Aos 46 anos, Maria de Lurdes Teixeira de Souza decidiu fazer algo que durante décadas pareceu distante: voltar para a sala de aula. Cozinheira no Ministério da Educação (MEC), a piauiense interrompeu os estudos aos dez anos por causa das dificuldades de deslocamento no interior do estado. Anos depois, já adulta e com uma trajetória profissional construída, retomou a escolarização pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Centro de Formação e Aperfeiçoamento do Ministério da Educação (Cetremec).
A decisão representa mais do que a retomada de uma etapa interrompida na infância. O domínio da leitura e da escrita passou a fazer parte de tarefas cotidianas, como auxiliar o filho nas atividades escolares, compreender bulas de medicamentos e consultar receitas culinárias. Agora, o próximo objetivo é ainda maior: chegar à faculdade e estudar Gastronomia.
“Nunca é tarde para aprender, não interessa que idade seja”, afirma Lurdes. Segundo ela, o retorno exigiu enfrentar a vergonha de estar novamente entre estudantes mais jovens. “Eu tinha vergonha de voltar para a sala de aula. Pensava: ‘Nossa, eu, com essa idade, junto com os garotinhos lá’. Mas aí surgiu essa oportunidade, deixei a vergonha de lado e encarei.”

EJA perde alunos enquanto adultos buscam retomar os estudos
A história de Lurdes ocorre em um cenário contraditório da educação brasileira. Ao mesmo tempo em que cresce o interesse de adultos pela continuidade da formação, a Educação de Jovens e Adultos registra redução significativa no número de matrículas.
Dados do Censo Escolar apontam que 2024 registrou o menor número de estudantes matriculados na modalidade em duas décadas. Entre 2015 e 2024, o contingente caiu de aproximadamente 3,5 milhões para 2,4 milhões de matrículas.
A EJA é destinada justamente à população que não teve oportunidade de concluir a educação básica na idade considerada regular.
O universo potencial, entretanto, permanece enorme. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-IBGE) indicam que existem 68 milhões de pessoas que não concluíram a educação básica. Entre elas, aproximadamente 9,3 milhões são analfabetas.
Mais da metade dos brasileiros que não sabem ler e escrever tem 60 anos ou mais, enquanto cerca de 1 milhão está na faixa entre 15 e 39 anos.
Faculdade também virou caminho para quem passou dos 40
A mudança de trajetória de Lurdes também acompanha uma transformação no ensino superior. Os dados do Inep mostram que a presença de estudantes com 40 anos ou mais aumentou 93,84% entre 2011 e 2022.
Somente em 2022, quase 600 mil pessoas nessa faixa etária ingressaram em universidades brasileiras. Atualmente, estudantes com mais de 40 anos representam aproximadamente 13,4% dos universitários do país, o equivalente a cerca de 1,2 milhão de pessoas.
O movimento ganhou força inclusive em períodos mais recentes. Entre 2019 e 2021, o número de universitários com mais de 40 anos cresceu 33%, segundo os dados mencionados do Censo da Educação Superior.
A tendência também aparece em instituições específicas. Na Universidade de Fortaleza, por exemplo, o número de alunos nessa faixa etária matriculados no semestre 2023.1 aumentou 29,37% em comparação com 2022.1.
Experiência profissional se transforma em novo projeto
Para adultos que retornam aos estudos depois de décadas, a universidade pode representar não apenas uma mudança profissional, mas também a realização de um projeto pessoal interrompido.
No caso de Lurdes, a relação com a culinária já fazia parte de sua vida profissional. A possibilidade de transformar essa experiência em formação acadêmica é justamente o que alimenta o desejo de ingressar em um curso de Gastronomia.
Sua trajetória mostra que o retorno à educação pode produzir efeitos que vão muito além de um diploma. Ler uma receita, compreender uma informação médica, acompanhar a lição do filho ou simplesmente recuperar a confiança para estudar são conquistas que começam antes mesmo da chegada à universidade.











