Elefantes selvagens na região do Monte Elgon, no Quênia, buscam plantas específicas quando adoecem. Além disso, as mães também oferecem remédios à base de plantas aos filhotes. Esse comportamento sugere algo curioso sobre a vida animal: que animais usam recursos da natureza para tratar enfermidades.
Um estudo publicado na Scientific Reports e conduzido pelo Instituto Bernhard Nocht de Medicina Tropical documentou, pela primeira vez de forma sistemática, quais plantas elefantes selvagens parecem usar para fins medicinais. Liderado pelo Dr. Fabien Schultz, o trabalho resultou de uma colaboração entre a Fundação Monte Elgon.
A Universidade de Ciências Aplicadas de Neubrandenburg, a Sociedade de Vida Selvagem da África Oriental-Projeto do Monte Elgon, os Museus Nacionais do Quênia e outros parceiros locais.
Como pesquisadores identificaram o comportamento
Pesquisadores entrevistaram oito especialistas locais com mais de 20 anos de convivência com os elefantes na região. Esses informantes incluíram guardas de vida selvagem, um ex-ranger, um oficial agrícola aposentado que cresceu no Monte Elgon e líderes comunitários — pessoas que vivem ao lado dos animais há décadas.
Nas conversas estruturadas, orientadas por diretrizes de pesquisa, os especialistas descreveram quais plantas os elefantes consomem quando exibem sinais de doença e como as comunidades locais utilizam esses recursos na medicina tradicional.
Para validar cientificamente os relatos, os pesquisadores prepararam espécimes de herbário de todas as espécies mencionadas, identificaram-nas botanicamente no Herbário da África Oriental e compararam seus nomes com bancos de dados internacionais. Analisaram relatos usando métricas etnobotânicas, verificando frequência de menções, partes utilizadas por humanos e elefantes, e doenças tradicionalmente tratadas.
Plantas com propriedades medicinais comprovadas
Muitas das espécies que os animais procuram desempenham papel na medicina tradicional indígena e já tiveram propriedades antibacterianas, anti-inflamatórias ou antiparasitárias documentadas em pesquisas anteriores. Os oito especialistas descreveram 39 recursos naturais usados intencionalmente pelos elefantes: 35 espécies vegetais de 23 famílias e quatro tipos de solo.
Em 34 casos, ou 87% das observações, os recursos identificados coincidiam com plantas usadas pela medicina tradicional local. 25 desses recursos foram explicitamente descritos como “remédio para elefantes”. Oito espécies vegetais atenderam aos critérios mais rigorosos de automedicação, incluindo Aloe arborescens, Bersama abyssinica e Ficus natalensis.
Nesses casos, os informantes perceberam animais doentes consumindo intencionalmente esses recursos que não são particularmente nutritivos nem palatáveis, frequentemente em pequenas quantidades, em horários incomuns ou de formas distintas.
Transmissão do conhecimento entre gerações
Especialistas locais descreveram elefantes viajando longas distâncias diretamente para uma árvore específica sem se alimentar no caminho, unicamente para consumir sua casca ou folhas. Esse comportamento sugere aprendizado, não apenas instinto — e a transmissão entre gerações reforça essa conclusão.
Especialistas locais relataram que mães elefantes oferecem plantas medicinais aos filhotes — um comportamento denominado alocuidado maternal. Cinco recursos foram identificados nessas interações mãe-filhote. Nem o processo exato de preparação nem um benefício medicinal ou de imunização foi ainda estabelecido, mas a equipe busca evidências em vídeo para documentar diretamente este comportamento.
Esse fenômeno, conhecido como zoofarmacognosia, é reconhecido desde os anos 1970 em outras espécies animais. Chimpanzés consomem deliberadamente folhas amargas para combater parasitas intestinais, e pássaros revestem seus ninhos com plantas inseticidas para evitar ácaros causadores de anemia.
Preenchendo uma lacuna na pesquisa científica
Alguns estudos anteriores sugeriram possível automedicação em elefantes, particularmente em espécies asiáticas. Porém, investigações sistemáticas em elefantes africanos eram raras até agora. O Monte Elgon, uma região de excepcional biodiversidade com sistemas de cavernas ricos em minerais, tornou-se o local ideal para preencher essa lacuna ao focar no ambiente natural dos animais.
A Fundação Monte Elgon documentou 55 cavernas usadas pelos elefantes, algumas das quais penetram até 160 metros de profundidade e são ricas em minerais. Esses espaços reforçam a importância dessas áreas como fontes de recursos naturais essenciais para a população de elefantes da região.
O comportamento conhecido de mineração de sal dos elefantes do Monte Elgon foi confirmado por todos os entrevistados. Os animais consomem argila e rochas ricas em minerais tanto para obter nutrientes quanto para proteger o sistema digestivo, embora o estudo não classifique este comportamento como clara medicação.
Implicações para conservação e saúde integrada
Pesquisadores também examinaram a literatura científica sobre plantas medicinais estudadas por suas propriedades farmacológicas. Identificaram sobreposições entre usos tradicionais, observações de elefantes e efeitos farmacológicos conhecidos. Essas intersecções podem servir como ponto de partida para investigações laboratoriais mais detalhadas.
Projetos futuros podem incluir estudos experimentais de plantas selecionadas, com a caracterização de seus constituintes químicos e testes de efeitos antimicrobianos, anti-inflamatórios ou antiparasitários. A colaboração contínua com as comunidades indígenas locais permanece igualmente importante, assim como a busca de evidências em vídeo para documentar o comportamento.











