Políticas devem focar vagas e empreendedorismo

15 de abril de 2022 às 0h29

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Crédito: Alisson J. Silva/Arquivo DC

A taxa de desemprego dos jovens, na faixa etária de 18 a 34 anos em Minas Gerais, no último quadrimestre de 2021, foi de 12,5%. No Estado, eles têm uma participação de 80,6% no mercado de trabalho formal, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A melhora do cenário passa necessariamente pela educação e por políticas públicas direcionadas também ao empreendedorismo.

Sem a juventude, não há desenvolvimento econômico. Por isso, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, é preciso investir não somente em educação, mas também em condução dos setores econômicos e orientação do jovem para a geração de renda.

Na semana em que se comemorou o Dia Internacional do Jovem, o projeto #JuntosPorMinas, do DIÁRIO DO COMÉRCIO, aborda a juventude no mercado de trabalho do Estado. 

O projeto discorre sobre temas que representam desafios e gargalos para o Estado, mas que podem ser transformados em oportunidades de crescimento econômico e inclusão. Confira a seguir.

Educação é essencial, mas não é tudo

A última década foi marcada por algumas mudanças. De 2012 a 2021, a quantidade de jovens com nível superior aumentou, anualmente, 4,2% em Minas Gerais e 3,8% no Brasil. Para o economista e pesquisador do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da UFMG, Mário Rodarte, é um excelente sinal a educação ter avançado e isso deve e precisa ser ampliado. Porém, educar não é o único pilar de desenvolvimento.

 “Pudemos notar que há jovens qualificados. Mas o mercado de trabalho não os absorve totalmente. Isso acontece porque existe um caminho natural de experiência e, para uma vaga qualificada, a empresa vai exigir mais que diploma, precisa de experiência. Existe um quadro de desemprego crescente nesse grupo, porque tem um apagão de vagas qualificadas na maioria dos casos. E aí começa a precarização”.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) do IBGE, entre os anos de 2012 e 2021, mostra que a quantidade de assalariados no País e em Minas reduziu  em 1,1% e 0,9%, respectivamente, em média, a cada ano. Já o percentual de jovens apostando na livre iniciativa aumentou 3,8% ao ano no Estado e 2,5% no País. A taxa de desemprego cresceu  4,5% em Minas e 5,2% no Brasil para aqueles com idades entre 18 e 34 anos.

“É visto que não foi desenvolvida uma política industrial capaz ativar o setor produtivo a ponto de absorver todos os jovens qualificados disponíveis. Isso pode explicar também uma queda na contratação por carteira assinada e um aumento da livre iniciativa, especialmente aquela por conta própria. É o jovem criando um espaço no mercado de trabalho para si. O que é ótimo, ativa as possibilidades de empreendedorismo”, afirma.

Contudo, o economista alerta que empreender não deve ser uma saída e sim uma decisão. “Improvisar um negócio para sobreviver é precarização e não solução econômica eficaz para o desenvolvimento econômico. E é preciso separar muito bem tais conceitos para o jovem não cair em uma cilada”. 

Saídas

Para Mário Rodarte, do Cedeplar, ampliar políticas públicas de inserção do jovem no mercado de trabalho é investir em desenvolvimento econômico. “Se entendemos a economia como uma máquina que articula capital, trabalho e fontes, ter subutilização de mão de obra na juventude é ainda mais impactante, porque estes deveriam ser os profissionais sendo capacitados para serem os líderes das próximas décadas. Por isso, precisamos combinar a escolarização com a permanente atração de possibilidades que viabilizem o equilíbrio entre demanda e oferta de vagas de serviços qualificados”, apontou.

Para isso, segundo Rodarte, os setores financeiros precisam estar alinhados aos setores produtivos, tornando-se cada vez mais braços de geração de créditos para empreendimentos. “É dentro deste conceito de ‘Ética de Projetamento Diferente’, que deve ser constantemente atualizado, que devemos seguir com nossa juventude”.

Já a gerente de Educação e Empreendedorismo do Sebrae Minas, Fabiana Pinho,  explica que, como nem todos os jovens conseguem ter imediatamente um emprego formal ao completar 18 anos, investir em educação empreendedora como uma ferramenta de transformação é fundamental.

“A educação empreendedora transforma perspectivas dos jovens e isso fomenta a economia do presente e do futuro. A juventude empreendedora não está na inércia e este movimento é fundamental para o engajamento no mercado de trabalho de jovens, principalmente os menos favorecidos socioeconomicamente. É por isso que projetos, como por exemplo o NEJ (Núcleo de Empreendedorismo Juvenil, do Sebrae), são instrumentos para uma grande organização social, que deve ser reforçada e ampliada, para que Minas Gerais de fato avance”, destacou.

Decisões não podem ser tomadas com imediatismo

Empreender,  muitas vezes, pode ser a saída, mas não deve ser uma decisão imediatista tomada pelo jovem. É o que destaca o presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos em Minas Gerais, Leandro Pinho.

“Existem etapas de desenvolvimento a serem cumpridas. O caminho do emprego com carteira assinada é tão rico quanto o empreendedorismo. Para aqueles que puderem escolher, empreender com mais experiência é mais assertivo. Em qualquer situação, a troca intergeracional é uma promissora troca. E a busca pelo autoconhecimento, a proatividade, a resiliência e a construção de bons relacionamentos, são fundamentais”, aconselha.

Mas há casos em que o imediatismo foi a única saída, e deu certo. Sem conseguir emprego após se formar, Wericson Souza, de 26 anos, e morador de Belo Horizonte, decidiu empreender sem nem mesmo entender o que era isso. Ainda adolescente, estruturou uma rede de revendedores, ampliou o mix de produtos e manteve um negócio. Werickson estudou administração no Sebrae/MG. Para direcionar o talento, montou uma empresa de chocolates.

“Quando me formei, não encontrei emprego, tinha qualificação e vontade de empreender. Vi nesse nicho uma possibilidade. Comecei com R$ 50, aperfeiçoei a estrutura da venda das balas nas escolas e montei uma rede de revendas de chocolates entre amigos e conhecidos. O negócio cresceu, virou marca, a Provocatto Cacau. Em dois anos, abri duas lojas”, contou o jovem.

Planejamento

 Já Graziela Alves, de 27 anos, planejou a realização do sonho de empreender. Ela teve a oportunidade de trabalhar com carteira assinada por duas vezes. Decidiu estudar porque almejava abrir um negócio. Planejou e buscou se aprimorar no Núcleo de Empreendedorismo Juvenil (NEJ), iniciativa do Sebrae de Minas, que oferece gratuitamente curso técnico em administração para alunos de escolas públicas.

Depois de formada, pegou o acerto de R$ 1.600 e investiu em equipamento de fotografia.

Em seis anos, a ParMio se tornou uma empresa de foto e vídeo especializada em casamentos. Além da renda, a empresa é a realização de um sonho para ela, que se preparou para empreender. “Eu era infeliz porque não fazia o que gostava e como queria. Tenho o perfil empreendedor e aposto neste formato de trabalho. Mesmo com todas as dificuldades de manter um negócio, em cenário de pandemia, é muito bom estar onde a gente sabe fazer bem nosso trabalho e pode geri-lo”.

Para driblar desemprego, Wericson Souza criou a Provocatto | Crédito: Divulgação

Pandemia afetou, porém recuperação foi rápida

Os dois últimos anos foram mais duros para jovens entre 18 e 25 anos, revelam dados do Caged em levantamento feito pelo Ministério do Trabalho. Nos primeiros três meses de 2020, houve uma queda de 22% na quantidade de empregos formais em Minas Gerais para essa faixa etária. Porém, a recuperação também foi mais rápida nessa idade e o ano fechou positivo com a criação de 86 mil novos empregos.

Em todo ano de 2021, 58% dos novos postos de trabalho foram nesse grupo. Já nos dois primeiros meses de 2022, pessoas com até 25 anos foram 49,4% das contratadas com carteira assinada. Na comparação do primeiro bimestre dos 3 anos, a evolução fica assim: em 2020, 61% do total dos novos empregos foram para quem tinha entre 18 e 25 anos; em 2021, o percentual era 45,7%; e, em 2022, 49%.

A pesquisadora da Fundação João Pinheiro (FJP) Nícia Raies Moreira de Souza explicou que os impactos da pandemia aumentaram a necessidade de construir a economia com a juventude, com mais políticas públicas e iniciativas nesse sentido.

“Poder público, empresas, sociedade e até mesmo os próprios jovens devem estar permanentemente alinhados na construção de um projeto público que fomente a construção de carreiras, aumento de produtividade, com ênfase especialmente nas necessidades que contemplem as demandas dos subgrupos. Em um Estado tão grande e diverso é preciso fazer recortes de cor, gênero e etnias, ainda parcelas ainda menos contemplados nas políticas para a juventude”.

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