A Coreia do Norte anunciou nesta terça-feira (22) que realizou um novo teste de armamento considerado estratégico para o avanço de suas capacidades militares. Segundo o governo de Pyongyang, o lançamento realizado em 20 de setembro envolveu um novo sistema de armas e demonstrou avanços tecnológicos que podem fortalecer a preparação do país para um eventual conflito.
Imagens divulgadas pela imprensa estatal norte-coreana indicam que o equipamento testado seria um míssil balístico de curto alcance (SRBM) com capacidade hipersônica, tecnologia que pode dificultar a detecção e a interceptação por sistemas de defesa antimísseis.
O líder norte-coreano, Kim Jong Un, acompanhou o teste e afirmou que o desenvolvimento da nova arma representa um avanço importante para as Forças Armadas do país. Segundo a agência estatal KCNA, Kim declarou que o progresso tecnológico deverá representar uma “dor de cabeça incurável” para os inimigos de Pyongyang.
As Forças Armadas da Coreia do Sul detectaram dois lançamentos realizados pela Coreia do Norte no domingo, a partir da região costeira de Wonsan, no leste do país. Os disparos ocorreram com aproximadamente três horas de diferença.
De acordo com o Estado-Maior Conjunto sul-coreano, os projéteis percorreram cerca de 450 quilômetros e mais de 600 quilômetros, respectivamente, antes de seguirem em direção ao mar. O Japão informou que os mísseis caíram em águas situadas fora de sua zona econômica exclusiva.
A Coreia do Norte, entretanto, apresentou números diferentes. Uma tela mostrada nas imagens divulgadas pelo regime indicava uma trajetória de 908,2 quilômetros, com tempo de voo de 446,1 segundos, velocidade de 2.146 metros por segundo, equivalente a aproximadamente 4.800 milhas por hora, e altitude máxima de 35,8 quilômetros.
A discrepância entre os dados apresentados por Pyongyang e as informações divulgadas por Seul levantou dúvidas entre especialistas. Uma das possibilidades é que os números exibidos pelo regime tenham sido alterados ou apresentados de forma diferente para reforçar a demonstração de sucesso do teste.
Arma pode combinar míssil de curto alcance e tecnologia hipersônica
Embora a Coreia do Norte não tenha divulgado todas as especificações do armamento, as fotografias publicadas pela KCNA mostram o que aparenta ser um míssil balístico de curto alcance equipado com um veículo de deslizamento hipersônico.
Na tela observada durante o teste, aparece a inscrição “Hwasongpho-11Ma-1 flight trajectory”, associada à trajetória de voo do sistema.
Especialistas ouvidos pela imprensa sul-coreana avaliaram que o equipamento pertence à família Hwasong-11Ma e pode combinar um projétil da série KN-23, conhecido como “Iskander norte-coreano”, com uma ogiva de formato associado a veículos hipersônicos.
Para Shin Jong-woo, secretário-geral do Korea Defense and Security Forum, a divulgação dos dados de alcance e altitude teria como objetivo demonstrar a capacidade do armamento de realizar deslocamentos em baixa altitude.
Segundo a análise apresentada pelo especialista, as asas aparentemente mais alongadas do projétil podem indicar melhorias na capacidade de realizar movimentos de subida e deslizamento durante o voo.
Por que um míssil hipersônico preocupa os sistemas de defesa?
Armas hipersônicas são projetadas para atingir velocidades de pelo menos Mach 5, além de poderem realizar manobras durante o deslocamento. Diferentemente de mísseis balísticos convencionais, que seguem trajetórias relativamente previsíveis, esses sistemas podem modificar sua trajetória em altitudes mais baixas.
Essa característica aumenta a dificuldade para os sistemas de defesa calcularem antecipadamente onde o projétil estará durante as diferentes etapas do voo.
Uma das manobras possíveis é conhecida como “pull-up”, quando o armamento volta a ganhar altitude durante a fase de descida. A combinação entre velocidade elevada, baixa altitude e mudanças de trajetória pode reduzir o tempo disponível para uma eventual interceptação.
Por esse motivo, o desenvolvimento de um sistema desse tipo pode aumentar a pressão sobre as estruturas de defesa antimísseis da Coreia do Sul e dos Estados Unidos na região.
É o terceiro teste divulgado pela Coreia do Norte
O lançamento de setembro não seria um episódio isolado. Esta é a terceira vez que Pyongyang divulga testes de um míssil balístico de curto alcance com características hipersônicas.
Os lançamentos anteriores ocorreram em outubro do ano passado e janeiro. A repetição dos testes sugere que o programa continua sendo desenvolvido e que o país busca aperfeiçoar a capacidade de voo e manobra desse tipo de armamento.
Na avaliação apresentada pela Coreia do Norte, a obtenção dessa tecnologia possui importância direta para sua preparação militar e para o futuro desenvolvimento das Forças Armadas.
Kim Jong Un acompanhou o lançamento ao lado da filha adolescente, Kim Ju-ae, que aparece novamente em imagens oficiais relacionadas às atividades militares do pai. A presença da jovem em eventos estratégicos do regime continua sendo observada internacionalmente por sua possível relação com a sucessão política norte-coreana.











