A Organização Mundial da Saúde acionou o mais alto mecanismo de emergência sanitária ao declarar que atual surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda representa uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII). O anúncio foi feito no domingo (17) pelo diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus.
Trata-se da nona vez na história que a OMS utiliza esse instrumento de urgência e da terceira relacionada ao vírus Ebola. Apesar do nível máximo de alerta, a organização destacou que a situação ainda não atende aos critérios para ser considerada uma pandemia.
O alerta internacional ocorre diante do avanço do surto provocado pela variante Bundibugyo do vírus Ebola, para a qual ainda não existem vacinas ou medicamentos aprovados especificamente.
Segundo a OMS e o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças, o surto já figura entre os maiores registrados envolvendo a variante Bundibugyo.
Na República Democrática do Congo, o foco principal está na província de Ituri, no leste do país. Dados recentes apontam cerca de 395 casos suspeitos e 106 mortes notificadas. A OMS confirmou ao menos oito casos laboratoriais, além de suspeitas distribuídas em três zonas sanitárias, incluindo Bunia, capital de Ituri, e as cidades mineradoras de Mongwalu e Rwampara.

A doença também alcançou outras áreas urbanas. Um caso foi confirmado em Kinshasa, capital congolesa, envolvendo um paciente que retornava de Ituri. Outro caso foi registrado em Goma, cidade atualmente controlada por rebeldes do M23.
Em Uganda, país vizinho, dois casos foram confirmados em viajantes vindos da RDC. Um homem de 59 anos morreu após testar positivo. O governo ugandense informou que a vítima era cidadã congolesa e que o corpo já foi devolvido ao país de origem.
A OMS alertou que a combinação entre crise humanitária, insegurança armada, intensa mobilidade populacional e presença de estruturas médicas informais eleva significativamente o risco de disseminação regional.
Sintomas e transmissão
O Ebola é uma doença viral grave e potencialmente fatal. Os primeiros sintomas incluem febre, fadiga, dores musculares, dor de cabeça e irritação na garganta.
Com a progressão do quadro, podem surgir vômitos, diarreia, erupções cutâneas e sangramentos.
Autoridades sanitárias reforçaram preocupação especial com funerais comunitários, prática que historicamente contribuiu para a disseminação do vírus em surtos anteriores, devido ao contato direto com corpos infectados.
Africa Centres for Disease Control and Prevention pediu que a população siga rigorosamente protocolos de saúde pública e orientações sobre manejo de vítimas fatais.
Sem vacina específica, OMS avalia alternativas
A atual cepa pertence à espécie Bundibugyo, identificada pela primeira vez em 2007 e associada a apenas dois surtos anteriores, em 2007 e 2012.
Embora apresente taxa de letalidade considerada menor que outras variantes do Ebola, como Zaire e Sudão, especialistas estimam mortalidade próxima de 50%, mantendo o vírus entre as ameaças infecciosas mais perigosas do mundo.
Sem vacina específica aprovada para essa espécie, cientistas e a OMS discutem a possibilidade de testar a vacina Ervebo, desenvolvida originalmente contra o Ebola da linhagem Zaire.
Pesquisas em primatas sugeriram proteção parcial cruzada. Em estudo publicado em 2011, três de quatro macacos previamente vacinados sobreviveram após exposição ao vírus Bundibugyo, embora todos tenham apresentado sintomas da doença.
Os resultados, porém, ainda geram divergências entre especialistas.
Países reforçam vigilância nas fronteiras
Diante do avanço do surto, governos vizinhos começaram a adotar medidas preventivas.
Ruanda anunciou reforço no monitoramento sanitário da fronteira com a República Democrática do Congo e colocou equipes de saúde em estado de alerta para detecção precoce de casos.
A OMS recomendou que RDC e Uganda criem centros de operações emergenciais para monitoramento, rastreamento de contatos e isolamento imediato de infectados até que dois testes negativos, realizados com intervalo mínimo de 48 horas, confirmem a recuperação.
Ao mesmo tempo, a organização reiterou que não recomenda fechamento de fronteiras nem restrições a viagens e comércio.




