Passar horas sentado parece um hábito banal para quem trabalha diante do computador, estuda, assiste à televisão ou permanece por longos períodos no celular. No entanto, uma nova pesquisa indica que não é apenas o tempo total nessa posição que merece atenção. A maneira como esses períodos de inatividade são distribuídos ao longo do dia também pode estar relacionada à saúde.
Publicado na revista científica PLOS Medicine, o estudo analisou dados de participantes do UK Biobank e identificou uma associação entre períodos prolongados de sedentarismo e um risco maior de desenvolver câncer e morrer em decorrência da doença. A pesquisa chama atenção especialmente para o tempo passado sentado sem interrupções.
O resultado não significa que sentar seja, por si só, uma causa direta de câncer. Os próprios pesquisadores ressaltam limitações importantes e afirmam que os dados demonstram uma associação, não uma relação de causa e efeito. Ainda assim, os achados reforçam evidências anteriores sobre os possíveis efeitos negativos de permanecer imóvel por períodos extensos.
Durante muito tempo, pesquisas sobre comportamento sedentário concentraram-se principalmente na quantidade de horas que uma pessoa permanecia sentada diariamente. O novo trabalho acrescenta outra dimensão: a duração dos períodos contínuos de repouso.
De acordo com os resultados, a cada hora adicional de permanência prolongada sentado ao longo do dia, os participantes apresentavam um aumento significativo no risco de câncer e de mortalidade relacionada à doença.
A descoberta é especialmente relevante para quem passa grande parte da rotina em uma cadeira. Uma pessoa pode, por exemplo, fazer uma corrida ou frequentar a academia algumas vezes por semana e, ainda assim, permanecer sentada durante várias horas consecutivas no restante do dia.
Isso significa que a prática de exercícios continua sendo importante, mas pode não compensar completamente longos intervalos de inatividade.
Levantar por alguns minutos pode fazer diferença
Uma das mensagens mais práticas do estudo é que a mudança de comportamento não precisa necessariamente envolver exercícios intensos. Interromper períodos prolongados sentado com pequenas movimentações pode ser uma estratégia simples para reduzir o tempo de inatividade contínua.
Uma recomendação prática apresentada a partir dos achados é levantar a cada 20 ou 30 minutos e permanecer em movimento durante um ou dois minutos. Caminhar para buscar água ou café, afastar-se rapidamente da mesa ou permanecer de pé durante uma ligação são exemplos de pequenas mudanças possíveis na rotina.
A ideia não é substituir atividades físicas estruturadas, mas evitar que o corpo permaneça imóvel por longos períodos.
Exercitar-se não elimina o problema
A pesquisa também ajuda a explicar por que alguém fisicamente ativo ainda pode acumular muitas horas de comportamento sedentário.
Uma sessão de academia de uma hora, por exemplo, representa apenas uma pequena parte do dia. Se o restante da rotina for composto por várias horas sentado, especialmente em períodos ininterruptos, o padrão de atividade continua sendo predominantemente sedentário.
Por isso, os resultados não diminuem a importância da prática regular de exercícios. Pelo contrário: a atividade física permanece fundamental para a saúde. O alerta é que ela deve ser acompanhada, sempre que possível, por interrupções frequentes dos períodos prolongados de inatividade.
Estudo não prova que ficar sentado causa câncer
Apesar do impacto do resultado, é necessário evitar uma interpretação definitiva. O estudo identificou uma associação entre o comportamento sedentário prolongado e os desfechos relacionados ao câncer, mas não conseguiu demonstrar que permanecer sentado por longos períodos seja diretamente responsável pelo surgimento da doença.
Existe, inclusive, a possibilidade de ocorrer o fenômeno conhecido como causalidade reversa. Pessoas que já estejam desenvolvendo algum problema de saúde, mesmo antes de receberem um diagnóstico, podem começar naturalmente a permanecer mais tempo sentadas por causa de cansaço, fraqueza ou redução da capacidade de se movimentar.
Os pesquisadores tentaram diminuir essa possibilidade retirando da análise os dois primeiros anos de acompanhamento. A lógica foi excluir casos de câncer que já poderiam estar em desenvolvimento no início da pesquisa e, portanto, influenciando o comportamento dos participantes.
A estratégia aumenta a confiabilidade dos resultados, mas não elimina completamente essa possibilidade.











