instituições locais (prefeituras, câmaras, entidades do setor, associações comunitárias), que, de forma colaborativa e integrando todas essas inteligências e competências, construam e implementem soluções sustentáveis para os problemas comuns nas localidades, gerando valor para a sociedade”, disse a empresa, por meio de nota.

Com a retomada das operações, a Samarco informou que “consolidou uma série de ações, dentre elas, programas de educação ambiental, engajamento de stakeholders, fortalecimento de ecossistemas, apoio à diversificação econômica local e monitoramento de indicadores socioeconômicos dos municípios”. Ainda conforme a nota, a empresa também criou uma Central de Relacionamento, que funciona sete dias da semana, 24 horas por dia.

A companhia informou ainda que, apoiada na agenda ESG, lançou em julho sua estratégia de sustentabilidade e declaração de compromisso, “alicerçada na governança e cultura organizacional, estruturada ainda em três pilares: relações sociais, meio ambiente e segurança e inovação”.

Empresas reconhecem que é preciso melhorar interlocução

As mineradoras reconhecem que o diálogo e a relação de confiança com as comunidades são um ponto nevrálgico que precisa ser melhorado, mas ainda não apontam claramente como essa transformação vem sendo realizada. De toda forma, é consenso no setor que essa mudança é imposta  na adoção da agenda ESG por parte das empresas.

“A melhoria no diálogo com as pessoas é algo realmente essencial, não só porque a mineração já tinha dificuldade em ter perfeito entendimento em alguns locais. Mas, depois de Mariana e Brumadinho, isso ficou exacerbado”, reconheceu o diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Flávio Ottoni Penido, que representa 127 companhias.

Segundo ele, para que o setor minerário implante de fato a agenda ESG, contida na carta-compromisso de 2019 do Ibram, é preciso criar mecanismos para se avançar nesses diálogos. “Nós temos  muitos resultados positivos de ações junto às comunidades em várias partes do País que podem servir de modelo de aproximação, com a transparência sempre pautando essa relação”.

E o fortalecimento desse diálogo, segundo Penido, significará valorização de mercado às mineradoras. “Hoje, a mineradora que não se pautar por essa agenda ESG está fadada a desaparecer. Ninguém vai financiar e investir em um projeto rejeitado pela sociedade no entorno, no qual não há responsabilidades ambiental, social e governança”.

O assessor especial do Sindicato das Indústrias Extrativas de Minas Gerais (Sindiextra-MG), Cristiano Parreiras também reconhece que, embora os programas de relacionamento com as comunidades estejam com uma pauta consolidada ao longo dos anos, há nitidamente um gap a ser preenchido.

“Vejo boas iniciativas de todas as empresas do setor, fruto do próprio processo de licenciamento ambiental, no sentido de estreitar o relacionamento com as comunidades. Mas existe ainda um gap que só será resolvido com mais transparência e proximidade, desenvolvendo uma escuta mais ativa. E acredito que a adoção da agenda ESG possa contribuir no sentido de estimular ainda mais essa aproximação”.

Diálogo antecipado – Algumas mineradoras já vêm buscando essa escuta ativa desde a fase das pesquisas, quando não é obrigatória, antecipando-se às exigências da lei. Esse é o caso do Bloco 8, projeto da Sul Americana de Metais (SAM), no Norte de Minas, atualmente em processo de licenciamento.

“A gente vem desde 2010 nesse diálogo, realizando junto às comunidades ações de responsabilidade social, apoio à cultura, educação e esporte. Nós nos antecipamos às exigências da lei. A SAM mantém uma equipe na região para relacionamento com as comunidades há 11anos, que fica constantemente tirando dúvidas e levando informações sobre o empreendimento para as pessoas e prefeituras. Essa equipe também busca informações para agregarmos. Realizamos constantemente reuniões e seminários sobre o projeto justamente para manter esse fluxo de comunicação constante, e fazer com que as informações cheguem ao maior número de pessoas possível”, informou a diretora de Relacionamento e Meio Ambiente da SAM, Gizelle Tocchetto.

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