Militares e embarcações da Marinha do Brasil terão autorização para entrar em território argentino a partir desta segunda-feira (10), em meio à crise diplomática entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei. A movimentação, porém, não representa uma invasão ou ação militar contra a Argentina: trata-se de um exercício naval conjunto programado entre os dois países.
A autorização foi assinada por Milei e publicada no Boletim Oficial argentino. O documento permite a participação brasileira na Fraterno XXXIX, operação bilateral realizada anualmente desde 1978 para ampliar a integração e a capacidade de atuação conjunta das Marinhas brasileira e argentina. O exercício está previsto para ocorrer entre 13 e 24 de agosto, nas regiões das bases navais de Puerto Belgrano e Mar del Plata.
A realização da atividade ganha destaque justamente porque ocorre poucos dias depois de o Brasil rebaixar o nível da relação diplomática com a Argentina.
Entre os equipamentos brasileiros autorizados para a operação estão a fragata Tamandaré, com 135 militares, a fragata Niterói, com 200 integrantes, o navio de socorro submarino Guillobel, com 80 tripulantes, e o submarino Riachuelo, com 35 militares.
Também está prevista a participação de integrantes do Estado-Maior, aviadores navais e especialistas da Marinha brasileira.
O exercício contará ainda com o submarino Humaitá, incorporado à Marinha Brasileira em 2024. A missão será especialmente relevante para a embarcação, que fará sua primeira operação internacional em águas argentinas.
Segundo o governo argentino, a presença dos dois países busca aperfeiçoar o treinamento e a interoperabilidade em operações navais, aeronavais e anfíbias, além de padronizar procedimentos de planejamento e comando.
Operação ocorre em meio à crise entre Lula e Milei
A autorização argentina ocorre em um momento incomum das relações bilaterais. Em 5 de agosto, o governo brasileiro confirmou o rebaixamento das relações diplomáticas com a Argentina, mantendo a representação em Buenos Aires no nível de encarregado de negócios. A decisão veio após uma sequência de críticas públicas de Milei a Lula.
A crise se agravou depois que o presidente argentino participou de um evento político em São Paulo para apoiar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). Na ocasião e em declarações posteriores, Milei voltou a atacar Lula, utilizando termos como “ladrão”, “corrupto” e “presidiário”.
O governo brasileiro havia convocado o embaixador Julio Bitelli para consultas e posteriormente decidiu que ele não retornaria ao posto em Buenos Aires. A Argentina classificou a decisão como lamentável, mas informou que não adotaria uma retaliação diplomática.
Argentina mantém cooperação militar com o Brasil
Apesar do desgaste político, o governo Milei decidiu preservar a cooperação militar com o Brasil. O decreto argentino afirma que a participação no Fraterno demonstra o compromisso do país com a segurança internacional e a estabilidade regional, além de reforçar a parceria estratégica entre as duas nações.
O governo argentino também argumentou que a ausência da operação prejudicaria o treinamento em atividades conjuntas de alta complexidade com a Marinha brasileira.
A realização do exercício evidencia, portanto, que a crise entre os governos não interrompeu todas as áreas de cooperação entre Brasil e Argentina. Enquanto a relação diplomática enfrenta um dos momentos mais delicados dos últimos anos, as Forças Armadas dos dois países mantêm uma agenda conjunta previamente estabelecida no Atlântico Sul.












