A inclusão de apenas 10 minutos de atividade física por dia na rotina pode representar uma diferença significativa para a saúde da população idosa. Um estudo conduzido por pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos estima que, caso adultos atualmente sedentários passem a praticar exercícios durante esse período mínimo diariamente, aproximadamente 420 mil casos de demência poderiam ser prevenidos até 2050. A mudança também poderia representar uma economia de até R$ 16 bilhões em custos relacionados à doença.
A estimativa reforça a importância de combater o sedentarismo mesmo quando não é possível realizar longos períodos de exercícios. Para os pesquisadores, pequenas mudanças na rotina podem ampliar a quantidade de pessoas fisicamente ativas e, consequentemente, contribuir para a redução do impacto da demência sobre indivíduos, famílias e sistemas de saúde.
Além das evidências relacionadas especificamente à demência, outra pesquisa recente ajuda a explicar por que períodos curtos de atividade física podem produzir respostas importantes no organismo.
Um estudo publicado no International Journal of Cancer, conduzido por pesquisadores da Newcastle University, analisou 30 homens e mulheres entre 50 e 78 anos, todos com sobrepeso ou obesidade, mas considerados saudáveis. Os participantes realizaram um exercício de ciclismo de aproximadamente 10 minutos, em intensidade suficiente para provocar respiração acelerada.
A equipe coletou amostras de sangue antes e imediatamente depois da atividade e analisou 249 proteínas. Dessas, 13 apresentaram aumento expressivo após o exercício. Entre elas estavam moléculas relacionadas à redução de inflamações, ao funcionamento dos vasos sanguíneos e à regulação do metabolismo energético.
Um dos destaques foi a interleucina-6 (IL-6), associada a processos de reparação do DNA.
Os pesquisadores também observaram que o sangue coletado após a atividade física provocou alterações na atividade de mais de 1.300 genes em células de câncer de intestino cultivadas em laboratório. Entre as mudanças estavam mecanismos ligados à reparação do DNA, à produção de energia e ao crescimento celular.
Exercício pode atuar em diferentes mecanismos
Segundo os resultados da pesquisa britânica, a atividade física aumentou a atuação de genes relacionados ao metabolismo energético das mitocôndrias, permitindo que as células utilizassem oxigênio de maneira mais eficiente. Ao mesmo tempo, genes associados à multiplicação acelerada das células apresentaram redução de atividade.
Um dos genes envolvidos na reparação do material genético foi o PNKP, cuja atividade aumentou após a exposição das células ao sangue coletado depois do exercício.
Os autores avaliam que essas descobertas podem, futuramente, contribuir para o desenvolvimento de tratamentos capazes de reproduzir ou potencializar alguns dos efeitos biológicos provocados pelo exercício.
É importante ressaltar, porém, que esse segundo estudo investigou mecanismos relacionados ao câncer de intestino, e não à prevenção da demência. A estimativa de 420 mil casos de demência evitados até 2050 pertence à pesquisa conduzida por cientistas brasileiros e americanos mencionada inicialmente.
Caminhar também conta
A atividade física não precisa necessariamente envolver academia, corrida ou exercícios de alta intensidade. Caminhar, andar de bicicleta, cuidar do jardim, realizar tarefas domésticas e outras atividades que aumentem a movimentação diária também podem contribuir para uma rotina mais ativa.
No caso do câncer de intestino, os pesquisadores citam evidências de que a prática regular de atividade física está associada a uma redução de aproximadamente 20% no risco da doença.
O câncer de intestino é o quarto tipo de câncer mais diagnosticado no Reino Unido, atrás dos tumores de mama, próstata e pulmão. Estimativas apontam para quase 44 mil novos casos por ano no país, com uma morte registrada aproximadamente a cada 30 minutos.
Já no campo da demência, a projeção de centenas de milhares de casos potencialmente evitáveis evidencia o peso que mudanças comportamentais podem ter em escala populacional. A proposta não é transformar 10 minutos em uma fórmula capaz de impedir a doença, mas mostrar que começar a se movimentar pode ser mais acessível do que muitas pessoas imaginam.










