Energia solar deve atrair R$ 11,1 bi em obras

Leilão de transmissão previsto para junho foi revisado e contemplará mais projetos no Norte de MG, diz Aneel

4 de fevereiro de 2022 às 0h29

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Norte de MG é naturalmente favorecido pelos raios solares | Crédito: Cemig /Divulgação
#juntosporminas

Em busca de ampliar e diversificar a matriz energética, Minas Gerais tem apostado pesado nas usinas solares, principalmente no Norte do Estado, para a geração de energia elétrica. O potencial fotovoltaico da região tem atraído empresas de várias partes do mundo para a instalação de grandes empreendimentos, o que pode transformar a economia de uma das regiões mais pobres de Minas.

Mas, para que esse segmento de energia renovável continue crescendo em participação na matriz, também são necessários aportes bilionários em infraestrutura de linhas de transmissão e em subestações de distribuição. A boa notícia é que há previsão de recursos nesse sentido.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) pretende realizar em junho um leilão que tem, entre os lotes a serem concedidos à iniciativa privada, 3.543 km de linhas de transmissão em Minas Gerais, boa parte no Norte do Estado. Isso ocorre exatamente para conectar as grandes usinas solares de geração centralizada ao Sistema Integrado Nacional (SIN). Inicialmente, estavam previstos investimentos de R$ 7,5 bilhões, mas diante das expectativas de crescimento da geração solar na região, serão antecipadas obras previstas para 2031, e o valor dos investimentos privados nesse lote mineiro deve chegar a R$ 11,1 bilhões, segundo informações repassadas ontem pela agência nacional à reportagem.

Em outra ponta, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) também planeja ampliar o número de subestações na região, como parte do plano de investimentos de R$ 22,5 bilhões, anunciado no ano passado, para conectar as micro e mini usinas à sua rede.

Enquanto isso, prefeituras e governo do Estado se empenham para continuar atraindo empreendimentos de geração solar. Várias empresas já se instalaram e há protocolos de intenção para a construção de grandes parques solares. As pequenas usinas também têm sido estimuladas, principalmente pelos municípios, que enxergam na energia solar a grande “oportunidade da vida” para o desenvolvimento permanente do Norte de Minas.

Nesse contexto, a participação da energia solar na matriz energética mineira é o assunto desta edição do #JuntosPorMinas. O projeto do DIÁRIO DO COMÉRCIO aborda temas que representam desafios e gargalos para o Estado que podem ser transformados em oportunidades de crescimento econômico e inclusão social. O tema será dividido em duas reportagens, que serão publicadas hoje e na próxima sexta-feira. Confira a seguir.

Solução para infraestrutura está a caminho

Em Minas Gerais, os projetos que se mostram mais viáveis na pauta da diversificação da matriz energética são de fato as usinas solares no Norte do Estado. Há empreendimentos no Noroeste e no Triângulo Mineiro, mas é o Norte que se destaca devido à sua condição natural mais favorável em relação aos raios solares. Com a implantação em andamento de grandes empreendimentos e também com as usinas já instaladas, é urgente, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a melhora na infraestrutura de transmissão. Tanto que os valores previstos para o leilão de transmissão a ser realizado em junho pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) foram revisados, com a previsão de investimentos passando de R$ 7,5 bilhões em agosto do ano passado para R$ 11,11 bilhões agora.

Em novembro, o Estado alcançou a marca histórica de 2 gigawatts (GW) em operação de fonte solar nas regiões produtoras, somando geração centralizada e distribuída. Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), já são mais de 1,5 GW de potência instalada em geração distribuída, colocando Minas na liderança brasileira com 17,5% da produção nacional.

Como a previsão é que se amplie a geração solar nos próximos anos, com a concretização dos projetos de instalação de grandes usinas em andamento, o governo federal resolveu antecipar obras de 2031 neste leilão, que contemplaria inicialmente apenas intervenções para 2026.

“Já durante a fase de instrução do processo licitatório do 1° leilão de transmissão de 2022, previsto para o mês de junho, observou-se a oportunidade de antecipar algumas obras de transmissão previstas mais pra frente, tendo em vista a concretização de novos empreendimentos na região. Assim, foi documentado no POTEE 2021 (Plano de Outorgas de Transmissão de Energia Elétrica) as obras consolidadas para a licitação em 2022, contemplando novos investimentos para o estado de Minas Gerais”, informou ontem a Aneel, por meio de nota enviada à reportagem.

Nos lotes do leilão de junho, serão concedidos 4.810 km de linhas de transmissão e 6.030 MVA de potência a ser instalada em vários Estados. A previsão inicial de investimento era de R$ 8 bilhões, mas com a inclusão das novas obras em Minas, o valor pode superar os R$ 13 bilhões.

O maior volume de obras previstas no leilão atenderá à expansão da capacidade de transmissão da região Norte do Estado, onde estão previstos, inicialmente, 3.543 km de linhas de transmissão e 3.750 MVA em capacidade de transformação nas subestações.

“Houve uma articulação do Governo de Minas junto à União para a sensibilização sobre a necessidade de concessão dessa infraestrutura de transmissão. Estamos otimistas quanto ao crescimento da geração solar em Minas”, disse o diretor de Energia da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede), Pedro Sena.

Cemig – No que se refere às micro e mini sinas solares, conectadas à rede da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), a estatal informou que planeja melhorias através do Mais Energia, programa lançado no segundo semestre do ano passado, dentro do plano de investimentos de R$ 22,5 bilhões entre 2023 e 2027.

O Mais Energia prevê investimentos de R$ 5 bilhões em 200 novas subestações em todo o Estado. Dessas,15 subestações serão no Norte de Minas e possibilitarão maior rapidez na conexão de micro e mini usinas solares à rede.

Diversificar matriz é fundamental, dizem especialistas

Há 60 anos, pensava-se, erroneamente, serem infinitos os recursos hídricos em Minas Gerais e que nunca haveria risco de falta de energia no País, já que a população na época era praticamente um terço da atual. Hoje, após os apagões de 2001 e as recentes crises hídricas, sabe-se que todo o potencial hidrelétrico do Estado, que responde por mais de 80% da matriz energética, já está totalmente explorado. Se o consumo for realmente ampliado, como estimam governos tanto com o aumento populacional quanto com crescimento econômico, e tudo isso combinado com fatores climáticos inesperados, pode faltar energia. Por isso, diversificar e gerar mais, com complementaridade entre as fontes, é preciso.

“A grande verdade é que não temos mais rios para hidrelétricas de grande porte e nem mesmo para as PCHs (pequenas centrais hidrelétricas) em Minas. Além disso, há a disputa pela água com outros segmentos, como por exemplo, o aumento da captação para o consumo humano com a nova lei do saneamento. Isso sem contar a disputa com outros setores econômicos, como a mineração”, avaliou o doutor em economia e professor do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), da UFMG, Ricardo Machado Ruiz.

Para Ruiz, só não houve problemas de apagão entre 2015 e hoje porque o País não registrou expressivos crescimentos econômicos. Ele também lembra outros fatores inesperados como, por exemplo, o rompimento da barragem de rejeitos de minério em Mariana, que atingiu a usina Risoleta Neves (Candonga), parada até hoje, deixando uma extensa região desabastecida de energia. “Não havia alternativa rápida para que os usuários dali fossem abastecidos. Então, é preciso ampliar e diversificar a matriz para o maior número de fontes possível, de forma complementar, com tecnologia e eficiência”, acrescentou.

Quando há várias alternativas de fonte energética renovável e ocorre um problema como a recente escassez hídrica, pode-se, rapidamente, substituir uma fonte em falta por outra no sistema brasileiro, que é todo interligado, sem prejudicar usuários. “Devido à forte dependência de geração hídrica, sendo para o País de aproximadamente 65% e para Minas, ao redor de 80%, se tivéssemos uma matriz mais diversificada, não dependeríamos tanto da sazonalidade de chuvas”, observou o doutor em ciências técnicas e nucleares, Carlos Eduardo Velasquez Cabrera, professor da área de energia do Departamento de Engenharia Nuclear da UFMG.

Mas, para ele, não adianta diversificar apenas. “É preciso ações governamentais para melhorar a eficiência energética em todos os setores”.

Race To zero – Além de todos os fatores mencionados acima, Minas Gerais foi o primeiro Estado brasileiro e o primeiro na América Latina a ser signatário do “Race To Zero”, campanha global com objetivo de alcançar emissões líquidas zero de gases de efeito estufa até 2050.

“A diversificação da matriz é fundamental para esse comprometimento com o desenvolvimento econômico sustentável. Também há uma discussão muito grande no setor e na literatura se a fonte hídrica, nossa principal fonte, é realmente renovável, pois, para se construir hidrelétricas ou PCHs, é preciso desmatar. Além de tudo, quanto mais se diversifica, maior a probabilidade de gerar energia de forma mais barata, o que gera impacto no bolso do consumidor, da indústria e do comércio”, destacou o diretor de Energia da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede), Pedro Sena.

Dá tempo de se preparar para carros elétricos

A tão esperada popularização de carros elétricos e híbridos, que reduziria a emissão de poluentes, também impactaria na demanda futura por energia elétrica, apontando para a necessidade de gerar mais  e de forma diversificada. Em relação a esse ponto, Ricardo Ruiz, do Cedeplar da UFMG, diz que, devido à situação socioeconômica do País, ainda há  tempo para se estruturar a matriz  para essa demanda.

“Como um carro elétrico ainda é extremamente caro, acho que a substituição será muito mais lenta no Brasil pobre e empobrecido, comparativamente ao que se observa em países desenvolvidos.Teremos tempo extra para gerar mais energia elétrica renovável, pois se for de termelétricas e hidrelétricas, teremos energia cara e ou correndo risco de novas crises hídricas. Além disso, não produziremos o impacto positivo no meio ambiente que se espera”.

O professor Carlos Cabrera, do departamento de Energia Nuclear da UFMG, concorda. “Nas previsões oficiais, a inserção de carros elétricos era prognosticada de ocupar aproximadamente 1% do total da frota nacional até 2026. Atualmente, não há uma política nacional para o aumento de carros elétricos e, sim, para o uso mais eficiente de biocombustíveis”, afirmou. (SC)

Custo energético ainda é muito alto

Do ponto de vista da indústria mineira, a diversificação da matriz energética precisa caminhar para uma maior oferta de energia, barateando o insumo para tornar o setor mais competitivo, já que a energia representa importante fatia no custo de produção em vários segmentos. “Alguns setores são mais afetados. É o caso de materiais plásticos, ferroligas, alumínio, têxteis, químicos, por exemplo”, informou a gerente de Energia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Tânia Mara Santos.

“Temos uma matriz limpa, renovável e com fontes altamente competitivas, mas com preços elevados ao consumidor”. Segundo ela, “é urgente a implantação efetiva do programa da resposta pela demanda, mecanismo que possibilita a redução da carga para adequação aos períodos de maior demanda no sistema, diminuindo o despacho de térmicas mais caras”. A aprovação do PL 414/21, conhecido como o novo marco regulatório do setor elétrico, em tramitação na Câmara dos Deputados, será importante nesse sentido.

Tânia Mara enfatizou ainda que a eficiência energética é um ponto bastante estimulado no setor. “A indústria incentiva eficiência em seus processos produtivos, tem buscado investimentos na própria geração de energia de fontes limpas e sustentáveis e cogeração qualificada”.

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