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Escassez hídrica pode inviabilizar indústrias com o custo de energia

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Crédito: Pexels

A escassez hídrica, que reduz fortemente a geração das hidrelétricas e impõe a utilização das termoelétricas, muito mais caras, aumenta substancialmente a conta de energia de consumidores pessoas físicas e também da indústria, reduzindo drasticamente a competitividade do setor.

Por isso, iniciativas como produzir a própria energia e a adesão ao programa de redução voluntária são defendidas por especialistas. Com a medida, o governo federal espera reduzir em 1,41% a demanda por energia elétrica no País, a um custo médio de R$ 339 milhões por mês, sendo R$ 1,3 bilhão no período de quatro meses.

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Na verdade, mais do que um insumo essencial, a energia é estratégica para o crescimento econômico e estrutural do País. A indústria brasileira poderia estar em outro patamar caso a energia fosse tratada da maneira correta.

De acordo com a bandeira tarifária acionada em razão da escassez hídrica, por sua vez, o consumidor domiciliar vai pagar mais caro pela energia que utiliza, pelo menos até abril de 2022. Entre dezembro de 2020 e agosto de 2021, a bandeira tarifária saiu do verde, em que não há cobrança adicional, e avançou até a cor vermelha no patamar dois, a mais cara do sistema. E agora, em setembro, o consumidor foi condenado a subir mais um degrau na escalada dos preços da energia pelo menos até abril de 2022.

Confira tudo isso e muito mais em mais uma reportagem com o tema “Água” do projeto #JuntosPorMinas, do DIÁRIO DO COMÉRCIO. Por meio do #JuntosPorMinas, o DC propõe discutir grandes temas do interesse de Minas Gerais. Tratam-se de desafios e gargalos que precisam ser transformados em oportunidades de crescimento, inclusão e transformação social.

Algumas atividades podem ser inviabilizadas

Mais do que onerar a produção de energia e fazer a indústria perder competitividade, a maior crise hídrica já registrada no País, em quase um século, pode também inviabilizar diversas atividades industriais que têm maior dependência do insumo energia. Setores importantes e estratégicos podem ser afetados, como ferroligas, alumínio e gases, onde esse custo pode atingir 70% do valor final do produto. Em média, o custo da energia é de 20% do valor final do produto industrial.




A avaliação é da assessora de Energia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Tânia Santos. Como solução para as empresas, ela explica que, como o problema é a falta de condições para gerar energia hidrelétrica, a própria indústria pode passar a produzir a energia de que precisa.

“Além de economizar, as empresas podem fornecer sobras eventuais para as concessionárias enfrentarem a crise. As concessionárias retribuem a energia recebida, da chamada geração distribuída, concedendo créditos na fatura de quem opta pela autoprodução”, afirma a especialista.

“Em qualquer situação, é preciso união e participação de todos para manter a produtividade e enfrentar a crise hídrica. Com uma redução compulsória no consumo de energia e a instabilidade no fornecimento, a tendência inicial é a indústria repassar esse custo extra de energia, que já está nas alturas, ao restante da cadeia, encarecendo ainda mais a produção”, disse Tânia.

A assessora da Fiemg explica que, numa situação mais severa de escassez hídrica, a indústria pode ser obrigada a paralisar suas atividades, consequentemente reduzindo a arrecadação, fechando postos de trabalho da cadeia produtiva, causando a falta de produtos para o consumo interno. Uma crise socioeconômica sem precedentes e nem perspectivas para a retomada da economia.

“O uso consciente da energia e da água, a adoção de medidas de economia por meio da eficiência energética e a adesão ao programa de Redução Voluntária da Demanda de Energia, criado pelo Ministério de Minas e Energia, e também a mudança dos turnos de produção para horários em que o sistema está menos sobrecarregado são medidas eficientes nesse momento. Além disso, o programa prevê bonificações para o industrial que aderir ao programa”, afirma.

Para a especialista, muito mais do que um insumo essencial, a energia passou a ser estratégica para o crescimento econômico, ambiental e estrutural de qualquer país. Ela diz que o primeiro passo para que o Brasil use o seu potencial energético para um crescimento sustentável é a desoneração do insumo energia.




“A indústria brasileira poderia estar em outro patamar, caso a energia fosse tratada da maneira correta. O crescimento econômico e competitivo nos âmbitos interno e externo do Brasil, e de qualquer país, passa pela mudança do modelo energético”, afirma.

Redução voluntária – O Ministério de Minas e Energia espera reduzir em 1,41% a demanda por energia elétrica no País, a um custo médio de R$ 339 milhões por mês e R$ 1,3 bilhão no período de quatro meses. As empresas que optarem por participar do programa de redução voluntária da demanda deverão propor períodos nos quais se dispõem a economizar um mínimo de 5 MW de energia a cada hora, por intervalos de quatro a sete horas por dia. Em troca, essas empresas receberão compensação financeira pelo racionamento voluntário.

A ideia é deslocar o consumo de grandes consumidores, aliviando os horários de pico e colaborando, assim, para o barateamento da energia, sem a necessidade de ampliar ainda mais a eletricidade gerada por térmicas.

O programa também estende a bonificação pela redução voluntária do consumo para pequenos consumidores, como os residenciais. O bônus será de R$ 50 por 100 kWh reduzidos no consumo (ou R$ 0,50 por kWh), limitado à faixa de economia entre 10% e 20%.

Com isso, como o programa vai até dezembro deste ano, podendo ser prorrogado, a redução no consumo será conferida a partir da comparação da média de consumo do último quadrimestre de 2020, com mesmo período de 2021. O bônus será pago ao consumidor em janeiro de 2022.

Disponibilidade de energia é fator estratégico para o crescimento econômico do País | Crédito: Ueslei Marcelino/Reuters

Governo aposta em bandeira tarifária

A bandeira tarifária criada em razão da escassez hídrica elevou ainda mais o preço da energia, deixando ainda mais salgada a conta das medidas adotadas pelo governo federal para evitar desabastecimentos para as empresas e consumidores domiciliares, pelo menos até abril de 2022.

Com a redução drástica do volume de água dos reservatórios, o atendimento à demanda precisou ser coberto por usinas térmicas, que têm um custo muito mais alto, o que vem fazendo a conta de luz do brasileiro subir a patamares inéditos.

Entre dezembro de 2020 e agosto de 2021, a bandeira tarifária saiu do verde, em que não há cobrança adicional, e avançou até a cor vermelha no patamar dois, a mais cara do sistema.

E agora, em setembro, o consumidor foi condenado a subir mais um degrau nesta escalada de preços. Com validade até abril do próximo ano, a nova bandeira adotada no mês adiciona R$ 14,20 à conta de energia a cada 100 kWh consumidos.

A quantia é 49,6% maior do que a cobrada anteriormente, de R$ 9,49, quando era aplicada a bandeira vermelha patamar dois, que já tinha sido reajustada com o objetivo de arcar com os custos da geração termelétrica, mas cuja arrecadação seguia insuficiente para bancar a energia produzida a partir da queima de combustíveis como gás, diesel e outros.

Apesar de provocar aumento substancial na conta de luz, o uso das usinas termelétricas não pode ser evitado, uma vez que é o modelo adotado pelo setor elétrico brasileiro para suprir disparidades entre oferta e demanda no País. Essas termoelétricas são contratadas para ficar de prontidão e permanecem desligadas até que o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) as acione para dar conta do consumo.

Gerir crise não compete à Arsae

A Agência Reguladora de Serviços de Abastecimento de Água e Esgoto Sanitário de Minas Gerais (Arsae) não é responsável pelo volume de água disponível para captação no Estado. À agência não compete essa função. A atuação do órgão se restringe a criar as regras e as normas para essa captação. A agência ainda fiscaliza os serviços prestados à população pela Copasa e pela Copanor, braço da estatal responsável pelo saneamento de municípios das regiões Norte e Nordeste de Minas Gerais.

Segundo o diretor-geral da agência, Antônio Claret de Oliveira Júnior, nas áreas de atuação da Arsae, a demanda pela água deve ser descrita nos planos de saneamento local, que são feitos pelos próprios municípios. São os municípios os responsáveis por pesquisar e levantar a disponibilidade de seus recursos hídricos e planejar as metas de investimentos necessários para manter o abastecimento e evitar racionamentos.

“A agência regula e fiscaliza a prestação dos serviços. Não é sua responsabilidade os estudos sobre disponibilidade dos recursos hídricos e os diversos usos da água nos municípios”, afirma o executivo.

Claret lembra também que, além da normatização do abastecimento de água e de serviço de esgoto, a agência fiscaliza os serviços prestados pela Copasa e Copanor “de maneira plena e efetiva, para minimizar os impactos que podem ser causados pela escassez hídrica”.

Racionamento – Segundo o diretor-geral, a agência mantém ainda “resoluções específicas” visando a garantir a prestação dos serviços, além de regulamentações para evitar os problemas que surgem por causa da crise hídrica. Ele diz que a Arsae “acompanha diariamente” o racionamento de água nos municípios mineiros que tomaram a iniciativa.

“À medida que se consome mais água, maior é o preço do litro do produto para o consumidor. Essa regra incentiva o consumo racional, uma vez que a fatura se torna cada vez mais alta, quando se consome mais”, afirma o diretor-geral da Arsae.

Segundo Claret, uma das principais iniciativas da agência para minimizar a gravidade da questão hídrica é garantir que 0,5% das receitas obtidas nas faturas da Copasa e Copanor sejam investidas no programa que financia ações de proteção de mananciais em 238 municípios do Estado.

 “O programa de mananciais busca melhorar a quantidade e a qualidade da água ofertada pela Copasa e Copanor. Em 2020, foram gastos R$ 11 milhões no programa”, diz.

*Especial para o DC
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