ESG avança na mineração, mas ainda há desafios

Focadas em assegurar investimentos e resgatar a confiança da sociedade, empresas buscam se ajustar à agenda

10 de junho de 2022 às 0h29

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Crédito: Adobe Stock

André Martins,
especial para o DC

A vocação está impressa no próprio nome: desde o século XVIII, Minas Gerais tem nos recursos minerais uma das bases de sua economia. O promissor subsolo mineiro abriu um horizonte de oportunidades para o Estado, sobretudo a partir da exploração de ferro, atraindo conglomerados empresariais do setor.

Polo da indústria extrativista, Minas Gerais se tornou uma caixa de ressonância para a agenda ESG (governança ambiental, social e corporativa, em português). Ações mais direcionadas ao setor puderam ser percebidas no Estado desde bem cedo.

As tragédias em Mariana (2015) e Brumadinho (2019) despertaram a consciência das mineradoras para as práticas ESG, que não se limitam à segurança das operações e das comunidades ao seu redor. De igual modo, contribuíram para a mudança de postura as conferências internacionais que vêm dando o tom do debate ambiental neste início de século XXI.

Além de eliminar barragens a montante, como impuseram as legislações federal e mineira, o setor precisava tomar outras atitudes para reaver a confiança da sociedade e assegurar investimentos. Medidas como reduzir emissões de carbono, fazer a gestão de resíduos, ser mais transparente com a sociedade e proporcionar desenvolvimento socioeconômico às comunidades passaram a estar na ordem do dia para as mineradoras.

O que de concreto está sendo feito na agenda ESG na mineração do Estado é tema do #JuntosPorMinas desta quinzena. O projeto do DIÁRIO DO COMÉRCIO aborda desafios que podem ser transformados em crescimento econômico e inclusão social. Nesta reportagem, especialistas analisam até que ponto as empresas do setor estão, de fato, comprometidas com essa agenda, bem como seus avanços e obstáculos. Confira a seguir.

Experiências exitosas na implementação

A preocupação com a imagem perante a sociedade e o mercado sustenta uma série de ações do setor minerário, que já perseguia diversos preceitos de governança ambiental, social e corporativa antes mesmo da agenda ESG ganhar relevância a partir de 2004. Iniciativas isoladas e outras mais robustas, como o Global Reporting Initiative (GRI), já compreendiam um conjunto de ações que visavam a qualificar a reputação das companhias.

Implementada com sucesso no mercado financeiro, a nova agenda foi mais impositiva que qualquer outra iniciativa. A adesão a ela tornou-se um fator decisivo para o futuro das empresas, sobretudo do ramo extrativista. “A grande vantagem do surgimento do tema via mercado financeiro é que ele acaba envolvendo toda a cadeia produtiva”, observou o líder da Divisão de Meio Ambiente da EBP Brasil, Vinicius Ambrogi.

Em 2019, a agenda ganhou uma versão específica para a mineração no Brasil, ratificada pela “Carta Compromisso do Setor Mineral”. O documento do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) – conhecido como ESG da Mineração – possibilitou a criação de grupos de trabalho para a proposição de metas e métricas para 12 assuntos estratégicos para as empresas do setor. As propostas serão apresentadas na próxima Exposibram, que acontecerá de 12 a 15 de setembro, em Belo Horizonte.

Na avaliação do diretor de Sustentabilidade e Assuntos Regulatórios do Ibram, Julio Nery, as mineradoras com atuação em Minas Gerais estão verdadeiramente engajadas com as ações ESG. “A transparência se tornou algo caro para as empresas do setor. Por isso, muitas já instituíram diretorias para cuidar desse assunto. Há também investimentos em promoção da diversidade e de ações avançadas de segurança, como as linhas de defesa. Essas empresas estão dispostas a fazer muito mais do que a legislação exige”.

Segurança

A segurança de barragens e das comunidades afetadas compõe um dos pilares da agenda ESG para o setor. Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), o Estado ainda possui 43 estruturas a montante a serem descaracterizadas. Por isso, o governo de Minas e os Ministérios Públicos Estadual e Federal celebraram acordos com 14 companhias com operações no Estado para que as estruturas a montante sejam descomissionadas até 2030.

Em Minas Gerais, a tecnologia tem assegurado o monitoramento contínuo de barragens. Imagens de satélite, drones e radares ajudam na tarefa de identificar deslocamentos que podem indicar comprometimento da estabilidade das estruturas. As inovações também favorecem a segurança dos colaboradores. Hoje, operadores antes expostos ao risco de atividades in loco dão lugar a caminhões fora de estrada e máquinas comandadas remotamente.

A descaracterização de barragens pressupõem obras, mas, também, uma nova forma de se trabalhar com o rejeito oriundo do processo de beneficiamento do minério – mais um dos pilares da agenda ESG da mineração. Nesse sentido, as empresas têm investido maciçamente em tecnologias de filtragem, a partir das quais o rejeito lamoso é espessado e tem a umidade reduzida a cerca de 15%, podendo ser empilhado ou servir como matéria-prima para a produção de diversas soluções para a construção civil. A inovação também permite que a água – recurso indispensável na mineração – retorne aos processos, sendo utilizada de forma mais consciente.

Companhias têm investido no monitoramento tanto das barragens quanto de áreas de preservação ambiental | Crédito: Divulgação

Parcerias contribuem para pauta ambiental

Com recursos de mineradoras instaladas em Minas, alunos e profissionais do curso de Engenharia de Minas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pesquisam soluções para o uso do rejeito depositado na bacia do Rio Doce após a tragédia de Mariana. “Estamos desenvolvendo uma série de produtos que as pessoas das comunidades afetadas podem produzir e se beneficiar economicamente, como pequenos vasos e até mesmo tijolos intertravados”, contou o professor do Departamento de Engenharia de Minas da UFMG, Roberto Galery.

Além da sinergia com centros de ensino e pesquisa, as mineradoras mantém iniciativas próprias de uso de seus resíduos. Inaugurada em 2020, a Fábrica de Blocos, da Vale, em Itabirito, deve transformar 30 mil toneladas de rejeito ao ano em produtos pré-moldados. Também em 2020, a Samarco asfaltou 10,5 km de estradas vicinais em Mariana, utilizando o rejeito de mineração – uma cobertura eficiente, duradoura e de baixo custo.

As ações e projetos de preservação da biodiversidade em áreas próximas às operações são outro ponto de atenção da agenda ESG. Segundo o professor de Engenharia de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Carlos Alberto Pereira, as companhias têm se destacado nesse quesito. “As áreas próximas às operações têm sido bem preservadas. É uma preocupação, mas também uma necessidade, pois as empresas precisam de recursos naturais além do minério, a exemplo da água”, apontou.

Aquecimento global

Tema central da agenda ESG, o aquecimento global vem sendo debatido exaustivamente em fóruns mundiais deste século, como o Acordo de Paris, em 2015. Na ocasião, o Brasil se comprometeu a reduzir suas emissões de carbono, mobilizando a mineração a traçar estratégias progressivas para se tornar carbono neutro.

Para Ambrogi, o tempo mudou sensivelmente a relação do empresariado brasileiro com o tema. “Há 15 anos, as empresas não estavam preocupadas em reduzir as emissões. Elas estavam preocupadas se tinham potencial para gerar um projeto que pudesse ser comercializado rendendo uma receita adicional aos negócios. Isso mudou. Atualmente, há uma preocupação mais genuína com o tema”, pontuou.

Esse é o caso da Nexa Resources, que pretende reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 5% por tonelada de produto até 2025. Para atingir o objetivo, a companhia instalou uma caldeira de biomassa em Três Marias. Desde 2017, ela é alimentada com cavaco de madeira das florestas de eucalipto, gerando vapor e cogerando energia elétrica com biomassa. De 2017 a 2020, a solução diminuiu em 26% geração de CO2 em relação aos combustíveis fósseis.

“Várias mineradoras têm investido em energias renováveis para reduzir o consumo de energia elétrica da rede, que carrega outros fatores de emissão. Essas empresas estão por trás de projetos conhecidos de usinas fotovoltaicas. Se elas conseguirem eletrificar o consumo, com uma geração fotovoltaica exclusiva, será possível reduzir ou quase zerar suas emissões de carbono”, observou Ambrogi.

Transparência e fechamento de minas são principais desafios

Embora avancem na adoção de boas práticas ESG, as mineradoras ainda têm desafios singulares a enfrentar nessa agenda. Para os especialistas ouvidos pela reportagem, o fechamento de mina é um dos pontos mais falhos no planejamento das empresas. Para Roberto Galery, da UFMG, é preciso integrar os projetos, pensando-os do início ao fim. 

“Quando se fala de abertura de mina, o fechamento também deve ser pensado com estudos detalhados que contemplem a dinâmica local e benefícios sociais de longo prazo”, endossou Carlos Alberto Pereira, da Ufop.

Um dos pontos nevrálgicos das ações ESG, a comunicação e a transparência com as comunidades e a sociedade são outro desafio para o setor. Para os especialistas, um diálogo mais efetivo poderia aproximar a sociedade e provocar reflexões a respeito dos benefícios do setor, não apenas seus impactos.

Para melhorar esse cenário, o Ibram – com envolvimento das mineradoras, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros de Minas Gerais – lançará em julho um aplicativo para monitoramento da situação das barragens em tempo real. “Será possível localizar as barragens e saber da situação de cada uma, de possíveis áreas de inundação e rotas de fuga em caso de acidentes”, detalhou Nery.

Gigantes miram futuro descarbonizado

A eletrificação de veículos e máquinas aponta para um amanhã com operações neutras em carbono, uma das premissas da agenda ESG. Porém, o maior gargalo das empresas para a troca de veículos convencionais pela versão eletrificada reside na ausência de dispositivos de armazenagem de energia com capacidade de funcionamento contínuo, sem as indesejáveis e improdutivas interrupções para fins de recarregamento.

Nesse sentido, as gigantes mundiais do setor, Vale, BHP e Rio Tinto, lançaram o Charge On Innovation Challenge. O desafio global de inovação – anunciado em maio de 2021 – visa a acelerar o carregamento seguro de baterias para caminhões elétricos fora de estrada. O tema é central para as operações de mineração, já que os caminhões movidos a diesel respondem por até 80% das emissões de carbono nas minas.

Segundo a Vale, dentre as 350 empresas de 19 setores e 16 mineradoras participantes, 21 foram convidadas a detalhar seus projetos. Posteriormente, oito foram selecionadas em maio para acelerar o desenvolvimento de tecnologias de carregamento de baterias em parceria com as mineradoras, fabricantes de equipamentos e investidores.

Embora tenha sido procurada, a Vale não disponibilizou uma fonte para falar a respeito do desafio. Diretor de aprovisionamento do Grupo BHP, James Agar, demonstrou entusiasmo com o interesse de diversos setores em contribuir para uma mineração mais sustentável. 

“A natureza global das oito empresas de tecnologia selecionadas demonstra o nível de interesse que existe em trabalhar em estreita colaboração com o setor de mineração na busca por soluções para descarbonizar as frotas de mineração”, arremata.

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