Profissionais que cumprem jornadas mais longas, como a escala 6×1, com até 44 horas semanais, recebem salários significativamente menores no Brasil. A constatação faz parte de um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que revela uma diferença salarial que pode chegar a 57,7% entre trabalhadores com cargas horárias distintas.
O estudo, baseado em dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2023, mostra que empregados com jornadas de até 40 horas semanais recebem, em média, R$ 6.211. Já aqueles que trabalham 44 horas ganham cerca de R$ 2.626, o equivalente a pouco mais de 42% desse valor.
A pesquisa indica que sete em cada dez trabalhadores com carteira assinada no país estão submetidos à jornada de 44 horas semanais. Esse modelo representa cerca de 31,8 milhões de vínculos formais e predomina no mercado de trabalho brasileiro.
Em contrapartida, apenas 9% dos trabalhadores possuem contratos de 40 horas semanais, enquanto 11% atuam em jornadas de até 36 horas. Há ainda uma parcela menor, cerca de 3%, que trabalha além das 44 horas formais.
Além da diferença salarial, o estudo aponta que vínculos com jornadas mais extensas tendem a apresentar maior rotatividade e menor estabilidade no emprego.
Escolaridade influencia remuneração
Um dos principais fatores associados à disparidade salarial é o nível de escolaridade. Segundo o levantamento, trabalhadores com menor qualificação concentram-se nas jornadas mais longas e nos salários mais baixos.
Entre as ocupações mais afetadas estão funções operacionais, como trabalhadores do comércio, atendentes, operadores de máquinas, mecânicos e atividades agropecuárias. Nesses segmentos, entre 80% e 90% dos profissionais trabalham mais de 40 horas por semana.
Debate avança no Congresso
O tema ganhou força no cenário político com o avanço de propostas que discutem o fim da escala 6×1. A Câmara dos Deputados já aprovou, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a admissibilidade de propostas de emenda à Constituição que tratam da redução da jornada.
Entre as medidas em discussão estão a diminuição da carga semanal para até 36 horas e a adoção de modelos com mais dias de descanso. As propostas ainda serão analisadas por uma comissão especial antes de seguirem para votação em plenário.
O debate envolve impactos econômicos e sociais, incluindo produtividade, qualidade de vida e custos para empresas. Enquanto especialistas apontam possíveis ganhos para os trabalhadores, o tema ainda enfrenta resistência em parte do setor produtivo e no próprio Congresso.




