Minas Gerais tem potencial para inovar ainda mais

Embora consolidado no Estado, setor precisa reter mão de obra que forma e conscientizar pequenos empresários

29 de abril de 2022 às 0h29

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Crédito: Freepik

Minas Gerais é referência mundial quando o assunto é inovação tecnológica. Com um grande e representativo ecossistema que se formou ao longo da última década, o Estado mantém a tradição de ser vanguarda em muitas áreas.

Como poucas unidades da federação e graças a um trabalho em conjunto que vem sendo desenvolvido há quase duas décadas pela iniciativa privada e pelo poder público, Minas pode hoje ostentar uma grande rede de inovação. Trata-se de um setor já amadurecido, ou em constante maturação, como preferem alguns especialistas. Tanto que o número de startups em Minas cresceu 242% nos últimos sete anos.

O fato é que é consenso na área que Minas Gerais já desenvolveu as principais forças motrizes para a inovação tecnológica: os polos de formação, pesquisa e desenvolvimento e políticas públicas de estímulo e fomento. Dessa forma, para quem quer inovar no Estado, há disponível direcionamento e ferramentas.

Embora o cenário seja bastante positivo, há ainda muito potencial. E para que a inovação seja protagonista no desenvolvimento econômico, há que se vencer desafios.

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, um deles é a conscientização de parte da iniciativa privada, principalmente do pequeno e do microempresário, sobre a importância da inovação tecnológica nos negócios. Outro ponto é reter a mão de obra formada no Estado. O terceiro desafio, atrelado ao primeiro, é aproximar ainda mais quem precisa de inovação de quem faz inovação, ou seja, um diálogo maior entre as partes. E o quarto desafio, que é eterno: manter-se fora da zona de conforto e melhorar cada vez mais a condição de competitividade do Estado.

Especialistas apontaram ainda que os quatro desafios estão totalmente interligados. Se a iniciativa privada se abre para a inovação, o campo de trabalho aumenta e, consequentemente, a mão de obra qualificada tende a se manter no Estado. Tudo isso favorece a competitividade.

A boa notícia é que os movimentos, principalmente de entidades empresariais e dos governos estão engajados nesse propósito.

Nesse cenário, a inovação tecnológica é tema de uma série de quatro reportagens semanais do #JuntosPorMinas. O projeto do DIÁRIO DO COMÉRCIO aborda desafios do Estado que podem ser transformados em oportunidades de crescimento econômico e inclusão social. Nesta primeira reportagem da série, especialistas falam do cenário e apontam caminhos para que Minas vença alguns obstáculos no setor.

É preciso vencer a desconfiança dos pequenos

O Estado de Minas Gerais tem a faca e o queijo nas mãos para se manter competitivo no setor de inovação tecnológica. Tem mentes geniais, curiosas, vários ecossistemas de inovação consolidados, formação de mão de obra, polos de pesquisa e desenvolvimento científico e muitas universidades. As políticas públicas estaduais, vanguardistas e as iniciativas empresariais, que têm aproximado a demanda da oferta de inovação, completam o cenário positivo do setor. Mas, segundo especialistas, a dinamicidade própria da área e algumas características locais apresentam desafios que podem virar oportunidades.

É que o povo mineiro tem uma característica cultural que favorece o crescimento do setor de inovação, mas tem outra que tem sido o maior entrave da área, segundo o professor e pesquisador Humberto Torres Marques Neto, que coordena o PUCTec, hub de formação, inovação e negócios da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

“Mineiros são curiosos. Isso estimula a criação e a disposição por buscar soluções ao detectar uma demanda. Essa inquietude é fundamental para mobilizar e desenvolver inovação e tem contribuído para o crescimento do setor. Mas, ao mesmo tempo, o mineiro é desconfiado. Empresários, principalmente os micro, pequenos e médios, têm dificuldade em aceitar uma solução inovadora vinda do ‘quintal de casa’. Muitas vezes, acreditam mais no produto de fora, testado em locais com outras características, porque desconfia das novidades daqui. Isso atrapalha muito a inovação”.

Essa desconfiança, conforme Marques Neto, já foi vencida entre os grandes empresários e está mais presente nos pequenos. “Quando o empresário não dá oportunidade para a inovação desenvolvida perto do seu negócio, ele não permite a validação dessa inovação e do consumo da mesma no local de origem. Mas, quando há esse entrosamento, os empregos e a geração de renda ficam no local”, destacou o professor que também coordena o Núcleo de Inovação da PUC-Minas.

E sem encontrar quem acredite na sua ideia, em outra ponta, profissionais da área acabam indo buscar outros players. “É uma rede, uma coisa reflete na outra”, completou.

Reter profissionais

Dessa forma, mesmo Minas sendo a unidade da federação que mais forma mão de obra de inovação no País, o Estado tem dificuldade de reter o profissional qualificado por aqui, principalmente aqueles das áreas de TI (tecnologia de informação) e engenharia de produção.

“A falta de mão de obra qualificada é um problema mundial do setor de inovação e não é diferente em Minas Gerais, mesmo Estado sendo o que tem o maior número de universidades federais do País, além de iniciativas do setor privado em formação de mão de obra. Nós precisamos de mais iniciativas que façam esses profissionais ficarem por aqui”, destacou o pesquisador parceiro da UFMG e sócio do IEBT Inovação, Paulo Vítor Guerra.

Conforme Guerra, que é mestre em Administração, com enfoque em Estratégia, Empresas de Base Tecnológica e Empreendedorismo, há estudos que apontam um deficit anual de 24 mil profissionais somente da área de TI no Brasil. E como é uma rede, a saída para segurar os profissionais de inovação no Estado passa pela conscientização e formação dos empresários para que invistam em inovação.

“A pandemia tem acelerado esse processo. Os empresários têm percebido a importância da inovação. Mas isso precisa ser maior ainda. E é exatamente aí que entram iniciativas como Fiemg Lab, o P7, iniciativas da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) e do governo do Estado, entre outras, que aproximam quem demanda inovação de quem faz . Toda inovação tem um risco atrelado. Essas entidades e governos ‘compram’ o risco junto ao empresário”.

Sob gestão da Fiemg, hub inaugurado na praça Sete há nove dias tem capacidade para abrigar mais de 500 startups | Crédito: Dirceu Aurélio/Imprensa MG

P7 criativo pretende inovar no centro de BH

A Praça Sete, no centro de BH, não será mais a mesma e pode se transformar na “Praça da inovação”. Há nove dias, foi inaugurado no antigo prédio do Bemge, o P7 Criativo, o primeiro hub de inovação e economia criativa do Brasil, que poderá abrigar mais de 500 startups. Segundo o presidente do P7, Gustavo Macena, trata-se de uma agência de desenvolvimento da economia criativa do Estado que vai aproximar empresas e ideias e agregar valor para o centro de BH, já que a expectativa é que cerca de 3 mil pessoas passem pelo local diariamente.

O edifício foi reformado para receber empresas e atividades das áreas de patrimônio cultural, artística, arquitetura, publicidades, moda, design, móveis e audiovisual, software, dentre outras. Sob gestão da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) por 20 anos, os 25 andares do edifício projetado por Oscar Niemeyer contarão com 412 estações de coworking, museu, biblioteca digital, laboratório de design, auditório e restaurante.

“O agrupamento de empresas com essa natureza inquieta tem o poder de transformar o entorno de onde estão. Conseguiremos através dessas empresas criar iniciativas de revitalização do Centro. Onde há movimento, há investimento”, destacou Macena.

Para a obra de revitalização do prédio foram investidos R$ 56,2 milhões, sendo R$ 48 milhões da Companhia de Desenvolvimento do Estado de Minas Gerais (Codemge), R$ 6 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e R$ 2,2 milhões do Banco Itaú. Além do investimento na infraestrutura, R$ 8,2 milhões foram investidos no projeto, sendo mais da metade da Codemge. Estão previstos mais R$ 11 milhões do BNDES para compra de móveis e equipamentos para espaços como museu e biblioteca.

“Minas Gerais está num processo de consolidação das frentes de inovação. Não há um movimento único consolidado. O que a gente percebe são iniciativas feitas de maneira isolada. O que é interessante é que inovação, por conceito, é feita em rede. Eu acredito muito que o P7 criativo pode ser esse campo de unificação, de consolidação de iniciativas maravilhosas que nós temos no Estado”, disse Macena.

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