Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) identificaram a presença da bactéria Acinetobacter baumannii em amostras de água coletadas em quatro pontos de Porto Alegre, incluindo praias e trechos do lago Guaíba. Em uma das análises, o microrganismo apresentou resistência total a antibióticos testados, levantando alerta sobre risco sanitário e possível contaminação ambiental.
O estudo integra os projetos ClimaRes WaSH e CLIMASANO e revelou a presença da bactéria na praia do Lami, na praia de Ipanema e em dois pontos do Guaíba: próximo à foz do arroio Dilúvio e nas imediações da Estação de Bombeamento de Água Pluvial (EBAP) Menino Deus.
O caso mais crítico foi registrado na amostra coletada perto da EBAP Menino Deus. Segundo os pesquisadores, a bactéria encontrada no local apresentou resistência a 14 antibióticos avaliados, incluindo medicamentos considerados de última linha no tratamento de infecções graves, como imipenem, meropenem, ciprofloxacino e ceftazidima.
Nas demais áreas analisadas, os isolados também demonstraram resistência parcial a diferentes antimicrobianos, reforçando o alerta sobre a circulação de cepas resistentes no ambiente urbano.
A Acinetobacter baumannii é classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das bactérias mais perigosas do mundo, devido à sua alta capacidade de desenvolver resistência a medicamentos e causar infecções hospitalares difíceis de tratar.

Superbactéria pode estar ligada a resíduos hospitalares
Os pesquisadores responsáveis pelo estudo agora trabalham no sequenciamento genômico das amostras para entender os mecanismos de resistência e verificar possível relação com cepas associadas a um surto ocorrido em abril na UTI neonatal do Hospital Fêmina.
A principal hipótese levantada pela equipe é de que resíduos hospitalares estejam sendo descartados de forma inadequada na rede de esgoto, contribuindo para a disseminação da bactéria no ambiente aquático.
A investigação também busca compreender a conexão genética entre as amostras ambientais e casos clínicos, o que pode indicar circulação contínua da bactéria entre ambiente urbano e unidades de saúde.
Bactéria é comum no ambiente, mas perigosa em hospitais
Presente naturalmente em solo e água, a Acinetobacter baumannii raramente causa problemas em pessoas saudáveis. No entanto, em ambientes hospitalares, pode provocar infecções graves no sangue, pulmões, trato urinário e feridas, especialmente em pacientes com imunidade comprometida ou em uso de dispositivos médicos.
A bactéria ganhou destaque global a partir da década de 1990, quando passou a ser associada a infecções hospitalares resistentes. Ela integra o grupo de microrganismos com maior prioridade para desenvolvimento de novos antibióticos, segundo a OMS.
Especialistas alertam que a facilidade de sobrevivência da bactéria em superfícies secas e sua capacidade de adquirir genes de resistência tornam o controle da sua disseminação um desafio crescente para a saúde pública.
Embora também possa ter aplicações benéficas em contextos específicos da agricultura, como no aumento da produtividade da cana-de-açúcar, sua presença em ambientes urbanos e hospitalares é tratada como potencial risco sanitário de alta relevância.



