Bangladesh enfrenta uma das mais graves ondas de sarampo dos últimos anos, mesmo após uma ampla campanha nacional de vacinação. Desde o início de 2026, o país registrou mais de 166 mil casos suspeitos da doença, incluindo 19.835 infecções confirmadas em laboratório. Até terça-feira, o número de mortes associadas a casos suspeitos havia chegado a 999, segundo a Diretoria-Geral de Serviços de Saúde do país.
A crise começou a ganhar força em março, quando mais de 100 crianças morreram em menos de um mês. Na tentativa de conter a disseminação, o governo iniciou uma campanha nacional em abril com a meta de imunizar 18 milhões de crianças entre seis meses e cinco anos, inclusive aquelas que já apareciam como vacinadas nos registros oficiais. O objetivo foi superado, com 18,4 milhões de aplicações.
Apesar do esforço, o surto não perdeu força. Dados divulgados pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) em agosto apontaram que Bangladesh havia registrado o maior número de casos de sarampo entre todos os países no período de janeiro a junho, com 57.561 ocorrências.
Em apenas 24 horas, no dia 31 de agosto, as autoridades contabilizaram 1.162 novos casos suspeitos e 94 confirmações. Já em 9 de setembro, o número de crianças mortas por casos suspeitos ou confirmados desde 15 de março ultrapassou mil, de acordo com a Diretoria-Geral de Serviços de Saúde.
Vacinação não alcançou todas as crianças
A persistência da doença revelou que a campanha realizada em abril não foi suficiente para fechar o déficit de imunização existente no país. Especialistas estimam agora que seriam necessárias 22,6 milhões de doses para alcançar todas as crianças que permanecem vulneráveis.

O especialista em vacinação Tajul Abdul Bari, ex-gerente do Programa Ampliado de Imunização do governo, defende uma nova campanha que possa alcançar crianças de seis meses até quase 10 anos. Segundo ele, ainda há muitas crianças sem nenhuma dose da vacina contra o sarampo, o que impede que o país considere a situação controlada.
A necessidade de ampliar a imunização é reforçada pelos dados sobre os pacientes. Segundo relatório do UNICEF, 72% dos casos registrados ocorreram entre pessoas que não haviam recebido nenhuma das duas doses recomendadas da vacina, enquanto outros 16% atingiram indivíduos parcialmente imunizados.
Para Jahangir Alam, coordenador divisional da Organização Mundial da Saúde em Dhaka, mesmo pequenas falhas na cobertura vacinal podem ser suficientes para desencadear novos surtos. Cada criança que permanece sem imunização representa, segundo ele, uma oportunidade adicional para a doença continuar circulando.
Desnutrição agrava quadro entre crianças
A situação também é agravada pelas condições nutricionais da população. A desnutrição disseminada em Bangladesh aumenta o risco de que uma infecção por sarampo evolua para formas graves e fatais.
No hospital Mohakhali DNCC, em Dhaka, a unidade passou a concentrar atendimentos exclusivamente em pacientes com sarampo. A diretora do hospital, coronel Latifa Rahman, afirma que crianças abaixo do peso ou que apresentam duas ou mais condições médicas simultaneamente tendem a sofrer consequências mais severas e podem apresentar rápida piora clínica.
A própria resposta imunológica proporcionada pela vacinação pode ser prejudicada pela desnutrição, tornando o problema ainda mais complexo. Dessa forma, a dificuldade não está apenas em ampliar o número de doses aplicadas, mas também em lidar com fatores que aumentam a vulnerabilidade das crianças infectadas e podem comprometer a proteção oferecida pelos imunizantes.
Diante desse cenário, o governo abandonou as previsões iniciais de que o surto seria rapidamente controlado. Em 19 de agosto, o ministro de Estado da Saúde, M.A. Muhit, afirmou que não havia espaço para garantias irreais e estimou que, mesmo se o ritmo de vacinação fosse dobrado, ainda seriam necessários de dois a três meses para que a epidemia fosse totalmente controlada.
Governo prepara novas doses
Em 18 de agosto, Bangladesh anunciou uma nova etapa de vacinação para alcançar mais 1,6 milhão de crianças. A medida foi adotada depois que as autoridades identificaram regiões onde crianças de seis meses a cinco anos ainda haviam ficado fora das campanhas anteriores.
O ex-secretário da Divisão de Serviços de Saúde, Md Kamruzzaman Chowdhury, informou que as 1,6 milhão de doses atualmente disponíveis serão utilizadas nessa nova operação. Paralelamente, o governo pretende adquirir outras 2,5 milhões de vacinas para evitar futuras interrupções provocadas pela falta de estoque.
As autoridades também já discutiram a compra dos imunizantes com o UNICEF. A estratégia é utilizar imediatamente as doses disponíveis e manter uma reserva adicional para responder a novos focos da doença.











