Os óculos inteligentes capazes de gravar vídeos, tirar fotos e utilizar recursos de inteligência artificial estão se popularizando em diferentes países, mas a tecnologia também começa a enfrentar restrições. A possibilidade de registrar imagens de pessoas sem que elas percebam levou estabelecimentos a discutir ou adotar proibições, enquanto autoridades europeias analisam os impactos do dispositivo sobre privacidade e vigilância.
No Reino Unido, cinemas já estudam impedir que clientes utilizem os chamados smart glasses durante as sessões. A preocupação principal é que os equipamentos possam ser utilizados para realizar gravações clandestinas de filmes e facilitar a pirataria.
A discussão ocorre paralelamente a uma decisão da Comissão Europeia relacionada à comercialização desses dispositivos. O órgão apresentou uma alteração nas regras sobre baterias que abre caminho para a expansão de produtos vestíveis, incluindo os óculos inteligentes da Meta.
Cinemas e teatros começam a reagir
A UK Cinema Association (UKCA), entidade que representa o setor cinematográfico britânico, informou que algumas redes locais podem adotar políticas para restringir o uso de óculos equipados com câmeras dentro das salas.
A entidade afirmou que ainda não tinha conhecimento de proibições adotadas por seus associados, mas reconheceu que os administradores terão de avaliar os riscos relacionados às gravações e, ao mesmo tempo, os benefícios oferecidos pela tecnologia.
Os dispositivos também podem desempenhar funções de acessibilidade. Entre os recursos possíveis estão legendas personalizadas e ferramentas capazes de auxiliar pessoas com deficiência visual ou auditiva.
No entanto, a preocupação com gravações sem autorização já levou outros espaços a agir.
A Monopoly Events, responsável pela organização de eventos como a Comic-Con no Reino Unido, anunciou que os óculos da Meta estão proibidos em seus eventos. A decisão ocorreu depois de participantes relatarem desconforto após serem filmados sem autorização. Quem for identificado usando dispositivos de gravação poderá ser retirado do local.
A ATG Theatres, que administra teatros em Londres, Bristol e Edimburgo, também confirmou a proibição. Os usuários que forem identificados com os óculos deverão retirá-los.
Restaurantes, pubs e outros estabelecimentos também passaram a discutir medidas semelhantes diante das preocupações com privacidade.
Tecnologia enfrenta debate sobre privacidade
Os modelos mais recentes combinam câmeras, microfones e inteligência artificial em um formato semelhante ao de óculos convencionais. Isso permite ao usuário registrar acontecimentos sem precisar sacar um celular.
É justamente essa característica que gera parte da controvérsia.
Em ambientes públicos, uma pessoa pode ser filmada sem necessariamente perceber que está diante de uma câmera. A preocupação aumenta em locais nos quais a expectativa de privacidade ou de controle sobre a própria imagem é maior.
O tema ganhou ainda mais repercussão depois de um episódio na Escócia envolvendo um criador de conteúdo do TikTok. Ele teria utilizado óculos inteligentes para filmar funcionários de uma empresa de balsas durante uma visita ao local sem que eles soubessem.
A situação chegou a provocar uma interrupção temporária das operações da empresa enquanto o caso era investigado.
Pesquisadores da Universidade de Sydney também analisaram 350 vídeos públicos publicados no Instagram entre 2023 e 2026. As gravações, feitas em diferentes partes do mundo, mostram homens que se apresentam como “pick-up artists” abordando mulheres em espaços públicos.
O levantamento acrescenta outra dimensão ao debate sobre dispositivos capazes de filmar de maneira discreta: a facilidade de produzir e publicar imagens de terceiros sem consentimento.











