A intensificação de eventos climáticos extremos ao longo dos últimos anos começa a pesar diretamente no orçamento das famílias e nas contas dos governos. O avanço de ondas de calor, enchentes, secas, incêndios e outros fenômenos associados às mudanças climáticas aumenta os prejuízos materiais e pode resultar em despesas maiores com seguros e impostos, além de pressionar os gastos públicos com reconstrução e saúde.
Calcular exatamente quanto o aquecimento do planeta vai custar à economia, porém, é uma tarefa considerada extremamente complexa por especialistas. O economista William Nordhaus, vencedor do Nobel de Economia de 2018 por seus trabalhos relacionados à modelagem climática, já destacou que estimar os danos econômicos provocados pelas mudanças climáticas é muito mais difícil do que calcular o custo necessário para reduzir as emissões responsáveis pelo aquecimento global.

Uma das principais formas utilizadas pelos economistas para dimensionar os impactos econômicos do clima é calcular quanto o Produto Interno Bruto (PIB) mundial poderá ser reduzido em diferentes cenários de aquecimento.
Em uma estimativa publicada em 2017, Nordhaus calculou que um aumento superior a 3°C na temperatura média global em relação aos níveis pré-industriais poderia provocar uma redução de 2,1% no PIB mundial até 2100. Em um cenário de elevação de 6°C, a perda estimada chegaria a 8,5%.
Estudos mais recentes, entretanto, apresentam números consideravelmente mais elevados. Algumas estimativas apontam que, mesmo em um cenário de aumento de 2°C, a economia global poderia sofrer uma redução de até 85% do PIB até 2100. Outros pesquisadores comparam os impactos de um mundo 3°C mais quente aos efeitos econômicos da Grande Depressão de 1929, mas com consequências permanentes.
A diferença entre as projeções evidencia uma das principais dificuldades para calcular o custo das mudanças climáticas. Ainda assim, o conjunto dos estudos mais recentes aponta para uma possibilidade comum: os impactos econômicos podem ser muito maiores do que se imaginava anteriormente.
Famílias já sentem o aumento dos custos
Um estudo de 2026 realizado pela MIT Sloan School of Management e pela UCLA School of Law calculou que as mudanças climáticas já acrescentam, em média, US$ 900 por ano às despesas de cada família nos Estados Unidos.
Em alguns locais, o impacto é ainda maior. Em um a cada dez condados americanos analisados, o custo anual ultrapassa US$ 1.300 por família.
Uma parcela importante desse aumento está relacionada aos seguros residenciais. Segundo o estudo, as mudanças climáticas elevaram em aproximadamente US$ 600, em média, os gastos das famílias americanas com seguro de imóveis.
A conta também aparece por meio dos impostos. Quando enchentes, incêndios, tempestades e outros desastres provocam grandes prejuízos, governos precisam direcionar recursos para reconstruir estradas, casas e estruturas públicas, além de arcar com despesas relacionadas à saúde e a outros impactos provocados pelos eventos extremos.
Dessa forma, mesmo famílias que não sofrem diretamente com a destruição de seus imóveis podem sentir os efeitos financeiros das mudanças climáticas por meio do aumento dos custos de seguros e da necessidade de ampliar os gastos públicos.
Europa acumula € 822 bilhões em perdas
O problema também ganha dimensão crescente na Europa, considerada o continente que mais rapidamente está aquecendo. Entre 1980 e 2024, as perdas econômicas diretas provocadas por eventos meteorológicos e climáticos extremos na União Europeia chegaram a € 822 bilhões.
Um quarto desse prejuízo foi registrado apenas nos quatro últimos anos do período analisado, indicando uma aceleração dos danos.
O valor, porém, não representa o custo total das mudanças climáticas. Os cálculos contabilizam principalmente perdas diretas, como a destruição de residências e infraestrutura. Ficam de fora diversos impactos indiretos, entre eles a redução da produção e da produtividade, além do aumento das despesas com saúde.
A tendência transforma eventos climáticos extremos em um problema que ultrapassa a esfera ambiental e passa a afetar diretamente as contas públicas e a economia das famílias.
Governos podem assumir uma parcela maior da conta
A frequência e a intensidade dos eventos extremos também colocam pressão sobre os orçamentos dos países. Em diferentes regiões da União Europeia, governos têm sido obrigados a utilizar recursos públicos para cobrir prejuízos após enchentes e secas, principalmente em situações nas quais a cobertura dos seguros privados é insuficiente.
A experiência de seis países europeus entre 2021 e 2024 mostrou como os gastos públicos podem aumentar depois de desastres climáticos quando a resposta depende de alocações emergenciais dos governos.
Nesse cenário, a ampliação da cobertura de seguros privados é apontada como uma forma de reduzir a parcela dos prejuízos assumida diretamente pelo Estado. Ao mesmo tempo, investimentos em prevenção, adaptação e mecanismos públicos de financiamento de riscos podem diminuir a exposição aos eventos extremos.











