O feijão, um dos alimentos mais presentes na mesa dos brasileiros, entrou em setembro sob uma combinação pouco comum: os preços estão elevados no campo, continuam avançando e, mesmo assim, o cenário não tem sido suficiente para estimular os produtores a ampliar o plantio. As primeiras perspectivas para a safra 2026/27 apontam redução da área cultivada em importantes regiões produtoras, aumentando a preocupação com a oferta e com o preço que chegará ao consumidor em 2027.
Segundo avaliação do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), o feijão-carioca pode alcançar valores próximos de R$ 12 por quilo em algumas regiões em fevereiro, o que representaria um patamar recorde. A projeção ocorre justamente em um momento de valorização acelerada da commodity no mercado brasileiro.
A alta ganhou força nas últimas semanas. De acordo com Marcelo Lüders, presidente do Ibrafe, já existem negociações acima de R$ 310 por saca, com aumentos de aproximadamente R$ 10 a R$ 15 registrados em intervalos de apenas três ou quatro dias.
O movimento também aparece nas praças acompanhadas pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), especialmente no Paraná. O feijão-preto vem concentrando as maiores valorizações recentes, enquanto as ofertas do carioca permanecem firmes por parte dos vendedores.
Do outro lado da negociação, os compradores passaram a adotar maior cautela diante da sequência de aumentos. A combinação entre menor disponibilidade e demanda ainda presente mantém o mercado pressionado.
A situação se relaciona diretamente ao balanço da safra 2025/26. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), citados pelo Cepea, apontam estoques finais estimados em apenas 98,1 mil toneladas. O volume é considerado restrito e ajuda a explicar por que os preços permanecem sustentados.

Terceira safra aumenta pressão sobre o mercado
Em setembro, a comercialização da terceira safra também contribui para o comportamento das cotações. A oferta mais limitada impede uma recomposição confortável dos estoques e deixa o mercado mais sensível a qualquer alteração na produção ou na demanda.
Para o feijão-carioca, os vendedores seguem sustentando suas ofertas, enquanto os compradores tentam administrar o impacto dos preços maiores. No caso do feijão-preto, a valorização recente nas regiões produtoras reforça a percepção de um mercado apertado.
O problema pode se prolongar para o próximo ciclo. As primeiras indicações da safra 2026/27 apontam redução da área plantada em regiões importantes, justamente quando seria necessário ampliar a produção para aliviar a pressão sobre os preços.
Caso esse movimento se confirme, a menor área cultivada poderá limitar ainda mais a oferta nos próximos meses e abrir espaço para novas altas no varejo.
Cesta básica caiu em agosto, mas cenário anual ainda preocupa
A pressão sobre o feijão ocorre em um contexto mais amplo de oscilação no custo dos alimentos. Em agosto, o preço da cesta básica caiu em 25 das 27 capitais brasileiras, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em parceria com a Conab.
A redução foi favorecida principalmente pelo recuo nos preços de produtos como batata, café em pó e tomate.
As maiores quedas entre julho e agosto ocorreram em Rio Branco (-4,68%), Manaus (-4,55%), Boa Vista (-4,47%), Aracaju (-3,89%), Cuiabá (-3,37%), Salvador (-3,30%), Porto Velho (-2,93%), Recife (-2,62%), Goiânia (-2,51%) e Belém (-2,07%).
Em sentido contrário, Maceió registrou alta de 1,43%, enquanto São Luís teve avanço de 0,78%.
Mesmo com a queda mensal, São Paulo continuou apresentando a cesta básica mais cara do país, com custo de R$ 900,59, após recuo de 1,58%. Na sequência apareceram Cuiabá, com R$ 851,57; Rio de Janeiro, com R$ 851,19; e Florianópolis, com R$ 850,90.
Nas regiões Norte e Nordeste, onde a composição da cesta é diferente, os menores valores médios foram encontrados em Aracaju (R$ 570,98), Natal (R$ 627,42), Maceió (R$ 627,45) e Salvador (R$ 628,89).
Alta anual mostra que alimentação continua pesando
Quando a comparação é feita com agosto de 2025, o quadro muda. Entre os dois períodos, o custo da cesta básica aumentou em 25 capitais e diminuiu em apenas duas.
As maiores altas acumuladas foram registradas em Goiânia (7,51%), Cuiabá (6,42%) e Vitória (6,26%). As únicas reduções ocorreram em Brasília, com queda de 0,64%, e Palmas, com recuo de 0,27%.
A diminuição registrada em agosto reduziu o tempo necessário para que o trabalhador comprasse todos os produtos da cesta. A média nacional ficou em 98 horas e 37 minutos, contra 100 horas e 24 minutos em julho.
Ainda assim, a despesa representou 48,46% do salário mínimo líquido. Considerando o valor da cesta mais cara, o Dieese calculou que o salário mínimo necessário para atender às despesas básicas deveria ter alcançado R$ 7.565,86, equivalente a 4,67 vezes o salário mínimo de R$ 1.621.











