O avanço da tecnologia ampliou a presença dos idosos no ambiente digital, mas também abriu novas oportunidades para criminosos. Uma das modalidades que mais preocupa especialistas envolve o uso de inteligência artificial para clonar a voz, a imagem e até o rosto de familiares. Com poucos segundos de gravação, golpistas podem produzir uma simulação convincente de um filho ou neto e utilizá-la para pedir dinheiro com urgência pelo WhatsApp.
A situação ganha relevância à medida que a população idosa se torna mais conectada. Há cerca de uma década, apenas 4% das pessoas com 60 anos ou mais acessavam a internet no Brasil. No levantamento mais recente citado pelo Comitê Gestor da Internet (CGI), o índice chegou a 20%.
Nas redes sociais, essa presença também é expressiva. Mais de 4 milhões de brasileiros com mais de 60 anos utilizam o Facebook, dentro de um universo de aproximadamente 117 milhões de usuários no país. A maior participação, porém, também aumenta a exposição a tentativas de fraude.
A clonagem de voz representa uma mudança importante na maneira como criminosos abordam as vítimas. Em vez de depender apenas de uma mensagem escrita ou de uma ligação genérica, o fraudador pode utilizar ferramentas de inteligência artificial para reproduzir características da voz de uma pessoa conhecida.
O roteiro costuma explorar a urgência. Um suposto filho ou neto pode afirmar que está enfrentando um problema e precisa de dinheiro imediatamente. A familiaridade da voz reduz a desconfiança e pode levar a vítima a agir antes de confirmar se realmente está falando com aquela pessoa.
O problema não se limita ao áudio. Fotografias e vídeos também podem ser manipulados para criar situações aparentemente reais, aumentando a capacidade de convencimento dos criminosos.
Idosos estão mais expostos no ambiente virtual
Um levantamento internacional da Kaspersky, realizado com 12 mil usuários de 21 países, incluindo o Brasil, mostrou diferenças na percepção dos riscos entre faixas etárias.
Entre os internautas com mais de 55 anos, somente 33% afirmaram saber que poderiam ser espionados pela webcam sem consentimento. Em relação ao compartilhamento de localização, apenas 25% demonstraram preocupação, enquanto a média considerando todas as idades chegou a 39%.
O cenário é especialmente relevante porque a internet passou a ocupar um espaço importante na rotina dessa população. Uma pesquisa realizada pelo SPC Brasil e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) mostrou que o contato com familiares era a principal atividade online para 62,9% dos idosos entrevistados, seguido pelo relacionamento com amigos, citado por 59,8%.
A busca por notícias sobre economia, política, esportes e moda também aparece entre as principais motivações, com 47,8%. Outros 43% utilizavam a internet para pesquisar produtos e serviços, enquanto 19,1% já faziam compras online. Eletroeletrônicos, eletrodomésticos e viagens estavam entre os itens mais procurados.
Golpes vão além da clonagem de voz
A inteligência artificial é apenas uma das ferramentas utilizadas atualmente. Entre as fraudes mais comuns estão falsos funcionários de bancos que solicitam senhas ou dados pessoais, empréstimos consignados contratados sem autorização e mensagens com links fraudulentos que prometem atualizar cadastros ou desbloquear benefícios governamentais.
Também existem abordagens que tentam provocar medo ou preocupação imediata. O criminoso pode afirmar que uma conta foi bloqueada, que existe uma dívida pendente ou que algum familiar está em perigo.
Um levantamento da Fundação Seade aponta a dimensão do problema em São Paulo: 82% das pessoas com 60 anos ou mais já teriam enfrentado tentativas de golpes virtuais por mensagens, ligações ou e-mails.
Por isso, uma das principais recomendações de segurança é evitar decisões tomadas sob pressão. Uma mensagem que provoque pânico, revolta ou euforia e exija uma atitude imediata deve ser encarada com desconfiança.
Como proteger idosos de golpes digitais
A primeira medida é estabelecer uma regra simples dentro da família: uma voz conhecida não é mais uma prova suficiente de identidade. Se um suposto parente pedir dinheiro, a orientação é desligar a ligação ou interromper a conversa e entrar em contato com a pessoa por outro canal conhecido.
Também é recomendável não atender chamadas de números desconhecidos quando não houver necessidade. Bancos e instituições legítimas não devem exigir senhas ou códigos de segurança por telefone, mensagens ou aplicativos de conversa.
Outra proteção importante é evitar clicar em links recebidos de remetentes desconhecidos, principalmente quando a mensagem promete desbloquear benefícios, corrigir problemas bancários ou atualizar dados pessoais.
Notícias alarmistas também precisam ser verificadas antes de serem compartilhadas. Quando uma informação parece extraordinária ou provoca uma reação emocional muito forte, vale procurar a mesma notícia em veículos jornalísticos reconhecidos ou consultar organizações de checagem.











