Estado lançará programa de inovação tecnológica

Fomentar comunicação e aproximar ainda mais quem faz de quem precisa de inovação é vital para o setor em MG

20 de maio de 2022 às 0h29

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Crédito: Freepik

Para que a inovação tecnológica se transforme, de fato, em desenvolvimento econômico em Minas Gerais, um dos desafios apontados por especialistas do setor é melhorar o diálogo entre quem faz inovação e quem precisa de inovação. Vencer esse “desencontro” de palavras e ideias inclui trabalhar a linguagem e melhorar a comunicação e a convivência entre as três partes que constituem a chamada “tríplice hélice” da inovação: universidade, iniciativa privada e poder público.

A falha nesse diálogo faz com que ideias não encontrem a validação de que necessitam na região de origem. Também faz com que empreendedores paguem mais por tecnologias vindas de fora por não saberem, não compreenderem ou por desconfiarem do produto criado no “quintal de casa”.

Segundo especialistas, para vencer esse desafio do diálogo, a mediação de entidades empresariais, como o Sebrae Minas, Fiemg, CDL/BH, ACMinas, entre outras – que criam ações para divulgar inovações e ao mesmo tempo transmitem as necessidades do mercado para quem faz tecnologia – tem sido ferramentas-chave, principalmente entre os micro, pequenos e médios empresários que representam mais de 90% dos CNPJs brasileiros.

Outro ponto é formar mais profissionais “tradutores”, que entendam da ciência, da tecnologia e seus trâmites e, ao mesmo tempo, compreendam a vivência e gestão de negócios, falando tanto a língua da academia quanto a das empresas. Um terceiro caminho para melhorar o diálogo partiria da iniciativa privada, principalmente das grandes corporações, que poderiam ser indutoras de inovação entre seus fornecedores.

Dessa forma, o diálogo entre pesquisa e iniciativa privada é tema da quarta e última reportagem da série sobre os desafios da inovação tecnológica do #JuntosPorMinas – projeto do DIÁRIO DO COMÉRCIO que aborda desafios e gargalos do Estado que podem ser transformados em crescimento econômico e inclusão social.

Na primeira semana, o projeto levantou, de forma geral, os principais desafios da inovação no Estado. Na segunda, o #JuntosPorMinas trouxe uma entrevista exclusiva com o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico  (CNPq), Evaldo Vilela, sobre o assunto. Na terceira reportagem, o projeto abordou o déficit de mão de obra no setor. Acompanhe a seguir a quarta e última reportagem, que tratará do desafio do diálogo com o mercado.

Toda a ‘tríplice hélice’ precisa se mobilizar

De um lado, um vocabulário muitas vezes sofisticado, com muitos termos em inglês, linguagem mais acadêmica e técnica. De outro, alguém que fala o idioma dos negócios e faz das tripas o coração para manter sua empresa viva. A tradução das necessidades e ideias de ambos os lados é um ajuste necessário para facilitar a comunicação entre esses dois atores e fomentar inovações tecnológicas em Minas Gerais. Desconfiados ou sem entender direito o que é ofertado próximo aos negócios, muitos empresários buscam soluções tecnológicas fora do Estado, o que encarece o investimento e desestimula o desenvolvimento local.

Essa desconfiança ou incompreensão sobre a inovação ocorre, principalmente, entre micro, pequenos e médios empresários. “Em grande parte, acontece por desconhecimento do empresário sobre as tecnologias do ‘quintal de casa’ disponíveis nos habitats de inovação, ou porque muitas vezes a inovação disponível não está adequada às necessidades dos negócios”, explicou a gerente de inovação e competitividade do Sebrae Minas, Lina Volpini.

Mas essa postura está mudando. Segundo Lina Volpini, por conta da pandemia de Covid-19, grande parte dos empreendedores foi obrigada a pesquisar mais e inovar nos processos, passando a ofertar produtos e serviços por meio de diversas ferramentas digitais e para um público cada vez maior. Pesquisa do Sebrae realizada em 2021 apontou que 86% dos empreendedores entrevistados que inovaram viram melhora nos negócios.

“Para se diferenciar, o empreendedor precisa entender seu cliente, seus desejos e necessidades, saber como ele se conecta com o propósito da empresa, por quais canais ele prefere comprar, ter um preço competitivo, ter o feedback do serviço ou produto adquirido (…) Tudo isso no menor tempo possível para que rapidamente sejam feitas as adequações para fidelizar esse cliente. Ou seja, todas essas etapas passam por ferramentas digitais que podem dar maior agilidade a todo o processo de gestão da produção”, destacou.

Por outro lado, a gerente de inovação do Sebrae Minas ressaltou que o acesso ao desenvolvimento de soluções tecnológicas não é um processo simples, acessível e de familiaridade para o empresário, que acaba buscando os produtos e serviços já validados, mesmo que seja fora da região onde atuam. “A alternativa de tecnologias já validadas no mercado lhe dá mais velocidade de acesso e segurança de resultados”, observou.

Tradutores

Para o diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapemig), Marcelo Gomes Speziali, os ecossistemas e hubs tecnológicos fomentados em Minas Gerais e as políticas públicas têm desempenhado um papel importante para favorecer esse diálogo. Mas ele frisou que um dos caminhos para tornar a comunicação de fato mais efetiva passa, do lado da academia,  pela formação de um profissional mais amplo, o que vem ocorrendo nos cursos de pós-graduação da área.

“É preciso de um profissional que compreenda o processo todo. Que promova a inovação criada, que entenda da transformação do conhecimento no produto que chegará à prateleira. O mercado ainda é muito carente desse profissional. É alguém que sabe pegar um artigo científico produzido num centro de pesquisa, verificar sua propriedade intelectual e protegê-la. É alguém que consegue transferir e valorar essa propriedade intelectual para o setor produtivo, que consegue escalonar essa tecnologia e transferir ao mercado”, descreveu.

Indutoras

Já do lado das empresas, a melhora do diálogo entre as de menor porte e academia pode ser estimulada pelas grandes corporações, segundo o diretor de Relações Institucionais da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom), Sergio Sgobbi.

“As grandes empresas têm mais recursos financeiros e humanos e capacidade de buscar e acessar articulações com outros atores e agentes para propiciar inovação. Se essas grandes corporações fazem uma disseminação de cima para baixo na sua cadeia produtiva, estimulando fornecedores à inovação, solicitando que modifiquem processos, participem de cursos, transitem mais pela inovação tecnológica, ela, como líder da cadeia, só tem a ganhar e funcionará, ao mesmo tempo, como indutora da inovação nesse meio”, destacou.

Para Sgobbi, da Brasscom, grandes empresas podem induzir inovação nas cadeias produtivas | Crédito: Brasscom/Divulgação

Entidades empresariais são peças-chave

Ainda no lado da iniciativa privada na chamada tríplice hélice da inovação, as ações de entidades empresariais em diversas frentes são também ferramentas essenciais para aproximar, principalmente, micro e pequenas empresas da inovação tecnológica. A avaliação é do diretor de relações Institucionais da Brasscom, Sergio Sgobbi.

“Como estão mais próximas dos empresários, as ações dessas entidades levam de uma forma mais direta as necessidades das empresas para a academia e apresentam inovações aos empresários. Nesse sentido, formam um elo que precisa ser mantido, estimulado e fortalecido”, observou.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de BH (CDL/BH), Marcelo de Souza e Silva, disse que essas ações são necessárias porque muitas inovações têm chegado de forma burocrática aos micro e pequenos empresários, que representam 92% das empresas do Brasil. “Muitas vezes uma inovação é adquirida e deixada de lado, tamanha a burocratização do processo. Então, melhorar esse diálogo é fundamental para que cheguem inovações mais adaptadas à realidade das empresas, e também para que os empresários consigam apontar o que necessitam à academia”.

Dentre as iniciativas, Souza e Silva destacou o Varejo Inteligente, desenvolvido pela CDL/BH há sete anos e que será replicado em escala nacional por meio de uma parceria com o Sebrae. “Nós conectamos o pequeno e micro empresários com o que há de novidade para melhorar o seu negócio em termos de inovações. São cursos, capacitações, workshops que favorecem esse diálogo e estimulam a inovação. O resultado é que o número de associados da CDL/BH avançou bastante nos últimos dois anos, principalmente, em função desse apoio que temos dado com as tecnologias”, frisou.

ACMinas

Na Associação Comercial e Empresarial de Minas Gerais (ACMinas), também é desenvolvido um trabalho de fortalecimento da cultura da inovação entre as empresas em diversas frentes. Segundo a vice-presidente da entidade, Janayna Bhering, há um canal no YouTube chamado “Inovação em Pauta”, que busca desmistificar a inovação para as empresas. Outros meios de divulgação são a news letter e o blog da entidade, além de palestras, painéis e rodadas de negócios.

“Queremos que as empresas de qualquer porte desenvolvam a cultura da inovação, levando as informações da academia, cases de sucesso em vários setores”, destacou a vice-presidente, que também atua como executiva de negócios e parcerias na Fundação de Desenvolvimento e Pesquisas (Fundep).

Souza e Silva, da CDL, comemora resultados do ‘Varejo Inteligente’ | Crédito: CDL/BH Divulgação

Governo do Estado financiará inovação nas empresas

As políticas públicas também são parte importante da tríplice hélice da inovação e têm o papel de fomentar as tecnologias tanto na academia quanto nas empresas. É unânime entre especialistas do setor que, em Minas Gerais, elas têm apresentado bons resultados nos últimos 15 anos. Porém, persiste o desafio de  aproximar e ampliar o diálogo entre quem faz inovação e quem precisa de inovação. 

Na tentativa de melhorar essa integração e fomentar o setor produtivo, o governo de Minas pretende lançar no final deste mês o programa Compete Minas, que financiará processos de inovação nas empresas. A informação é de que o governador Romeu Zema determinou o investimento de R$ 100 milhões no programa. Serão recursos constitucionais para o setor, repassados via Fapemig.

“Nesse programa, as empresas terão recursos para fazer inovação tecnológica e também poderão fazê-lo junto ao ICTMG (Instituto de Ciência e Tecnologia de Minas Gerais). Haverá chamadas para startups, micro, pequenas, médias e grandes empresas. Haverá critérios, com uma banca que envolve não apenas pesquisadores, mas também profissionais de mercado. É mais uma forma de transformar conhecimento em nota fiscal, quebrar paradigmas e ganhar novos mercados”, adiantou, em primeira mão, ao DIÁRIO DO COMÉRCIO, o subsecretário de Estado de Ciência e Tecnologia, Felipe Attie.

Ainda na linha de aproximação entre mercado e academia, o subsecretário destacou também o programa Vivência Universitária em Empreendedorismo e Inovação (Vuei). Presente hoje em 22 campus universitários e 16 instituições de ensino superior, o Vuei visa  aproximar mercado e academia, estimulando a criação de negócios inovadores. Números da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede) apontam que o programa impactou 72 mil pessoas entre estudantes, professores e empresas nos anos de 2020 e 2021.

Confira algumas iniciativas de aproximação:

Sebrae

Catalisa ICT – Aproximação entre academia e o mercado. Possibilita a implementação de planos e projetos de pesquisa e inovação que terminem em projetos inovadores e transferência tecnológica

Sebrae Connect – plataforma que conecta pequenos negócios com soluções tecnológicas e digitais. São 75 startups já disponíveis nas áreas de gestão financeira e pagamentos; gestão de processos e operações e gestão de MKT Digital. 

Agente Local de Inovação para Transformação Digital – agente que apoiará o pequeno negócio na implementação de softwares e ferramentas digitais para resolver seus problemas prioritários na gestão e produção 

Fiemg

Fiemg Lab – programa de aceleração de startups. Aproxima as empresas da inovação das startups, ao passo que apresenta a estas as demandas e os recursos multiplicadores da indústria para soluções escaláveis, com base tecnológica.

Orientação de financiamento à inovação – monitoramento e divulgação de informações sobre oportunidades de financiamento, análise de projetos empresariais e indicação de possibilidades de captação de recursos. 

CDL/BH

Varejo Inteligente – programa focado na inovação para o comércio de pequeno e médio portes de BH, com orientações, treinamentos, capacitações e interlocuções com a academia.

ACMinas

Canal “Inovação em pauta” no YouTube – desmistifica a inovação

Conselho de inovação –  promove diversas ações e rodadas de negócio

Blog ACminas – Divulga informações sobre inovações para empresários

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