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Minas perdeu ‘trem aquático’ da história

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Rio São Francisco não possui condições de navegação adequadas ao transporte de carga, diz especialista | Crédito: Divulgação

A chegada das chuvas – a chamada “estação das águas” – traz certo alívio, mas não resolve problemas passados, dos quais muitos já se tornaram crônicos, outros se agravam a cada ano e muitos outros continuam a surgir. Nesta reportagem, dentro da série #JuntosPorMinas – Água, o DIÁRIO DO COMÉRCIO aborda três questões fundamentais: a utilização da água como meio de transporte, a possibilidade ou não de racionamento no Estado, principalmente em Belo Horizonte, e o posicionamento da indústria em relação ao abastecimento de água, insumo utilizado em incontáveis setores e, em muitos deles, como os principais.

Na logística de transportes, por exemplo, o professor Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral, não vê espaço para recuperação. Para ele, é uma oportunidade e certamente um diferencial competitivo que se perdeu ao longo do tempo e de equívocos de sucessivos governos.

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No setor industrial, a Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) vê dificuldades no cenário hídrico, mas acredita que as empresas aprenderam, no sufoco, a enfrentar e conviver com a crise. 

Para a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), ao contrário do que afirmam especialistas, não há risco de desabastecimento este ano – e, talvez, nem haja mesmo em razão do começo das chuvas. Mas, para os anos seguintes, o risco certamente continua e aumenta. Mesmo otimista, a Copasa adverte para a necessidade de desenvolvimento de modelos que melhorem a gestão dos recursos hídricos e contribuam para promover o bom uso.

Transporte de cargas em rios não altera realidade de rodovias

Carlos Eduardo Cherem

Durante sete décadas, poder público e iniciativa privada não conseguiram conservar os rios e viabilizar o aproveitamento deles em Minas Gerais – sobretudo os rios São Francisco, o “rio da integração nacional”, e o Grande. Com isso, a implantação de hidrovias no Estado, que tem o maior potencial hídrico do País, discutida amplamente nesse período, tornou-se inviável.

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“Já se vão mais de sete décadas sem aproveitamento efetivo. Infelizmente, podemos afirmar que Minas Gerais perdeu o ‘trem aquático’ da história”, diz o professor da Fundação Dom Cabral (FDC), Paulo Resende, especialista em logística, transporte e planejamento de operações.

“Todos os estudos hoje apontam para aproveitamento de rios em Minas Gerais sem transporte de cargas, em volume capaz de alterar a matriz de transportes atual. Esses estudos apontam para uma revitalização com o transporte de pessoas, turismo e lazer, o que é muito restrito,”, afirma Resende.

Na avaliação do especialista, a falta de políticas e estratégias de conservação dos rios mineiros, de aproveitamento múltiplo, consciente e sustentável das águas, além da ausência de marcos regulatórios responsáveis para seu uso, são os responsáveis pela atual situação.

Paulo Resende é especialista em transporte e planejamento de operações | Crédito: FDC/Divulgação

Exemplo vem de cima – “Quando o exemplo vem de cima, a população e as empresas veem o patrimônio natural como um objeto de uso não controlado, e abusa da oferta”, diz o professor da FDC. 

Resende explica que esse comportamento, ao longo das últimas sete décadas, contribuiu para acabar com os rios: “uso da água para fins diversos sem autorizações e controle, retirada de materiais dos rios provocando assoreamento contínuo, despejo de esgoto e água não tratada no curso d’água, lixo jogado nos rios, ocupações ilegais, loteamentos sem autorizações, isso tudo resultou na atual situação”.

Segundo o especialista, historicamente, os sucessivos governos estaduais nunca deram atenção ao modal hidroviário. Os rios navegáveis mineiros foram tratados de maneira irresponsável em sua preservação, conservação do meio ambiente, matas ciliares, processos de assoreamento e uso indevido das águas.

“Infelizmente, hoje não existe a menor possibilidade de se falar em potencialidades de implantação de hidrovias. Outros modais são mais viáveis, pois os rios demandam trabalhos de engenharia que não justificam a demanda de cargas”, afirma.

“Os dois principais rios, o São Francisco e o Grande, não possuem condições de navegação nem para embarcações de pequeno porte. Uma estratégia de aproveitamento dos rios para o transporte pode significar até riscos maiores de agressão a eles. Algum vislumbre pequeno pode acontecer nos lagos ou represas de Minas Gerais. Nesse caso, com um transporte de mercadorias entre algumas cidades, mas nada que irá alterar de maneira significativa a matriz mineira de transportes”, diz o professor da FDC.

Planejamento urbano é fundamental

As empresas e órgãos governamentais utilizam modelos meteorológicos (climatológicos) para buscar alguma previsibilidade sobre o que ocorrerá em determinada região. Esses modelos, porém, como se baseiam em dados históricos e variáveis climatológicas, não são controláveis, dizem técnicos da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), para justificar a atual escassez hídrica em Minas Gerais.

A estatal explica que, além dessas variáveis, devem-se levar em conta os efeitos das mudanças climáticas nos últimos anos e aquecimento global, que aumenta a frequência de eventos extremos em todo o mundo.

“A crise hídrica deve ser encarada de forma sistêmica e integrada. O planejamento urbano, o uso e ocupação da bacia hidrográfica, o desmatamento e as atividades humanas impactam no clima. Consequentemente, essas atividades impactam também na disponibilidade do recurso hídrico, cuja demanda é crescente. A governança das águas e a promoção de sua utilização de forma sustentável é essencial e um grande desafio”, informa a companhia.

No caso da Região Metropolitana de Belo Horizonte, explicam os técnicos da Copasa, o plano diretor metropolitano é revisto periodicamente, avaliando a oferta e demanda dos sistemas de abastecimento de água, indicando a necessidade de expansão dos sistemas de produção. A última revisão ocorreu em 2019 dentro de horizonte de 20 anos em alguns municípios da região metropolitana.

Os investimentos da Copasa, por exemplo, são estabelecidos a pequeno, médio e longo prazos, em conformidade com o estabelecido no novo marco de saneamento. Serão investidos, no período de 2021/2025, R$ 6,5 bilhões pela companhia. De acordo com a Copasa, os aportes serão sustentados pela geração de caixa da empresa e pela captação de recursos no mercado.

Capital não tem risco – Contrariando o que dizem especialistas, a Copasa assegura que não há risco de faltar água em Minas. Com uma distribuição média de cerca de dois milhões de metros cúbicos de água por dia em 640 municípios mineiros, a Copasa atende 5,5 milhões de clientes no Estado. A companhia, porém, atende com serviços de esgoto somente 310 municípios, 69% do total de clientes, com 3,8 milhões de consumidores.

De acordo com os vários estudos, cenários e monitoramentos com os quais a Copasa trabalha e desenvolve, não há risco de desabastecimento em Belo Horizonte. O nível dos reservatórios permite que a capital mineira consiga atravessar o período de estiagem. O volume armazenado nos reservatórios está em torno de 68,5%, o que garante a estabilidade no fornecimento de água para a região. Até o momento não há previsão de racionamento na região metropolitana da capital mineira.

Indústria está preparada para escassez

O parque industrial de Minas Gerais aprendeu a lição na seca de 2014/2015, evitando este ano as filas de caminhões-pipa que se formavam nos portões das fábricas naquele período. Isso ocorre, sobretudo, nos segmentos têxtil, automobilístico e de mineração, que, à época, enfrentaram muitas dificuldades para se abastecerem do produto.

“As indústrias mineiras aprenderam a lição na crise de 2014/2015, quando tiveram de fazer investimentos em tubulações para captação em locais muito distantes de suas instalações, e outras dependeram até de caminhão-pipa para não interromperem a produção”, afirma o gerente de Meio Ambiente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Wagner Soares.

Segundo o especialista, nesse período de seis anos houve investimentos e a incorporação de novas tecnologias no processo produtivo, que, utilizando equipamentos e máquinas avançadas, possibilitaram a redução do consumo no processo produtivo.

Reúso – De acordo com levantamentos da Fiemg, as empresas passaram a adotar tecnologias de reutilização da água oriunda do próprio processo produtivo interno, ou de sistemas externos, a exemplo da captação de águas da chuva.

Wagner explica que, em média, atualmente, as indústrias automobilísticas têm uma taxa de 90% de reúso da água no processo produtivo, as indústrias da mineração, de 80%, e nas indústrias têxteis o percentual alcança 60%.

“Caso esse período de escassez hídrica perdure, haverá redução de receita das indústrias, sobretudo de segmentos como os de alimentação, laticínio, sucos, bebidas e papel”, diz o gerente de Meio Ambiente.

Soares lembra, porém, que cada empresa possui uma estratégia de abastecimento de água, capaz de minimizar o risco de desabastecimento, caso a situação piore.

“Ainda estamos dentro do processo e não é possível ainda uma visão do todo para estimar o impacto que a crise de 2020/2021 terá sobre a indústria mineira”, afirma o gerente da Fiemg.

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