Popularização dos elétricos é inevitável

25 de março de 2022 às 0h29

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Transição começa com micro híbridos, passa pelos híbridos até chegar nos puramente elétricos | Crédito: Divulgação

“O novo sempre vem”, já disse o poeta e cantor Belchior na letra de “Como nossos pais”, canção divulgada mundialmente nas vozes dele e de Elis Regina. Aplicando essa afirmação a um assunto nada poético e que tem pesado na vida dos brasileiros – o uso de combustíveis fósseis-, surge um debate sobre “o novo” que vem batendo à porta do País, timidamente, há alguns anos: os carros elétricos.

Em processo de popularização na Europa, Estados Unidos e China, esse é um mercado que inevitavelmente vai crescer no Brasil nos próximos anos, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, seja pelas questões ambientais e mudanças de comportamento do consumidor, como acontece nesses países citados, seja motivado por questões econômicas.

Com um “delay tecnológico” em relação às grandes potências mundiais, em cinco anos, os elétricos devem começar a se popularizar no País, num movimento semelhante ao que acontece hoje na Europa, segundo estima representante a Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE). Conforme a entidade, o Brasil deve atingir até o meio do ano a marca de 100 mil veículos do tipo vendidos.

Mas, para o carro elétrico realmente ser acessível às massas e fazer seu papel ambiental, muito precisa ser feito por aqui. O dever de casa para colocar esses veículos em pé de igualdade na concorrência com os carros à combustão passa por mais incentivos à pesquisa, à cadeia produtiva e ao consumidor. São necessárias ainda mais políticas públicas locais e nacionais. A ampliação da geração de energia elétrica nas diferentes fontes renováveis também é apontada como importante pelos especialistas.

Enquanto tudo não acontece, os carros elétricos ainda representam um percentual ínfimo na frota do País. Igualmente, acontece em Minas Gerais e em Belo Horizonte, onde não chegam nem a meio por cento da frota total, sendo acessíveis, por enquanto, somente às classes mais abastadas. Mesmo assim, o uso vem aumentando aos pouquinhos. Na capital mineira, o número de unidades em circulação mais que dobrou de 2020 para 2021 (veja quadro). E no Estado, cresceu mais de 90% no período.

A mobilidade elétrica é tema do #JuntosPorMinas desta semana. O projeto do DIÁRIO DO COMÉRCIO aborda desafios e gargalos de Minas que podem ser transformados em oportunidades de crescimento econômico e inclusão social. Confira a seguir.

Multinacionais forçarão transição por aqui, diz especialista

“Sim, os carros elétricos vieram para ficar e serão, mais rápido do que se imagina, acessíveis ao consumidor médio”. A afirmação é do professor e pesquisador do Departamento de Engenharia Elétrica da UFMG, Thales Alexandre Carvalho Maia. Segundo ele, que acompanha as inovações na área, como se trata de um movimento mundial pautado principalmente em questões ambientais e em mudanças no comportamento dos consumidores, é improvável que o Brasil ignore essa transição já iniciada lá fora.

Isso porque as grandes montadoras estão modificando suas linhas de montagem em países europeus, Estados Unidos e na China, focadas na produção exclusiva de veículos elétricos até 2030. Segundo Maia, como muitas são multinacionais com plantas aqui no Brasil, é pouco provável que mantenham fábricas voltadas para veículos à combustão somente para atender ao público brasileiro.

A Stellants (Fiat, Jeep, Citroën e Peugeot), por exemplo, anunciou na semana passada o lançamento de modelos híbridos e elétricos na América do Sul até 2025 e objetivo de 20% de participação dos eletrificados nas vendas até 2030. A companhia também anunciou recentemente a criação de uma joint venture com a LG para a fabricação de baterias de lítio no Canadá.

“A partir do momento em que uma multinacional já definiu que vai operar somente com a produção de veículos elétricos, manter uma fábrica no Brasil exclusiva para carros com motor à combustão, inevitavelmente, vai conduzir a um cenário de fracasso. Isso porque a cabeça, o desenvolvimento, a pesquisa e o investimento vêm de fora, onde já estão em outro patamar. Então, essa transição vai acontecer aqui, pois as principais montadoras são de fora”.

Outro ponto, que segundo ele também favorece essa popularização, é o grande investimento em pesquisa e desenvolvimento para autonomia das baterias, antes apontada como um dos principais obstáculos a esse tipo de veículo. “Hoje, há no mercado mundial baterias que permitem autonomia de até 300 km. É um mito afirmar que esse ainda é um gargalo.”

Mas para que tudo seja uma realidade aqui no Brasil, para Minas Gerais, Belo Horizonte, ainda há desafios. Um deles, aponta Thales Maia, são políticas nacionais e locais de incentivos à cadeia produtiva. Para ele, o Rota 2030, programa federal que apoia o desenvolvimento tecnológico e inovação na cadeia automotiva, tem sido importante, e continuará sendo, principalmente, para a adaptação da cadeia à realidade elétrica que se avizinha.

“Mas é preciso também incentivos fiscais à indústria e ao consumidor. O carro elétrico no Brasil hoje tem custo alto, pois é importado. Mas lá fora, a diferença de preços em relação aos veículos à combustão já não é tão alta. E preciso ainda outros estímulos ou subsídios. Em Xangai, por exemplo, o governo oferece uma série de incentivos para facilitar a compra. Na Alemanha e em cidades americanas isso também acontece.”

E o fator bolso é o que realmente pesa no comportamento do consumidor, segundo o doutor em economia e professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, Ricardo Machado Ruiz. Segundo ele, para baratear o custo, é preciso ter uma indústria voltada para isso, algo que não se constrói no curto prazo.

“Um carro elétrico hoje é um carro de luxo para o padrão brasileiro. Não temos produção nacional, nosso carro é importado. Não temos sistemas de abastecimento de carros elétricos popularizados. Ainda não temos autopeças, não temos fábricas de baterias, ou seja, não temos um complexo produtivo instalado. Acho difícil nos próximos cinco anos ter tudo isso”.

Para o diretor da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE), Davi Bertoncello, CEO da startup de mobilidade urbana Tupinambá, existe um horizonte de 5 anos para a massificação desses veículos o que inclui produção nacional e, por consequência, modelos mais competitivos com base de preço na faixa dos R$ 100 mil.

Colossus Cluster

Um dos projetos voltados à indústria de carros elétricos em Minas Gerais é o parque industrial Colossus Cluster, da Bravo Motor Company – BMC, fabricante de veículos e baterias elétricos, sediada nos Estados Unidos. Trata-se de um investimento de R$ 25 bilhõesO início das obras de construção da fábrica em Nova Lima, na Grande BH, tinha previsão para este semestre. 

Segundo o CEO, Eduardo Javier Munhoz, houve atrasos no processo de aquisição dos terrenos e atualmente o projeto se encontra em processo de licenciamento ambiental junto ao município. Segundo a Prefeitura de Nova Lima, a expectativa é de que o parque industrial gere em torno de 10 mil empregos diretos e indiretos na região.

Matriz energética precisa acompanhar demanda

A geração de energia elétrica no País é outro desafio para a sonhada popularização dos carros elétricos, segundo o doutor em economia e professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, Ricardo Machado Ruiz. Segundo ele, a matriz energética da forma em que se encontra hoje não supriria demanda de uma possível popularização desse tipo de veículo por aqui nos próximos anos.

“Não podemos ampliar a geração de energia elétrica com outra fonte emissora de CO2, como petróleo, diesel, gás, no uso de termoelétricas. Seria trocar seis por meia dúzia. Adicionar mais energia de hidrelétrica, que nós não temos hoje, não dá. Nossa eólica ainda é mínima e a solar ainda é insuficiente. Então, é preciso buscar soluções em ampliação da geração”

Mas para o professor e pesquisador do Departamento de Engenharia Elétrica da UFMG, Thales Alexandre Carvalho Maia, a oferta de energia acompanhará a demanda. “Existe um plano. Essa transição não se dará de uma hora para outra. O primeiro passo é passar pelos micro híbridos, o que já aconteceu lá fora, pelos híbridos e depois pelos puramente elétricos”, observou.

Da mesma opinião, compartilha Davi Bertoncello, diretor da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE) e sócio-diretor da Tupinambá Energia, que destaca um movimento comum em todo o mundo.

“O crescimento (do segmento de veículos elétricos) é acompanhado de investimentos no setor elétrico de maneira geral. Além disso, mais de 30% dos usuários de carros elétricos acabam por investir também em fonte de energia verde, principalmente as placas fotovoltaicas que passam a suprir a nova demanda, gerando autossuficiência”, disse.

A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) informou sobre os planos de investimento de R$ 22,5 bilhões nos próximos cinco anos para aumentar a geração e melhorar a transmissão e distribuição de energia no Estado. A companhia não confirmou se essa gradual popularização dos veículos elétricos nos próximos anos foi considerada um dos fatores de aumento da demanda por energia elétrica em Minas.

Etanol

Ricardo Ruiz afirmou que o Brasil produz etanol e que o combustível pode ser o caminho para se atingir metas de redução de emissão de CO2. “Seria melhor conseguir hoje tecnologias que combinam energia elétrica com motor a etanol. É uma solução interessante”, lançou.

E o lobby pelo etanol é considerado por Thales Maia exatamente um ponto que atrasa a popularização dos elétricos no País. “O etanol é muito importante e as metas de redução de poluentes estão voltadas para ele, mas acaba que as instabilidades do mercado de petróleo afetam o custo do etanol também por aqui”.

Número de carros em BH mais que dobrou em um ano

Dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-MG) mostram que em Minas Gerais, considerando veículos elétricos e também os modelos híbridos (aqueles que funcionam com recarga elétrica e outra fonte de combustível), houve crescimento de 93% da frota circulante de 2020 para 2021, passando de 3.443 veículos para 6.653 no ano passado (veja quadro). Em BH, o crescimento no mesmo período foi ainda maior que no Estado, de 103,7%, passando de 1.595 unidades para 3.250 em 2021. Mesmo assim as unidades não chegam nem a meio por cento na frota total da cidade e do Estado.

A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede) informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que há planos estratégicos para estimular a mobilidade elétrica no Estado, mas que os mesmos estão ainda em fase inicial, não sendo possível a divulgação. Vale lembrar que Minas Gerais aderiu no meio do ano passado à campanha global Race To Zero, cujo objetivo é zerar as emissões de CO2 até o ano 2050.

Já a Prefeitura de Belo Horizonte informou que o setor rodoviário tem grande peso nas emissões de gases de efeito estufa na cidade.  Segundo a PBH, 57% das emissões em Belo Horizonte vem dos cerca de 2 milhões de veículos, incluindo os quase 4 mil ônibus do sistema municipal.

Além da Política Municipal de Mitigação dos Efeitos da Mudança Climática, instituída pela Lei nº 10.175/2011, a principal política relacionada com a eletromobilidade é o Plano Diretor de Mobilidade Urbana de Belo Horizonte (PlanMobBH-2030), publicado em 2017.

Um dos eixos do PlanMobBH-2030 é a mudança da matriz energética do sistema de transportes, que deve ser operado por veículos de baixo impacto ambiental. A previsão é que Belo Horizonte tenha até 40% da frota renovada por veículos híbridos ou não movidos a combustível fóssil até 2030. Para atingir as metas, uma das medidas é promover a substituição gradativa da frota de transporte público por veículos com menor potencial de emissão de gases de efeito estufa.

As metas do município envolvem ainda reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 37% abaixo dos níveis de 2005 até 2025 e em 43% até 2030.

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