A Colômbia cancelou um projeto bilionário que poderia criar uma nova ligação de internet entre o país e o Brasil por meio da Amazônia. A iniciativa previa a instalação de uma rede de fibra óptica no Rio Putumayo, chamado de Rio Içá quando entra em território brasileiro, conectando a cidade colombiana de Leticia à infraestrutura que já chega a Tabatinga, no Amazonas.
O projeto era considerado estratégico para ampliar a integração das redes de telecomunicações dos dois países e levar conectividade de alta capacidade a uma região marcada por grandes distâncias e dificuldades de infraestrutura.
A decisão foi tomada pelo Ministério de Tecnologias da Informação e das Comunicações da Colômbia (MinTIC), que cancelou a licitação responsável pela implantação da fibra e pela contratação da supervisão técnica e administrativa da obra.
Segundo o governo colombiano, a medida teve caráter técnico e financeiro. As autoridades apontaram incertezas orçamentárias e avaliações preliminares que indicavam possíveis riscos técnicos, ambientais, de cobertura e de viabilidade financeira.
Projeto previa conexão entre Tabatinga e Leticia
O plano tinha como ponto central a ligação entre duas cidades separadas pela fronteira amazônica. A infraestrutura brasileira chegaria a Tabatinga, enquanto a rede colombiana partiria de Leticia, permitindo estabelecer uma conexão entre os sistemas de telecomunicações.
A ideia era aproveitar a proximidade das duas cidades para ampliar a rede colombiana a partir da infraestrutura brasileira já existente.
O projeto fazia parte de uma estratégia maior de expansão da conectividade na Amazônia e estava relacionado ao programa brasileiro Norte Conectado, que utiliza infovias de fibra óptica instaladas ao longo dos rios amazônicos.
A estrutura brasileira já alcança a região da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, criando condições para uma eventual integração internacional.
Acordo entre os países havia sido firmado em 2024
A aproximação tecnológica entre Brasil e Colômbia havia sido formalizada em abril de 2024, quando os dois governos assinaram um acordo de cooperação para estudar a extensão das infovias brasileiras até Leticia.
O memorando previa a criação de um grupo de trabalho formado pelos ministérios responsáveis pelas comunicações dos dois países. A equipe teria como função planejar a interconexão subfluvial e estudar os aspectos necessários para a implantação da infraestrutura.
A proposta também ia além da instalação dos cabos. O acordo previa cooperação e troca de informações em áreas como redes de banda larga, segurança das comunicações, Internet das Coisas, inteligência artificial e tecnologias móveis.
A chegada da estrutura colombiana seria feita a partir da Infovia 02, integrante do Norte Conectado e responsável por percorrer trechos da Amazônia até alcançar Tabatinga.
Orçamento aumentou antes do cancelamento
O projeto colombiano havia sido inicialmente estimado em aproximadamente 683 bilhões de pesos, valor equivalente a cerca de R$ 1,14 bilhão na conversão apresentada nas informações do projeto.
Em 2026, entretanto, a previsão orçamentária passou por uma forte ampliação. O custo estimado aumentou 67,1%, chegando a aproximadamente 1,14 trilhão de pesos.
A elevação dos custos ocorreu antes do cancelamento da licitação e passou a integrar o conjunto de fatores considerados pelo governo colombiano na avaliação da viabilidade da iniciativa.
Além da questão financeira, o MinTIC apontou incertezas relacionadas à própria execução da obra, aos impactos ambientais e à capacidade de garantir cobertura efetiva na região amazônica.
Governo colombiano nega motivação política
Apesar das mudanças políticas ocorridas no país, o Ministério de Tecnologias da Informação e das Comunicações colombiano afirmou que o cancelamento não teve motivação política.
A justificativa oficial se concentra nos riscos identificados durante as avaliações do projeto e na falta de segurança quanto à sua sustentabilidade financeira.
A região também enfrenta desafios adicionais de infraestrutura e reconstrução após um forte terremoto, que provocou impactos em diferentes áreas do país, incluindo Bogotá. Esse cenário aumenta a pressão sobre os recursos públicos e pode influenciar a priorização de investimentos.
O governo brasileiro não comentou o cancelamento da iniciativa binacional.
Norte Conectado continua avançando no Brasil
O fim do projeto colombiano não significa, porém, o encerramento da expansão da infraestrutura de internet na Amazônia brasileira.
O programa Norte Conectado continua em desenvolvimento no território nacional, ampliando a rede de fibra óptica por meio das chamadas infovias.
A estrutura brasileira permanece, inclusive, como um ponto estratégico para uma eventual futura conexão internacional. Documentos oficiais colombianos reconhecem que a proximidade com a infraestrutura já instalada no Brasil representa uma oportunidade para melhorar a conectividade do lado colombiano da floresta.











