Em 1916, o assassinato de um rico agricultor chocou Santiago, no Chile, e levou sua esposa, Corina Rojas, à condenação à morte. Aos 28 anos, mãe de quatro filhos, ela foi acusada de contratar um homem para matar o marido, David Díaz-Muñoz, 36 anos mais velho. Mais de cem anos depois, a história ganhou um novo olhar pelas mãos da própria família: Andrea Díaz-Muñoz, bisneta de Corina e juíza criminal, descobriu em 2020 que o caso que estudava tinha ligação direta com sua própria genealogia.
A descoberta ocorreu por acaso, enquanto Andrea assistia ao noticiário do Poder Judiciário chileno. O programa apresentava um episódio sobre o chamado crime da rua Lord Cochrane e mencionava o sobrenome da vítima. Inicialmente, a magistrada imaginou que fosse apenas uma coincidência. Ao entrar em contato com parentes e reunir informações fragmentadas preservadas pela família, porém, descobriu um segredo que havia atravessado gerações: Corina Rojas era sua bisavó.
Seis anos depois da descoberta, Andrea transformou a investigação familiar no livro Corina: una mujer, no un crimen, publicado pela J. C. Sáez Editor. A obra busca reconstruir a mulher por trás de um dos processos criminais mais comentados do Chile no início do século XX.
Um casamento imposto quando Corina tinha apenas 15 anos
A relação entre Corina e David Díaz-Muñoz começou em circunstâncias muito diferentes das que poderiam ser esperadas de um casamento voluntário. Segundo a reconstrução feita pela bisneta, os pais de Corina a obrigaram a se casar quando ela tinha apenas 15 anos. O marido tinha 51.
Anos depois, já adulta e mãe de quatro filhos, Corina mantinha um relacionamento com outro homem, um professor de piano que, segundo o relato, exerceu influência sobre ela e a convenceu a recorrer a um assassino. O escolhido foi Alberto Duarte, conhecido pelo apelido de “El saco de luche”.
Na noite de 21 de janeiro de 1916, enquanto David dormia em sua residência, na rua Lord Cochrane, número 338, no centro de Santiago, Duarte entrou em ação. O agricultor foi atingido no peito por uma punhalada.
A estratégia utilizada para encobrir o crime também acabou dando origem ao nome pelo qual a história ficou conhecida no cinema. Corina havia organizado uma reunião em sua casa, com familiares, um comissário de polícia e dois empresários. Enquanto os convidados jogavam cartas, o assassino permanecia escondido atrás de uma cortina de veludo, esperando que David adormecesse.
Uma tentativa anterior e a falta de alternativas
O assassinato não teria sido o primeiro plano para eliminar o marido. Em dezembro de 1915, aproximadamente um mês antes do homicídio, Corina já havia tentado envenenar David, recorrendo, segundo os relatos históricos, a uma prática de bruxaria.
Para Andrea Díaz-Muñoz, compreender as circunstâncias da vida da bisavó não significa justificar o assassinato. A magistrada afirma que o crime foi grave, mas considera necessário observar as condições sociais enfrentadas por Corina.
Naquele período, uma mulher casada tinha possibilidades extremamente limitadas para romper uma relação considerada insatisfatória. Corina dependia economicamente do marido e tinha quatro filhos. Além disso, manter um relacionamento extraconjugal poderia provocar forte condenação social.

A própria bisneta ressalta que Corina não dispunha das alternativas que mulheres poderiam buscar atualmente, como separação, definição de guarda dos filhos e acesso a uma pensão que garantisse sua sobrevivência. Na interpretação de Andrea, a combinação de dependência econômica, casamento imposto e pressão social ajuda a explicar o contexto em que o crime aconteceu, embora não retire a responsabilidade pelo homicídio.
Livros publicados ainda em 1916 descreviam detalhadamente sua aparência e personalidade, associando características físicas e comportamentais à ideia de uma mulher sensual, volúvel e supostamente pouco dedicada à vida doméstica. David, por outro lado, era retratado principalmente a partir de suas qualidades sociais: provedor da família, pai considerado exemplar e proprietário rural respeitado.
Condenada à morte, mas salva pelo indulto
A repercussão do caso foi tão grande que o crime chegou rapidamente à literatura e ao cinema. Ainda em 1916, foram publicados livros sobre o assassinato, antes mesmo da sentença definitiva.
O episódio também inspirou La baraja de la muerte, conhecido como El enigma de la calle Lord Cochrane, considerado o primeiro longa-metragem produzido no Chile. A produção cinematográfica tentou aproveitar a enorme atenção pública em torno do julgamento.
As filmagens levaram cerca de três meses e foram concluídas em agosto daquele ano. O lançamento estava previsto para 17 de agosto, no Teatro de Santiago, mas a sala foi fechada por determinação do prefeito da capital, oficialmente por razões relacionadas à ordem social. A censura acabou transferindo a estreia para Valparaíso e aumentou ainda mais a curiosidade do público.
Depois, a produção voltou a ser exibida em Santiago. Apesar da repercussão na época, nenhum exemplar do filme sobreviveu. Não existem registros conhecidos de imagens das filmagens ou da própria obra, e pouco se sabe sobre o destino dos atores.











