“É preciso um projeto de Estado, não de governos, para a diversificação econômica”

Planejamento amplo, com continuidade de políticas, é essencial, segundo Clélio Campolina Diniz

30 de setembro de 2022 às 0h29

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Clélio Campolina Diniz é professor emérito da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG | Crédito: Divulgação

A diversificação econômica é um desafio que atravessa séculos em Minas Gerais. Reduzir a dependência da exportação de recursos minerais é missão posta a cada novo governo. Um dos grandes pensadores da economia nacional e regional, Clélio Campolina Diniz afirma que falta priorizar a diversificação na agenda do poder público em todas as esferas. E isso inclui estímulo à inovação tecnológica.

Com uma agenda que não para aos 80 anos de idade, o doutor em Ciências Econômicas, autor de inúmeros livros e artigos na área e professor emérito da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG encontrou um tempinho para falar com a reportagem do DIÁRIO DO COMÉRCIO. Na entrevista a seguir, ele conta como estratégias erradas do passado, sobretudo no final da década de 1970 e ao longo da década de 1980, reduziram a representatividade de Minas na economia brasileira e se refletem na atualidade.

“O governo Israel Pinheiro preparou a mudança voltada à diversificação, e o governo Rondon Pacheco começou a implantar a indústria de bens de capital. E várias outras iniciativas foram tomadas nesse sentido (…) Mas, infelizmente, esse projeto foi abandonado no meio do caminho (…) De lá pra cá, não houve mais um planejamento amplo, o que é essencial para se priorizar a diversificação”, observou.

Segundo Campolina, esse grande projeto “precisa ser de Estado e não de governos”, com continuidade. Deve dar condições, por meio de infraestrutura, políticas e financiamentos, para que a iniciativa privada invista nessa diversidade econômica. E a inovação é ponto chave dessa busca.

A entrevista a seguir com o ex-ministro da Ciência e Tecnologia e também ex-reitor da UFMG faz parte do #JuntosPorMinas. O projeto do DIÁRIO DO COMÉRCIO aborda desafios e gargalos que podem ser transformados em oportunidades de desenvolvimento e inclusão no Estado. Confira.

Desde o fim do ciclo do ouro, a diversificação econômica é apontada como essencial em Minas Gerais. Considerando a atualidade, o senhor acha que o Estado tem de fato avançado nesse sentido? Por quê?

Não. Ainda é um desafio. Voltando na história mais recente, a questão da diversificação está presente em Minas mais enfaticamente a partir do diagnóstico da economia mineira, da década de 1960, que colocou isso de fato na agenda. O governo Israel Pinheiro preparou a mudança voltada à diversificação, e o governo Rondon Pacheco começou a implantar a indústria de bens de capital. E várias outras iniciativas foram tomadas nesse sentido – Usiminas Metal Mecânica, Acesita, Belgo Bekaert, Kroup e etc. Mais tarde, a Fiat veio também. Houve grande expansão da agricultura do Cerrado até o início dos anos de 1970 e um grande projeto de irrigação do Norte de Minas. Então, havia de fato um projeto mais amplo priorizando a diversificação econômica. Mas, infelizmente, esse projeto foi abandonado no meio do caminho. O governo de Aureliano Chaves fez uma opção enfática pela Açominas e pela Ferrovia do Aço. O caso é que já tinha várias  indústrias de aço carbono no Estado e o projeto da Açominas não faria a diferença, como de fato não fez. E a Ferrovia do Aço foi um projeto mal-sucedido, que sequer foi concluído. Esses dois projetos foram um custo enorme financeiro e político, um erro de estratégia. Nos anos de 1980, com País já mergulhado na crise, não houve mais investimento e nem vontade política para planejar e retomar a diversificação e ainda houve um desmonte do que havia sido pensado, um verdadeiro desarranjo governamental. Um exemplo é o BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais), que deixou de ser um órgão de planejamento e passou a atuar mais como instituição financeira. E nos anos de 1990, com a rápida abertura econômica sem uma política de proteção à indústria nacional e a conturbada política cambial, ficou difícil de recuperar esse atraso. De lá para cá, não houve mais um planejamento amplo e de longo prazo, o que é essencial para se priorizar a diversificação.

O que precisa melhorar para compensar esse atraso?

O primeiro ponto é voltar a ter planejamento amplo, com uma agenda prioritária. Sem planejamento não tem jeito de fazer diversificação. O segundo passo é mobilizar o empresariado para isso, porque uma boa parte do investimento quem faz é o setor privado. O governo pode dar suporte de infraestrutura e financiamento, mas a atividade produtiva é predominantemente atividade privada. Nesse sentido, é preciso também uma ampla política industrial. As economias do mundo inteiro estão diversificando, mas a indústria continua sendo o carro-chefe de todas, porque ela é indutora do progresso não só para a área industrial como para os demais setores da atividade econômica. A agricultura, os serviços, a internet, todos esses setores precisam da indústria. Então, é preciso focar a indústria nesse processo. E o terceiro ponto é valorizar ciência e tecnologia.

E por falar em ciência e tecnologia, qual leitura o senhor faz da inovação em Minas Gerais?

Minas é um retrato do Brasil. O Estado tem um sistema universitário avançado. A UFMG, por exemplo, é a melhor universidade federal do País, com pós-graduações de excelente qualidade. Essa instituição tem a maior relação de cursos com notas de excelência na avaliação nacional que qualquer outra universidade do Brasil. Temos ainda as universidades de Viçosa e Lavras, referências, entre outras áreas, para o desenvolvimento da agricultura do Cerrado. Temos também Ouro Preto, referência na área de minas e metalurgia, além de outras como Juiz de Fora, Uberlândia, só para citar algumas. Ou seja, Minas tem um sistema científico avançado. Porém, somos exportadores de pessoal qualificado. O grande desafio é reter esse pessoal, fazer com que esse conhecimento fique e gere desenvolvimento aqui. Para se ter uma ideia, a UFMG é a segunda universidade brasileira que mais coloca engenheiros na Embraer. Só perde para o ITA, que foi criado para isso. Minas tem grandes e boas referências em inteligência artificial. Mas nós não temos uma base empresarial capaz de absorver essa mão de obra e esse conhecimento no Estado. Para haver esse entrosamento, o empresariado precisa ser ainda mais mobilizado por um grande projeto de desenvolvimento. Em paralelo, é preciso trazer empresas de fora também, mas com a condicionante de internalizar pesquisa. Não podem só fazer montagem.

Houve avanços de inovação no Estado?

A criação da Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) foi talvez um dos maiores avanços das últimas décadas, mas os recursos ainda são muito limitados. É preciso haver condicionantes para a internalização do conhecimento e maior orientação. É lógico que uma parte da pesquisa é livre, e é assim no mundo todo. É preciso dar liberdade ao pesquisador para buscar o novo, o desconhecido. Mas, ao mesmo tempo, é preciso haver programas direcionados às prioridades que o Estado tenha. A ciência é universal, mas algumas questões são locais, conforme as necessidades de cada lugar. Por isso, volto a insistir: é preciso mais planejamento considerando as necessidades locais, de curto e longo prazos. E planejamento implica estudar, definir prioridades, definir os meios, fazer a implementação e o acompanhamento. É um processo que tem que ter continuidade, ir reavaliando e fazendo adaptações. É um caminho difícil, pois estamos competindo com o mundo. Minas precisa voltar a planejar e isso precisa ser um trabalho sério, continuado. Não apenas discurso político.

E como a inovação caminha no Brasil?

O Brasil vive hoje uma dicotomia. A produção científica brasileira avançou da 17a posição no ranking mundial para a 13a, numa comparação entre os 25 países que mais produzem conhecimento científico. O primeiro indicador para esse ranking é o número de artigos publicados em inglês. Então, nós temos uma base científica significativa. Mas não temos empresas nacionais absorvendo esse conhecimento. Grande parte do nosso setor produtivo são filiais de empresas estrangeiras, que não internalizam pesquisa. Não foi feito uma condicionante para isso. Para se investir na China, por exemplo, há a exigência de o capital estrangeiro internalizar a pesquisa. Aqui não tem isso, não há essa condicionante. E para se resolver essa questão, não basta apenas legislação. É preciso ter uma política industrial que consiga operacionalizar isso, com financiamentos e até reservas de mercado, entre outras medidas.

Não houve avanços nas últimas décadas?

O Brasil avançou cientificamente, mas não avançou sob o ponto de vista da inovação tecnológica, que é a ponte entre a ciência e a aplicação da ciência no sistema empresarial. Quando fui ministro da Ciência e Tecnologia (2014), fizemos um programa chamado “Plataforma de Conhecimento”. Foi assinado um decreto, foi aprovado, mas não foi implementado. O objetivo era tentar fazer a articulação das instituições produtoras de ciência com as empresas e fazer políticas públicas com financiamentos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), da Fnep (Financiadora de Estudos e Projetos) e dos demais bancos de desenvolvimento, orientados para os projetos selecionados. É assim o que o mundo inteiro faz. É assim que os Estados Unidos estão fazendo, que a China fez e faz de forma muito eficiente. É articular ciência com base empresarial e política pública. Ou seja, a ciência dá conhecimento, a empresa operacionaliza e o governo financia e toma outras medidas de políticas públicas, como estímulo à exportação, resolver problemas de mercado interno e de infraestrutura. É esse casamento a três que ainda não se concretizou no Brasil.

Qual leitura o senhor faz de Minas Gerais no cenário nacional?

Minas hoje é periferia do Brasil sob o ponto de vista do desenvolvimento econômico. Vem de uma industrialização tardia, perdendo espaço e representatividade ao longo das últimas décadas. A fronteira mais moderna da indústria está hoje nos estados do Sul do País. Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina estão cada vez mais integrados com São Paulo, que é a economia mais moderna. Santa Catarina é hoje o lugar mais inovador do Brasil. E considerando o Oeste, também há um crescimento industrial expressivo em Goiás, por exemplo. Enquanto isso, Minas estagnou. Só integra com São Paulo no que se refere a ser fornecedor de insumos e alimentos. Então, as fronteiras industriais e tecnológicas estão indo para outras regiões. E o Estado continua grande exportador de minério, o carro-chefe da nossa economia. Não sou contra a exportação de minerais. Tem que aproveitar os recursos naturais, sim. Mas tem que priorizar a diversificação.

Entra governo, sai governo e o desenvolvimento econômico de regiões como o Norte de Minas e vales do Jequitinhonha e Mucuri continuam sendo desafios. Onde os gestores estariam errando?

O mundo inteiro tem regiões desenvolvidas e subdesenvolvidas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o North Dakota é uma região atrasada em relação a muitas outras regiões daquele país. Então, é consenso mundial a necessidade de políticas sociais que deem suporte à população nessas regiões menos desenvolvidas. É preciso ter um sistema tributário progressivo para ter recursos e apoiar essas regiões no que se refere a esse bem estar social. Política regional no mundo inteiro implica transferência de recursos. A União Europeia faz isso e a China está fazendo atualmente a maior política regional de incorporação do Oeste do país, que é uma região estagnada. Posto isso, mais uma vez vou insistir, é necessário planejamento e política de Estado, não de governos. Identificar vocações dessas regiões e dar suporte contínuo ao desenvolvimento não se faz da noite para o dia. Montes Claros, por exemplo, que começou como um centro industrial importante, aproveitando os incentivos com a entrada na Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), desindustrializou-se ao longo do tempo e se transformou em um centro educacional e de serviços do Norte de Minas. É importante? É, mas é preciso diversificar para desenvolver as cidades da região. O projeto Jaíba, da década de 1960, que foi o grande projeto de irrigação do Norte de Minas, está praticamente abandonado. Então, sem planejamento e continuidade, não se muda essas regiões. A questão da energia solar, que é hoje uma oportunidade, precisa ser pensada sob o ponto de vista social, não apenas financeiro.

Lítio, nióbio e energia solar são três importantes potencialidades em crescimento hoje em Minas. Como o senhor vê essas atividades no desenvolvimento do Estado?

Podem significar avanços, se houver planejamento adequado, de longo prazo, para que o Estado ganhe sob os pontos de vista econômico, social e ambiental. Não adianta fazer política beneficiando só um lado. A agenda ESG, que não tem volta, tem apontado caminhos.

E que leitura o senhor faz da agenda ESG?

É uma consciência que o mundo está tomando de que o desenvolvimento econômico tem que ter benefícios mais amplos que o financeiro. É nítido no Brasil, o aumento do nível das desigualdades sociais, da pobreza urbana e uma segmentação social e territorial. As condições das periferias das grandes metrópoles são dramáticas. A RMBH é um caso típico disso. A agenda ESG traz às empresas consciência sobre esses problemas, acompanhada da consciência ambiental e o papel das companhias em tudo. O mundo inteiro está fazendo isso. Veio para ficar.

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