Trabalhar em casa pode eliminar o deslocamento, oferecer mais flexibilidade e facilitar a organização da rotina, mas a mudança também pode reduzir movimentos que aconteciam naturalmente ao longo do dia. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Turku, na Finlândia, mostrou que funcionários que trabalhavam remotamente permaneciam, em média, 44 minutos a mais sentados e passavam 58 minutos a menos realizando alguma atividade física em comparação aos dias em que trabalhavam presencialmente.
Publicado no International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, o levantamento acompanhou 97 trabalhadores híbridos durante uma semana. Os participantes utilizaram sensores presos à coxa, permitindo que os pesquisadores comparassem objetivamente os períodos de trabalho em casa e no escritório.
Como cada voluntário foi comparado consigo mesmo, o método permitiu identificar as mudanças relacionadas ao ambiente de trabalho sem depender apenas da percepção dos participantes sobre o quanto haviam se movimentado.

Parte da diferença observada pelos pesquisadores está relacionada a atividades que nem sempre são consideradas exercício. Caminhar até uma estação de trem, subir escadas, andar até uma reunião ou se deslocar dentro do ambiente de trabalho são pequenos movimentos que se acumulam ao longo do dia.
Uma revisão sistemática publicada em 2022 também encontrou diferenças relevantes entre trabalhadores remotos e pessoas que não trabalhavam de casa. A análise apontou redução de 30% no tempo de caminhada e queda de 34,7% na atividade física total entre funcionários em home office, além de aumento de 66,7% no comportamento sedentário.
A redução desses movimentos cotidianos, conhecida como atividade física não relacionada ao exercício, pode parecer pequena isoladamente, mas a repetição diária pode contribuir para alterações metabólicas. Pesquisas relacionam baixos níveis de movimento a maior resistência à insulina, aumento do acúmulo de gordura visceral e fatores de risco para doenças cardiovasculares, inclusive entre pessoas que praticam exercícios regularmente.
Postura e ambiente de trabalho também entram na conta
Outro possível efeito do trabalho remoto está relacionado ao sistema musculoesquelético. Em casa, é comum que a estrutura utilizada para trabalhar não tenha sido planejada para longos períodos diante do computador. Cadeiras de cozinha, sofás e até camas podem acabar funcionando como estações improvisadas.
Uma pesquisa de 2023 apontou que aproximadamente 61% dos trabalhadores remotos relataram problemas musculoesqueléticos novos ou agravados. Entre as queixas estão dores no pescoço, ombros, punhos e região lombar, frequentemente associadas à postura inadequada e à permanência prolongada em posições estáticas.
Além do desconforto imediato, a manutenção dessas condições por períodos prolongados pode favorecer problemas musculoesqueléticos persistentes. Por isso, pausas curtas para alongamento, mudanças frequentes de posição e uma cadeira adequada podem ajudar a reduzir a sobrecarga.
Excesso de telas pode afetar olhos e sono
O aumento do tempo diante das telas também é outro ponto de atenção. Reuniões virtuais, mensagens, sistemas corporativos e outras atividades digitais fazem com que o computador ou celular permaneça presente durante grande parte da jornada.
Pesquisadores da Universidade Stanford relacionaram a exposição intensa às telas durante o trabalho remoto a sintomas físicos como cansaço visual, dor de cabeça, visão embaçada e olhos secos. Em geral, essas manifestações são temporárias, mas a exposição prolongada pode contribuir para outros problemas, incluindo maior frequência de enxaquecas e alterações no sono.
A utilização de dispositivos eletrônicos próximo ao horário de descanso também pode interferir no ritmo circadiano, especialmente quando o período de trabalho se estende para além da jornada habitual.
Distância do escritório não elimina o estresse
O home office também pode alterar a relação entre trabalho e vida pessoal. Quando o computador fica a poucos passos do quarto ou da cozinha, torna-se mais fácil prolongar a jornada, verificar mensagens fora do expediente e manter a atividade profissional presente durante os períodos destinados ao descanso.
O estresse prolongado e a privação ou irregularidade do sono também são associados, em pesquisas, a alterações em regiões cerebrais envolvidas na memória e na regulação do humor. Levantamentos de grande escala ainda apontam que estresse e exaustão emocional permanecem frequentes entre trabalhadores remotos.
O isolamento, por sua vez, não representa apenas uma questão social. A redução das interações pode estar associada a problemas de saúde como doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral, alterações da resposta imunológica e declínio cognitivo.
Home office também pode trazer benefícios
Os impactos não são necessariamente negativos para todas as pessoas. Estudos mostram que o trabalho remoto pode proporcionar menor estresse, maior flexibilidade para a prática de exercícios e mais controle sobre a alimentação.
Para alguns trabalhadores, a ausência do deslocamento permite fazer uma caminhada pela manhã, realizar uma atividade física durante o intervalo ou preparar refeições em casa. O problema, portanto, não está simplesmente em trabalhar fora do escritório, mas na forma como a rotina é organizada.
Estabelecer horários definidos, fazer pausas, manter alguma atividade física durante o dia e separar o período profissional do tempo pessoal são medidas que podem ajudar. Especialistas também recomendam desligar notificações de trabalho fora do expediente, evitar manter o e-mail corporativo permanentemente disponível no celular e reservar um intervalo real para o almoço.











