Um equipamento que fazia extração de cascalho no leito do Danúbio acabou desenterrando um conjunto de ao menos 500 barras de ferro que estava soterrado havia 2.200 anos em território austríaco. Os detalhes desse achado foram divulgados em um artigo científico que saiu na revista Antiquity nesta segunda-feira (21).
Trata-se do maior volume de barras de ferro pré-históricas já encontrado de uma só vez no continente europeu.
Com mais de uma tonelada ao todo, o material veio à tona em 2019, nas proximidades da vila de Deinham, atual região da Alta Áustria. Operários que removiam cascalho perceberam objetos enferrujados com formato peculiar e avisaram o Escritório Federal de Monumentos da Áustria. Com isso, arqueólogos puderam examinar os resíduos da escavação e identificar o conjunto completo.
Matéria-prima para armas e ferramentas
As peças não eram armas prontas, e eram semiprodutos: blocos de ferro já moldados em barras, mas que ainda precisariam passar pelas mãos de ferreiros para virar espadas, ferramentas ou pregos.
Os arqueólogos liderados por Peter Trebsche, da Universidade de Innsbruck, constataram que o volume recuperado permitiria forjar aproximadamente 500 espadas ou, em alternativa, cerca de 8 mil pregos de ferro. O formato facilitava transporte e armazenamento antes da transformação final em objetos de uso.
Uma tonelada de ferro representava uma quantidade excepcionalmente grande de matéria-prima para o período. O recurso poderia estar associado a uma transação comercial de grande porte ou ao equipamento de um grande grupo de guerreiros. Mesmo com perdas naturais durante o processo de fabricação, a carga de Deinham teria fornecido armamento para um contingente militar considerável daquela época.
Descoberta por acaso durante trabalho industrial
Durante a retirada de cascalho das margens do Danúbio, em 2019, uma máquina puxou objetos de metal enferrujado, muitos com a característica ponta dupla. O achado levou à identificação de 193 barras completas e 307 fragmentos, totalizando pelo menos 500 peças. As barras inteiras medem, em média, 28,5 cm de comprimento e pesam cerca de 2 kg cada uma.
A datação aponta que as barras pertencem ao período La Tène, o trecho final da Idade do Ferro que vai, de forma geral, do século 5 ao século 1 a.C. Uma análise mais específica as situa nos séculos 3 ou 2 a.C. Pesquisadores acreditam que a carga foi perdida durante transporte fluvial — hipótese mais provável, embora não descartem deposição intencional.
A análise também foi conduzida por Marion Berranger, da Université de Technologie de Belfort Montbéliard, na França, em colaboração com a Universidade de Innsbruck.
Para os pesquisadores, é possível que o ferro tenha vindo da Baviera, área alemã situada a cerca de 200 km de onde as barras foram achadas, já que ali existem outros achados parecidos e locais de produção de ferro ligados a grandes assentamentos fortificados.
A descoberta revela como rotas de navegação do Danúbio funcionavam como caminhos essenciais para comércio de matérias-primas na Idade do Ferro.











