Aos 83 anos, Dona Lourdes Batigalhia provou que o tempo não precisa ser um obstáculo para quem deseja voltar a estudar. Depois de passar décadas longe da sala de aula, a aposentada retomou a educação por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e recebeu o diploma do ensino fundamental em 8 de julho, em Araraquara, no interior de São Paulo. As informações são do portal g1.
A decisão veio depois da morte do marido. Sozinha, Lourdes percebeu que poderia finalmente retomar um antigo desejo que havia ficado para trás durante a juventude. Agora, com o certificado em mãos, ela já pensa no próximo objetivo: fazer uma faculdade.
A experiência, segundo a aposentada, provocou uma transformação profunda em sua vida.
“Mudou muito, muito mesmo. Eu aprendi mais, sei ler, sei escrever, sei pronunciar. Para mim foi uma maravilha”, afirmou.
Lourdes conta que cresceu em uma época em que as possibilidades educacionais e profissionais para muitas mulheres eram mais restritas. Segundo ela, durante a juventude, meninas eram frequentemente direcionadas para atividades domésticas e para os cuidados com a família.
“As meninas aprendiam a costurar, cozinhar, lavar e cuidar do marido. Quando ele faleceu e eu fiquei sozinha, falei: agora eu vou partir para o estudo”, contou.
Foi a partir desse momento que a aposentada decidiu mudar a própria rotina e voltar à escola. O retorno não apenas permitiu que ela concluísse uma etapa da formação escolar, mas também abriu novas perspectivas para o futuro.
Na mesma cerimônia de formatura, outros 35 estudantes receberam o diploma da EJA, equivalente ao ensino fundamental. Com a conclusão dessa etapa, os alunos ficam habilitados a prosseguir os estudos no ensino médio.
Família acompanhou a transformação
A decisão de Lourdes também teve impacto sobre os familiares. A filha, Eliane Zinato, contou que a mãe enfrentou um período de grande tristeza após a morte do marido, mas encontrou nos estudos uma maneira de reconstruir a própria rotina.
Segundo Eliane, a família apoiou a decisão desde o início.
“Ela quis voltar a estudar e apoiamos, é uma felicidade sem fim”, afirmou.
Para Lourdes, entretanto, a formatura não representa o encerramento de sua trajetória educacional. Pelo contrário: o diploma conquistado aos 83 anos é visto como uma etapa de um projeto ainda maior.
“Meu sonho foi realizado, só que eu vou partir para a frente. Vou fazer uma faculdade ainda, se Deus quiser”, declarou.
Número de idosos no ensino superior cresce
A história da aposentada ocorre em meio a um movimento de aumento da presença de pessoas mais velhas no ensino superior brasileiro. Dados do Mapa do Ensino Superior no Brasil, apresentado em 2024 pelo Semesp, mostram que estudantes com 60 anos ou mais ainda representam uma parcela pequena das matrículas, mas vêm ganhando espaço.
Nas instituições privadas, pessoas dessa faixa etária correspondiam a 0,4% dos estudantes de cursos presenciais e a 0,8% dos alunos de graduações a distância.
Apesar da participação reduzida, o grupo apresentou um dado significativo: foi o único que registrou crescimento nas matrículas presenciais de instituições privadas entre 2013 e 2023, com alta de 22%.
O movimento também se relaciona ao aumento da procura pelo ensino superior entre pessoas com mais de 40 anos. A educação continuada, a busca por novos conhecimentos, mudanças profissionais e a realização de sonhos interrompidos estão entre os fatores que ajudam a explicar esse fenômeno.
Educação ao longo da vida ganha espaço
A presença de estudantes mais velhos também traz novos desafios para as instituições de ensino. A experiência acumulada ao longo da vida faz com que esse público tenha trajetórias, expectativas e necessidades diferentes das encontradas entre estudantes mais jovens.
Nesse cenário, políticas de acesso, bolsas de estudo e outras formas de apoio podem contribuir para ampliar a participação de adultos e idosos na educação superior.











