O planeta acaba de registrar mais um sinal preocupante do avanço do aquecimento global. Agosto foi considerado o mês mais quente já observado em conjunto com julho de 2023, segundo o serviço climático da União Europeia. A temperatura média global ficou 1,65°C acima dos níveis registrados no período pré-industrial, ultrapassando novamente o limite de 1,5°C estabelecido como referência no Acordo de Paris.
O resultado é atribuído à combinação entre o aquecimento provocado pelas mudanças climáticas e a influência crescente do El Niño, fenômeno que contribui para elevar as temperaturas e transferir mais calor para a atmosfera, especialmente a partir das condições observadas no Pacífico.
Embora um único mês acima de 1,5°C não signifique que a meta climática tenha sido definitivamente ultrapassada, a sequência de temperaturas elevadas reforça a tendência de aproximação de um cenário considerado crítico pelos cientistas.

Calor extremo deixa consequências em diferentes regiões
O recorde de agosto encerrou o verão mais quente já registrado na Europa Ocidental. As temperaturas superaram inclusive os níveis observados durante o verão de 2003, período marcado por uma onda de calor que provocou milhares de mortes no continente.
Os efeitos do calor extremo registrado durante os últimos meses, porém, vão muito além dos termômetros. Incêndios florestais devastadores, prejuízos às plantações, aumento de mortes relacionadas às ondas de calor e interrupções no transporte e em serviços públicos foram registrados em diferentes países.
A produção de alimentos também entrou no radar das autoridades. Com colheitas menores em algumas regiões, os impactos sobre os mercados internos e a necessidade de aumentar importações podem pressionar ainda mais os preços dos alimentos.
El Niño pode intensificar o cenário
A preocupação para os próximos meses está relacionada também ao comportamento do El Niño. Segundo as previsões dos Centros Globais de Produção da Organização Meteorológica Mundial (OMM), existe uma probabilidade considerada excepcionalmente alta, próxima de 100%, de que o fenômeno permaneça ativo até fevereiro de 2027.
O cenário chama atenção porque o El Niño deve ganhar ainda mais força nos próximos meses, podendo atingir intensidade muito elevada e alcançar seu pico perto do fim deste ano. Os efeitos climáticos associados ao fenômeno podem continuar sendo sentidos ao longo de 2027.
O fenômeno está relacionado às condições excepcionalmente quentes das águas do Pacífico tropical. Seu fortalecimento pode contribuir para mudanças nos padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo, aumentando os riscos de secas, enchentes e outros eventos extremos.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, afirmou que comunidades e economias já enfrentam impactos associados a secas e inundações e que esses efeitos podem se intensificar conforme o El Niño avance.
Diversas regiões enfrentaram um verão mais seco
Os dados do serviço europeu Copernicus também apontaram condições mais secas do que o normal durante o verão em áreas da Europa Ocidental e Central, além de partes da Escandinávia e do sudeste europeu.
Fora da Europa, condições de seca também foram observadas em regiões do sul dos Estados Unidos, norte do México, partes do Canadá, Magrebe, Chifre da África, Sibéria, grandes áreas da Ásia Central, China, América do Sul, África do Sul e norte da Austrália.
A combinação entre temperaturas elevadas e menor disponibilidade de chuva aumenta a pressão sobre agricultura, abastecimento de água, ecossistemas e atividades econômicas.
Limite de 1,5°C ainda não significa ultrapassagem definitiva
A marca de 1,65°C acima do período pré-industrial é particularmente relevante por superar o patamar de 1,5°C associado ao Acordo de Paris. No entanto, a ultrapassagem registrada em um mês isolado não significa que o limite tenha sido definitivamente perdido.
A referência climática é avaliada em períodos mais longos. Para que se considere que o aquecimento global ultrapassou de maneira permanente esse patamar, temperaturas acima desse nível precisariam persistir durante anos.
Ainda assim, os sucessivos recordes servem como um alerta sobre a velocidade das mudanças climáticas. As Nações Unidas já reconheceram a possibilidade de um período de “overshoot”, no qual o aquecimento ultrapassa temporariamente os limites estabelecidos, antes de uma eventual estabilização.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o atual cenário como uma situação sem precedentes e defendeu uma resposta mais rápida à crise climática, com ampliação das energias limpas, proteção de florestas e oceanos e investimentos em adaptação.











