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A quase 4 km de profundidade, pesquisadores encontram embalagens, sacolas e até uma bota no fundo do mar e revelam até onde a poluição já chegou

Por Pedro Silvini
21/09/2026
Em Geral
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oceano coral

Foto: (Reprodução/NOAA)

O lixo produzido em terra firme está chegando a lugares que, durante muito tempo, pareciam estar fora do alcance da ação humana. Em uma expedição realizada em 2025, pesquisadores encontraram embalagens de alimentos, sacolas plásticas, copos, equipamentos de pesca, cordas e até uma bota de borracha a quase quatro quilômetros abaixo da superfície do Atlântico.

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Os resíduos foram identificados no Cânion Submarino de Mar del Plata, uma enorme formação localizada a cerca de 290 quilômetros da costa da Argentina. A região nunca havia sido observada diretamente no fundo do mar, e as imagens obtidas por um veículo operado remotamente revelaram não apenas uma biodiversidade pouco conhecida, mas também a presença de lixo em um dos ambientes mais extremos do planeta.

Ao todo, foram realizadas 17 descidas do veículo submersível SuBastian, do Schmidt Ocean Institute. Em dez delas, os pesquisadores registraram 29 objetos claramente produzidos pelo ser humano. A maior parte — 27 itens — era de plástico.

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Entre os objetos encontrados estava uma embalagem colorida de macarrão instantâneo Mi Goreng, localizada a 1.920 metros de profundidade. Pouco abaixo, a 1.949 metros, os pesquisadores identificaram uma corda de náilon com um gancho.

bota mar
Foto: (Reprodução/Teso et al., 2026, PLOS One, CC-BY 4.0)

A lista continuou com embalagens de alimentos, copos e sacolas plásticas. Em determinado ponto da expedição, uma bota de borracha apareceu a 2.598 metros abaixo da superfície.

Os registros mais profundos foram ainda mais impressionantes. Um fragmento plástico altamente degradado foi observado a aproximadamente 3.709 metros, enquanto uma sacola parcialmente preenchida por sedimentos estava a 3.739 metros. Uma embalagem de papel ou tecido também foi registrada a cerca de 3.814 metros.

O ponto máximo de observação de resíduos chegou a 3.820 metros de profundidade.

O levantamento foi conduzido por uma equipe internacional liderada por Daniel Lauretta, do Museu Argentino de Ciências Naturais, e os resultados foram publicados na revista científica PLOS One.

O próprio relevo submarino pode concentrar a poluição

A distribuição dos resíduos chamou a atenção dos pesquisadores. O lixo não apareceu de maneira uniforme no fundo do oceano: havia uma concentração maior dentro do cânion do que nas áreas próximas.

A explicação está relacionada à própria estrutura da formação submarina. O relevo e as correntes marinhas podem funcionar como uma espécie de corredor natural, transportando materiais e fazendo com que eles se acumulem nas regiões mais profundas.

“À medida que o peixe nada — ou à medida que os detritos afundam — o fundo do mar não está tão distante”, explicou Lauretta ao comentar os resultados da expedição.

Segundo o pesquisador, os oceanos têm, em média, apenas alguns quilômetros de profundidade. Isso significa que, apesar da enorme distância entre a superfície e os ambientes abissais, eles continuam conectados aos processos que acontecem nas regiões ocupadas pelos seres humanos.

Animais também entram em contato com o lixo

A expedição revelou outro aspecto preocupante: o lixo não está simplesmente parado no fundo do mar. Alguns organismos interagem diretamente com os objetos.

Crustáceos foram observados em contato temporário com os resíduos. Já animais que permanecem fixos ou se movimentam pouco, como estrelas-do-mar e corais, foram vistos presos ou aderidos a materiais descartados.

Em alguns casos, embalagens plásticas e cordas de pesca já estavam parcialmente incorporadas ao ambiente.

Para os cientistas, esse tipo de interação mostra que a poluição não desaparece quando deixa de ser visível na superfície. Os resíduos podem permanecer no fundo oceânico, ser transportados pelas correntes e acabar incorporados aos habitats de espécies que vivem em profundidades extremas.

Expedição também encontrou possível vida ainda desconhecida

A contradição encontrada no cânion submarino tornou a expedição especialmente relevante. Ao mesmo tempo em que o lixo humano foi identificado a milhares de metros de profundidade, os pesquisadores também registraram cerca de 40 espécies que podem ser novas para a ciência.

O estudo representa, portanto, uma das primeiras oportunidades de observar diretamente uma área do fundo do mar que permanecia praticamente desconhecida.

A presença de espécies potencialmente inéditas ao lado de embalagens e outros objetos descartados reforça a dimensão do impacto humano. Mesmo ambientes que aparentam estar isolados e inacessíveis podem receber materiais transportados durante anos pelas correntes oceânicas.

E o fenômeno não está restrito ao Atlântico Sul. Poucos meses antes da expedição argentina, uma sacola plástica havia sido registrada na Fossa das Marianas, a região mais profunda conhecida dos oceanos.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Pedro Silvini

Pedro Silvini

Jornalista com formação em Mídias Sociais Digitais, colunista de conteúdo social e opinativo. Apaixonado por cinema, música, literatura e cultura regional.

Confira!

Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil

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