Inovação tecnológica é vital para o avanço econômico do Brasil

6 de maio de 2022 às 0h29

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Para o presidente do CNPq, Evaldo Vilela, o desenvolvimento tecnológico é uma prioridade | Crédito: Marcelo Gondim

Considerado um “guru” da ciência e da inovação no Brasil, Evaldo Vilela, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico  (CNPq) desde 2020, entende que passou da hora de o País desenvolver um grande projeto nacional de desenvolvimento tecnológico. Segundo ele, as políticas públicas para o setor não são e nunca foram suficientes para transformar ciência e inovação em desenvolvimento econômico e social.

O caminho para isso passa pela ampliação do financiamento público (federal e estaduais) para o setor, pela criação de leis que desburocratizem a inovação; pela ampliação da oferta de crédito a juros baixo para quem desenvolve inovação e pela melhora no diálogo entre pesquisadores e empresários. “Precisamos exportar tecnologias”, frisou Vilela em entrevista concedida ao DIÁRIO DO COMÉRCIO.

Em relação a Minas Gerais, o cientista destacou que o Estado tem um importante ecossistema em formação, que vem se fortalecendo através de políticas públicas desenvolvidas desde 2003 e parcerias com o setor privado, mas que “nenhum ecossistema no País está consolidado”. 

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Enfatizou também sobre a importância de levar planejamento, recursos e infraestrutura para regiões carentes, como o Norte de Minas, e fazer do desenvolvimento tecnológico uma ferramenta de transformação social, pois “talentos nascem em todos os lugares”.

Mineiro de Campo Belo, Vilela é formado em agronomia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde foi reitor. É mestre em Entomologia pela USP e doutor em Ecologia pela Universidade de Southampton, Inglaterra. Foi presidente da Sociedade Entomológica do Brasil e da Sociedade Brasileira de Defesa Agropecuária. Foi diretor da Fundação Arthur Bernardes (Funarbe), secretário-adjunto de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). É membro titular da Academia Brasileira de Ciências e foi presidente do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap).

A entrevista a seguir compõe a segunda de uma série de quatro reportagens semanais sobre inovação tecnológica, do projeto #Juntos Por Minas, do DIÁRIO DO COMÉRCIO. O projeto aborda desafios e gargalos do Estado que podem ser transformados em oportunidades de crescimento econômico e inclusão.

Qual é hoje o maior desafio da inovação no País?

No plano maior, estratégico: falta um plano de desenvolvimento para o País com base no conhecimento e na inovação. O Brasil precisa priorizar a ciência, que gera os conhecimentos para criar as novas tecnologias que alimentarão o processo de inovação tecnológica feito pelo Brasil (“made in Brazil”), que deve ser consequência de políticas da nação brasileira. Um país precisa ter foco, priorizar seus esforços para que o essencial possa acontecer. E desenvolvimento é essencial. Na prática, falta financiamento público (federal e estaduais) para incentivar a inovação como política de substituição das importações de base tecnológica. Precisamos exportar tecnologias e fazer inovação para gerar os sonhos emprego e renda. E soberania tecnológica!

O senhor considera as políticas públicas e recursos destinados ao setor de inovação tecnológica satisfatórios?

Não são e nunca foram satisfatórios para promover a inovação tecnológica, exatamente porque não temos o desejo de ser um país inovador nas empresas e indústrias, apesar do nosso potencial e necessidades.

Um dos desafios apontados por especialistas em inovação é o déficit de mão de obra, principalmente profissionais de TI e engenharia de produção, que é mundial. Qual seria a solução?

Concordo que faltam pessoas capacitadas, apesar de termos talentos em quantidade na nossa juventude, mas que estão sendo mal instruídos, infelizmente. Claro que temos um excelente trabalho de capacitação profissional feito pelo ”Sistema S”, mas ainda muito insuficiente para o País. A solução é uma forte parceria público-privada, articulada pelos governos, em nível federal e dos estados, capaz de encaminhar soluções de curto e longo prazo, duradouras no campo da educação tecnológica, com foco na profissionalização e na empregabilidade. Mas não pode ser apenas mais uma ação, tem que ser “a” ação, criando oportunidade para os jovens brasileiros e para a indústria inovadora.

É possível fazer inovação sem investimento público?

Claro que não, porque inovação envolve riscos tecnológicos, que o empresário não vai correr. Em todo o mundo, riscos da transformação de conhecimento novo em tecnologia e inovação são bancados com recursos públicos, dos impostos. Para os empresários cabe arcar com os riscos advindos do mercado, da possibilidade do produto, processo ou serviço inovador não dar certo como previsto, não faturar como planejado.

Onde estão hoje os celeiros tecnológicos do País e como Minas Gerais figura nesse cenário?

Naturalmente, o Estado de São Paulo ocupa o primeiro lugar, por ter um plano consistente e permanente, desde a sua Constituição de 1937, de apoio permanente e crescente à ciência e à inovação, bem como a atração de empresas e indústrias inovadoras, inclusive de centros de P&D. Na sequência, despontam Santa Catarina, Minas Gerais e Paraná. Santa Catarina se destaca com uma forte atuação do setor empresarial. O Paraná tem feito grandes avanços no ensino superior, na ciência e tecnologia e na inovação, com reflexos importantes na economia do Estado. Minas tem um ecossistema de ciência e tecnologia de inovação que vem se fortalecendo muito desde 2003, com o fortalecimento da Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) como importante agência de fomento, aliado ao esforço da Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) e a atuação cada vez maior das universidades mineiras em estabelecer importantes parcerias com empresas inovadoras. Ressalto os avanços da UFMG, com atuação marcante na promoção da inovação com empresas, contando para isso com um Núcleo de Inovação Tecnológica (CTiT) muito bem estruturado, assim como o Parque Tecnológico BHTec, abrigando excelentes projetos de inovação. Destaca-se, ainda, a PUC Minas e, no interior, as universidades federais de Viçosa, Lavras, Itajubá, Juiz de Fora e outras, que apoiando excelentes pesquisadores, estudantes e empresários empreendedores, tornam o Estado um player importante na inovação no Brasil. Minas criou o Simi (Sistema Mineiro de Inovação), temos o Movem (Movimento pela Inovação), que tem articulado o ecossistema.

O senhor considera o ecossistema de inovação em Minas Gerais consolidado?

Nenhum ecossistema de inovação no País pode se considerar consolidado. Ainda temos muito que aperfeiçoar com relação aos mecanismos de transbordamento do conhecimento para o produto inovador, ou seja, como vencer o chamado “vale da morte”, que é onde as ideias morrem antes de chegar ao mercado, por vários motivos, que precisam ser dinamicamente atualizados, o que ainda não acontece em nosso ecossistema. É preciso avançar e muito pelo benefício de Minas.

Como levar inovação para regiões mais carentes do Estado, como o Norte de Minas?

Criar e manter ambientes de inovação para regiões mais carentes do Estado faz muito sentido, uma vez que talentos nascem em todos os lugares. E, quando criados junto a grandes necessidades econômicas ou culturais, a criatividade pode desenvolver soluções locais que podem gerar inovações únicas e muito relevantes. Só é preciso ter a real dimensão da necessária infraestrutura e apoio com recursos. É preciso, no entanto, planejar e investir adequadamente. Há exemplos muito bem-sucedidos em várias partes do mundo.

Como avalia as políticas públicas desenvolvidas pelo Estado?

Nas duas últimas décadas, tem havido um esforço nunca visto antes para promover a ciência, tecnologia e inovação em prol do desenvolvimento de Minas Gerais. A partir de 2006, os governos mineiros, em maior ou menor grau, fortaleceram a Fapemig, destinando recursos significativos para o apoio a projetos e programas, que contribuíram e contribuem para a consolidação de uma comunidade mineira de Ciência e Tecnologia. Implantaram, ainda, programas para articular a inovação no Estado, como o Simi, o Seed e apoiaram muitos outros de incentivo a startups. Movimentos capazes de ampliar as parcerias entre universidades e empresas são fundamentais para alavancar uma nova economia mineira, baseada em conhecimento inovador. E é preciso articular ainda mais as iniciativas mineiras aos programas federais, como aqueles da economia lançados pela Finep e CNPq.

Como conscientizar micro e pequenos empresários sobre a importância da Inovação?

O Sebrae já faz um excelente trabalho de levar inovação para micro e pequenos empresários, com foco na capacitação para empreender, consultoria e mecanismos para conscientizar sobre negócios inovadores. Duas questões são fundamentais para ampliar os negócios inovadores no Brasil. Primeiro, crédito e juros baixos para o segmento, já que os juros no Brasil são proibitivos a quem deseja empreender, inovar. Em segundo, reduzir a burocracia para quem quer fazer negócios, incluindo leis favoráveis à inovação no País. Atualmente, juros altos, leis e burocracia excessiva impedem a inovação para micro e médias empresas. O Brasil precisa resolver estas questões urgentemente.

E os grandes empresários? Já têm essa consciência?

Grandes empresários preferem importar produtos novos para vender no bom mercado brasileiro. Correm menos riscos. É preciso favorecer a inovação no País, está passando da hora de termos um grande projeto nacional para criar aqui uma base tecnológica para produtos inovadores para a saúde, agronegócio, etc. Nossa dependência atual de medicamentos – veja o caso da Covid -, de fertilizantes para agricultura, de chips para a indústria compromete o presente e futuro do Brasil.

Pessoas que trabalham com inovação tecnológica relatam a percepção, muitas vezes, de uma dificuldade de diálogo entre pesquisadores e empresários. Às vezes, por questões de timing-to-market  (tempo gasto no processo de desenvolvimento de um produto, desde sua concepção até a hora de anunciá-lo para os clientes), às vezes, por nivelamento de vocabulário, entre outros motivos. Enfim, o que o senhor sugere para facilitar o alinhamento de interesses entre academia e mercado em prol da construção de uma agenda positiva do setor?

O diálogo entre pesquisadores e empresários é sim uma questão que precisa ser mais trabalhada, porque é chave para o processo de inovação. A inovação acontece no mercado, onde vira nota fiscal, e isso depende do empresário. O conhecimento tecnológico inovador depende do pesquisador e são dois mundos com perspectivas e linguagens diferentes. Mas essa questão tem melhorado, até por conta da necessidade do pesquisador de conseguir mais recursos para suas pesquisas, e dos empresários de aumentar sua competitividade no mercado. Ambientes de inovação frequentados de alguma maneira pelos dois facilitam a aproximação e o diálogo. No mundo todo, ambientes de inovação são prestigiados para o estabelecimento de agendas positivas, onde questões como o timing-to-market é combinado realisticamente e fica amenizado.

Como transformar inovação em desenvolvimento econômico e social? O Brasil está no caminho certo?

Políticas públicas bem organizadas e uma série de outras medidas são necessárias para transformar a inovação gerada em benefício da sociedade. Inserir o produto ou o serviço inovador no mercado não é trivial. Envolve riscos que podem levar uma boa ideia ou produto ao fracasso. O apoio de investidores e dos diferentes níveis de governos são cruciais, particularmente, para inovações disruptivas. Mas a inovação é absolutamente mandatória para os estados ou países que almejam o crescimento e o desenvolvimento econômico e social para sua população. O tema é complexo e exige mais discussão. O Brasil precisa ainda priorizar a inovação como prioridade absoluta para seu crescimento. Temos feito boas iniciativas, mas ainda falta caminhar muito.

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